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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Mar19

O Barroso aqui tão perto - Antigo de Viade

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Geralmente às segundas-feiras fazemos o regresso à cidade, mas hoje, para ser diferente, apenas vamos passar pela cidade, seguimos em direção ao São Caetano, paramos lá, não para cumprir promessa, rezar ou meditar, mas para encher a garrafa de água fresca para o resto da viagem, depois seguimos em direção a Soutelinho da Raia sem entrar na aldeia, pois logo no início vamos virar à esquerda e, umas centenas de metros à frente,  entramos no concelho de Montalegre, mas antes, imediatamente antes de entrarmos em Montalegre, paramos no alto,  junto ao grande penedo, para deitar um olhar sobre a Serra do Larouco, é dali, que a serra mostra toda a sua imponência e se transforma no Deus Larouco, daí, ser paragem obrigatória.

 

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Bem, poderia continuar a descrever o resto da viagem e o que iria acontecer, mas na realidade esta viagem já foi feita, e o que vai ficar por aqui é aquilo que vimos na aldeia barrosã convidada de hoje, Antigo de Viade, a última da trilogia de aldeias com o topónimo de Viade. Se calha, esta, Antigo de Viade, até deveria ter sido a primeira, mas calhou para o fim, pois primeiro fomos até Viade de Baixo, depois a Viade de Cima e hoje, sim, fica Antigo de Viade.

 

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Pois regressemos ao trajeto que fizemos até lá, um dos nossos preferidos para entrar no Barroso, e recordemos que o nosso ponte de partida é sempre a cidade de Chaves. Pois preferencialmente vamos via São Caetano, passamos por Soutelinho da Raia, entramos no concelho de Montalegre e logo na primeira aldeia, Meixide, deixamos a estrada principal que nos levaria até Montalegre, via Vilar de Perdizes, e viramos em direção a Pedrário e logo a seguir entramos em Sarraquinhos onde de novo abandonamos a estrada que também nos levaria até Montalegre para apanharmos uma outra que nos levará até Zebral, Vidoeiro e o Barracão, onde apanhamos a EN103 em direção a Braga, logo a seguir vai-nos aparecer a barragem dos Pisões (à esquerda) e depois de passarmos pela Aldeia Nova do Barroso, São Vicente, Travassos da Chã, Penedones e Parafita, ainda tendo a barragem dos Pisões por companhia, saímos da EN103 (à direita) para finalmente entrarmos em Antigo de Viade.

 

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Viramos à direita mas também à esquerda, entre a EN103 e a Barragem já há casario que pertence à aldeia, mas trata-se de casario mais recente e de certeza que não me engano, trata-se de casario que só foi construído depois da construção da barragem em meados do século passado. Mas o nosso destino é mesmo a antiga aldeia de Antigo de Viade, embora depois de a termos visitado também fomos deitar uns olhares à barragem e ao viveiro das trutas. Para melhor esclarecer este trajeto, fica o nosso habitual mapa.

 

antigo-viade-mapa.jpg

 

Quanto ao regresso a Chaves, como de costume, propomos um itinerário diferente e que poderá ser a EN103, ou seja, voltamos para trás e no Barracão em vez de tomarmos o trajeto de ida, continuamos pela EN103 até Chaves.

 

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Entremos em Antigo de Viade, que sem ter qualquer documento (para já) em que me apoiar, suponho que será a mais antiga das três aldeias que adotaram o topónimo de Viade. Pois, em geral, costumámos surpreende-nos pela positiva quando entramos pela primeira vez numa aldeia, mas desta vez, tal não aconteceu, tudo porque depois de termos passado por Viade de Baixo e Viade de Cima, só ficaríamos surpreendidos se Antigo de Viade, no que respeita a aldeia típica barrosã,  ao casaria e à envolvência não estivesse a par ou à altura das outras duas. Claro que tem as suas singularidades e é diferente das outras, mas igualmente interessante, pelo que recomendamos e merece ser visitada.

 

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Do que mais gostámos de ver em Antigo de Viade, para além do conjunto como aldeia, da verdura da sua envolvência e do espaço junto à barragem, podemos destacar a sua igreja com a torre sineira separada do edifício e localizada em frente à entrada principal, tal como vai acontecendo em outras igrejas do Barroso. Gostámos também de ter visto algumas recuperações de casario respeitando a traça original e do conjunto escola/recreio e a sua localização, já não gostámos tanto de a ver abandonada.

 

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Claro que para além do abandono da escola, também há outros pormenores que gostámos menos, tal como algumas ruínas, algumas casas abandonadas, o envelhecimento da população e, claro, a tendência ao despovoamento, ou seja, o costume nas aldeias mais pequenas e mais distantes da sede de concelho.

 

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Quanto às nossas pesquisas, no livro “Montalegre” ficámos um pouco baralhados, pois há muitas referências a Viade, simplesmente Viade, sem referir se é Viade de Cima, Viade de Baixo ou antigo de Viade. Aliás o Antigo de Viade não é referido nenhuma vez, pois a aldeia apenas aparece como Antigo, a única referência e apenas para dizer que faz parte da freguesia de Viade de Baixo, atualmente Viade de Baixo e Fervidelas.

 

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No resto das pesquisas também pouco mais encontrámos. Há no entanto no Facebook dos sítios com referências da Antigo de Viade, uma página e um grupo, ficam os links:

 

https://www.facebook.com/antigo.deviade

https://www.facebook.com/groups/156309271139920/

 

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Quanto a “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

Antigo de Viade

 

Nasce do adjectivo latino ANTIQUU > ANTICO > ANTIGO, mas com idêntica significação. Sendo adjectivo há que subentender o substantivo perdido. É natural que fosse algum casal, vilar ou construção arqueológica que se desconhece qual fosse. Mantém-se o topónimo que recorda o facto.

 

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Ora assim sendo, vamos ao topónimo de Viade, que Antigo de Viade também tem:

 

VIADE

 

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

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Quanto à “Toponimia Alegre” integrada na “Toponímia de Barroso” temos em relação a Antigo de Viade:

 

Justiça do céu te caia,

De Deus te venha o castigo,

Porque te foste casar

No deserto do Antigo.

 

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 E mais esta:

 

Adeus lugar do Antigo

Tens um chafariz no meio

Onde os homens vão beber

Com a cabeçada e freio.

 

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A mais esta ainda:

 

Dizem os do Antigo:

Ao clérigo-frade

Nem por amigo

Nem por compadre

 

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Também aqui:

 

Cávado – Regavão:

 

Leirões de Lamas,

Lagartos de Fervidelas,

Conhadeiros de Bustelo,

Boleteiros de Friães,

Ladrugães, esfola-gatos mata-cães,

Manta-moura de Reigoso,

Chinos de Currais,

Porcos de Sacoselo,

Ovelhas de Pondras,

Fanhos de Travaços de Chã,

Penedos de Penedones,

Tomba-malgas de Parafita

Ó derrim pó-pó

Cabra velha arroz pró pote!

Corta-matos do Antigo,

Esfola-cabras de Viade

Arribadas de Viade de Cima,

Machuchos da Vila

Cambados de Cambeses

(…)

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade ou mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

11
Mar19

Quem conta um ponto...

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433 - Pérolas e Diamantes: A realidade e vice-versa

 

Há um provérbio árabe que diz: “Aquele que corre sozinho tem a certeza de chegar em primeiro.”

 

Eu costumo andar sozinho ou acompanhado por um ou outro amigo e, muitas vezes, por um livro. Costumo aprender muito com os livros. E com os amigos. E também com a cultura árabe.

 

Mas não pensem que as obras de ficção são fruto do acaso. Isso é que era bom.

 

Sabemos que “Vermelho e Negro” se inspirou no caso Antoine Berthet; que existiu uma Madame Bovary real chamada Delphine Coutier; que o Edmond Dantès verdadeiro se chamava François Picaud.

 

A ficção tende a assemelhar-se ao falso para parecer mais verdadeiro. E vice-versa. A realidade está cheia de sinais sem importância. Não se deve procurar a alegria sem aceitar o sofrimento.

 

As personagens dos livros têm, como escreveu Paul Smail, solas de vento, podem ir onde o acaso as leva.

 

A moralidade transformou-se em espetáculo em vez de ser uma virtude que se exerce. A moralidade tornou-se amoral.

 

Vivemos num mundo sem referências, onde os pais já não são pais, onde o bem e o mal estão fundidos num magma e a democracia é uma salada russa onde não se reconhece a verdade, onde todas as opiniões são válidas, onde tudo é subjetivo, onde de nada serve indignar-nos, onde ou somos todos culpados, ou todos inocentes.

 

Se reparamos bem, podemos ver que os que detêm o poder não o adquiriram pela sua coragem e muito menos pela sua virtude ou subtileza, mas antes pela sua falta de força moral, pela sua falta de cultura, pela sua desumanidade, pela sua histrionia, pela sua histeria, pela sua descarada demagogia, pelo desprezo pelos humildes e pelos longos anos de servilismo para com os grandes a quem acabaram por conquistar as suas cadeiras, as suas patifarias e as canalhices sem fim. Dir-me-ão que há exceções. Pois, até poderá haver, mas são elas as que confirmam a regra.

 

Parecem os fantasmas que povoam as paisagens de Gogol ou de Bulgakov, pois transportam consigo não a esperança, mas um espelho, e a promessa atraente da absolvição de responsabilidades.

 

Uma coisa sabemos, como escreveu László Krasznahorkai: “Quando julgamos que nos vamos libertar, na verdade estamos apenas a mudar as cadeias”.

 

Tenho de começar a fazer como John Steinbeck e testar o que escrevo com os cães. Mas primeiro vou ter de os comprar ou esperar que alguém mos ofereça. Ele tinha um chamado Angel que ficava sentado a ouvir, transmitindo ao escritor a sensação de que compreendia tudo o que havia para compreender. Já o Charley dava a entender que tentava sempre acrescentar qualquer coisa. Um dia, o seu setter ruivo roeu o manuscrito de “Ratos e Homens”. Nessa altura Steinbeck deu-se conta de que o cão devia ser um crítico literário excelente.

 

É claro que já não há escritores tão sortudos, nem cães tão amantes da literatura. Os tempos mudam. E nem sempre para melhor. Antigamente é que era.

 

O escritor americano sabia que ser alguma coisa pura requer uma arrogância que não está ao alcance de qualquer um.

 

Por vezes também a mim a escrita me parece estranha e mística. A minha poesia ressente-se disso. Já a prosa liberta-me das minhas dores verbais.

 

Claro que faço o melhor que sei e posso, mas sem me levar muito a sério. Há por aí escritores ditos importantes que passam a vida a lançar o arpão à imortalidade. Pensam-se o Capitão Ahab lutando contra Moby Dick. O mar engole-nos a todos. Coitados dos peixes.

 

A santíssima trindade da escrita assenta numa pessoa interior que especula, numa outra que critica e numa terceira que procura a síntese. Também é necessário alguma dose de pecado.

 

Steinbeck, depois de uma conversa com dois editores e um revisor, concluiu que o leitor é estúpido e incapaz de compreender ideia nenhuma; que também é tão inteligente que descobrirá qualquer tipo de erro; que não compra livros breves; que não compra livros longos; que é em parte imbecil, em parte génio e também possui uma parte de ogre; que não se tem a certeza de que sabe ler.

 

Também todos sabemos que os escritores são cruéis, conflituosos, cheios de opiniões, mal-humorados, pouco razoáveis, nervosos, depressivos, irrefletidos, tristes e irresponsáveis. E também irascíveis, mal-educados e insuportáveis. E egomaníacos. E grande parte deles nem sequer possui a decência de terem sucesso.

 

Afinal, para que raio servem?

 

João Madureira

 

 

09
Mar19

São Vicente da Raia - Chaves - Portugal

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Diz-me a experiência que não é preciso ser conhecedor de nenhuma ciência para entrarmos por terras desconhecidas para as ficar a conhecer, mas nem sempre entramos nelas e as descobrimos. Se as queremos descobrir, temos de ir com esse propósito, demorar o tempo que for necessário, não deixar escapar nenhum pormenor, por mais simples que seja e, se realmente queremos descobrir as maravilhas deste reino, mas sobretudo, nunca esquecer as palavras sábias de Torga para ver este ou qualquer outro reino maravilhoso:  “ (…) O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. (…)”.

 

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De facto assim é. Fui pela primeira vez a terras de São Vicente da Raia há coisa de trinta e tal anos, em trabalho, num dia escuro de inverno e muita chuva, com os últimos quilómetros de estrada ainda em terra batida. No desespero de poder cumprir a minha missão fui galgando esses últimos quilómetros com a preocupação de conseguir chegar ao destino. Chuva, pavimento de terra, lama e piso escorregadio,  descidas bem inclinadas e curvas bem apertadas,  aumentavam a preocupação, que terras estas…

 

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À preocupação de lá chegar ia-me afrontando por antecipação, preocupação maior com o caminho de regresso. Se assim era a descer, a subir as coisas complicar-se-iam muito mais, mas como na altura o sangue na guelra ainda fervilhava por e numa boa aventura, que fosse o que Deus quisesse e se os outros desciam e subiam, eu também haveria de conseguir… sem mesmo reparar que ninguém tinha passado por mim, mas como bem podem reparar agora, fui e regressei, e dessa viagem apenas recordo aqueles últimos quilómetros de estrada.

 

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Durante uns anos fui por lá mais algumas vezes, não muitas, mas algumas, talvez 3, 4 vezes, sempre em trabalho, sempre à pressa, sempre com uma preocupação extra, ora do tempo dos relógios, ou falta dele, ora com a viatura que levava e que nunca era de confiança, ou outra coisa qualquer, ou seja, continuei a ir por lá com um olhar afetado, adulterado, infiel, traiçoeiro, em suma, cego, sem a tal virgindade original perante a realidade e o coração.

 

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Foram precisos passarem-se 20 anos para numa tarde de setembro,  abandonar o vale de Chaves, subir a montanha, alcançar o planalto, sem relógio, sem preocupações, apenas eu, a máquina fotográfica, um carro de confiança e a virgindade no olhar como se fosse a primeira vez, e lá fui. Primeiro desvio na estrada e passagem pela Bolideira, depois Travancas, mais um pouco e passei Argemil, terras já minhas conhecidas, e a partir de aí começo a surpreender-me, primeiro com o mar de montanhas com vistas lançadas, por um lado para terras de Vinhais e mais além, para o outro as terras da Galiza.

 

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Antes de começar a descer aquela que então era estrada de terra batidas, parei num alto, um autêntico miradouro natural. Pela primeira vez reparei como a partir de Argemil a terra era outra, mudava na cor, mudava nas formas, até o penedio era diferente, menos azul, mais sépia, era o granito a dar lugar ao xisto e tudo isto delimitado por uma muralha natural que sobe e desce encostas, mais percetível numas encostas, menos noutras, mas que o olhar virginal viam como se tivessem a grandeza das muralhas da China, e lá do alto, aos meus pés, desenhava-se uma linda estrada cheia de curvas e pequenas retas, que ora se viam ora desapareciam do olhar encobertas pelas encostas da montanha, como se de um rio se tratasse, desaguava lá ao fundo numa povoação, imediatamente antes de uma encosta descer de novo para o desconhecido, talvez, quem sabe, para outras povoações.

 

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Pasmei por ali não sei quanto tempo, deliciei-me, embriaguei-me de tanto olhar e descobrir e imaginar, mas também reflexionar em como este reino maravilhoso tão pequeno e tão igual, é tão grande e tão diferente dentro da sua identidade diferenciada. Tinha abandonado o Vale de Chaves há tão pouco tempo e estava perante outra realidade, mas, continuava eu reflexionando em como se desde o vale de Chaves tivesse tomado a direção oposta, mais ou menos à mesma distância, sentiria o mesmo, mas de uma forma distinta, porque a realidade seria outra, tão diferente do vale e tão diferente desta que tinha à minha frente, mas igualmente interessante, fascinante até, estaríamos em terras de Barroso e não aqui, perante terras de Vinhais, mas ainda com os pés assentes no concelho de Chaves.

 

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Mas vamos lá. Já sóbrios, deixemos o miradouro e desçamos a estrada até um pequeno rio que foi batizado como Rio Mousse e a partir deste, de novo começamos a subir para só parar lá no alto naquela que é a nossa aldeia de hoje, a última desta série de povoações com nome de santo, este, o São Vicente que dá nome à aldeia e sede de freguesia de São Vicente da Raia, cujo apelido bem poderia ser “das Raias”, porque são várias as raias desta freguesia, primeiro da raia com a Galiza, depois da raia com Vinhais, mas também da Raia com o Parque Natural de Montesinho e se levarmos em conta aquilo que pra trás deixei escrito, faz também raia com a tal muralha natural (que existe mesmo) a partir de onde tudo começa a ser diferente.

 

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E estamos, entramos, finalmente na aldeia de  São Vicente da Raia, que embora da raia, para além dela ainda há mais três povoações a compor a freguesia e que, igualmente fazem parte do concelho de Chaves. Refiro-me a Orjais, Aveleda e Segirei, sem esquecer o São Gonçalo,  todas elas aldeias e lugares de xisto, com ares de Vinhais e da Galiza, mas também bem próximas dos limites dos três reinos (Portugal-Galiza- Castela e Leão) a apenas 20 km, mas isto são estórias de outra História, pois hoje ficamo-nos por São Vicente da Raia, que por sinal, o santo, é mais um santo mártir e era do Sul de Espanha (Huesca).

 

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O Curioso é que nesta nova entrada na aldeia, que já aconteceu em 2006, foi mesmo como se fosse a primeira vez que ia por lá, pois a não ser o largo de entrada que também é o largo do cemitério, mais nada recordava. Foi assim uma verdadeira descoberta, iniciada pelo pequeno núcleo junto à igreja,  para depois descer e passar a estrada de acesso a Orjais, Aveleda e Segirei e entrar no outro núcleo da aldeiam que notoriamente é muito mais antigo.

 

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Diz-me também a experiência que numa primeira visita nunca vemos tudo e deixamos sempre escapar pormenores de interesse, além de haver sempre uma ou outra imagem que pede e merece um novo enquadramento, para além de outras que saem desfocadas, queimadas ou outro acidente qualquer. Assim,  só uma visita não basta para termos uma recolha de imagens que faça justiça ao todo da aldeia, daí já ter por lá passado mais vezes, não tão exaustivamente como da primeira vez, mas recolhendo sempre um ou outro pormenor, isto dentro da aldeia, pois ao nível geral, vista geral da aldeia e paisagens que a rodeiam, são sempre diferentes, conforme a época do ano, em que a luz e as cores da vegetação variam tanto, que às vezes quase parece que estamos perante paisagens completamente diferentes.

 

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Tenho alguns desses registos tomados em épocas diferentes do ano, penso que só me falta mesmo um com a paisagem vestida de branco e quase a consegui, mas dessa vez, com viatura imprópria para a neve,  sabia mesmo que se descesse, já não subiria. Deixei para outra oportunidade que espero vir a acontecer.

 

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E que dizer de São Vicente da Raia!? Pois é uma aldeia interessante em que o xisto utilizado nas construções faz a diferença em relação à maioria das aldeias do concelho de Chaves. Notoriamente construções muito antigas, hoje maioritariamente abandonadas e/ou em ruínas, algumas com inscrições curiosas,  possivelmente ligadas a uma comunidade judaica que viveu na freguesia.

 

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É uma aldeia que sofre também da maleita do despovoamento e do envelhecimento da sua população, embora exista por lá um caso de sucesso em que o processo foi invertido. Trata-se de um jovem casal em que um deles tinha origens na aldeia e que abandonou o trabalho e a sua vida do grande Porto para se fixar em São Vicente da Raia, primeiro explorando um bar da aldeia, onde serviam excelentes refeições com coisas boas da terra. Posteriormente montaram uma cozinha regional com fabrico de fumeiro,  cuja matéria prima, o porco bísaro, é de exploração própria. Sou testemunha que o que lá se fabrica é de primeira qualidade e nem vos quero descrever o requinte de um cozido à portuguesa com todos os ingredientes made in São Vicente da Raia, carnes, fumeiro, batatas, couves e vinho, penso que só mesmo o azeite é que não é de lá… ou seja, tudo do “bô e do milhor”.

 

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Aproxima-se a primavera e o verão e como o dinheiro ainda está caro para férias noutras paragens, se não conhece a freguesia de São Vicente da Raia, proponho-lhe que reserve 4 dias para conhecer a freguesia, que poderão e deverão ser alternados, pois de seguida vai ser muito cansativo. Tanto faz ser dia de semana como fim de semana, por lá não se nota muita diferença.

 

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Então os 4 dias seriam para:

 

1º dia – Conhecer as 4 aldeias da freguesia, primeiro São Vicente da Raia, depois Orjais, de seguida Aveleda e por fim Segirei. Só as aldeias, não se entusiasme com outros apelos.

2º dia – Fazer a rota do contrabando de Segirei. O trilho está indicado e inicia-se na parte galega com descida sempre junto ao riacho, com passagem pelas cascatas e a terminar ou com passagem por Segirei, pois pode continuar a caminhada até à Praia Fluvial de Segirei. Claro que este dia para andar a pé, mas se eu que não sou de caminhadas já fiz o percurso, qualquer um o faz.

3º dia – O dia completo para passar na praia fluvial de Segirei onde tem bar de apoio e grelhadores. As águas do rio junto à praia fluvial são pouco profundas e o espaço ótimo para crianças e também para pescadores.

4º dia – Descida ao São Gonçalo onde também existe um parque de lazer e pode ir a banhos, com águas também pouco profundas e ótimas para pescar.

 

Claro que para todos estes dias a máquina fotográfica é imprescindível.

 

 

08
Mar19

Vivências - Serralves

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Serralves

 

As fotografias que ilustram esta crónica são enganadoras. Não estamos no campo nem em nenhuma quinta de turismo rural. Estamos no centro do Porto, mais concretamente na Fundação de Serralves, a não mais do que uns 200 ou 300 metros da Avenida da Boavista, um espaço que eu já conheço desde os meus tempos de estudante na Invicta, no início dos anos 90, e que agora, em família, revisitamos mais uma vez.

 

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Fotografia de Luís dos Anjos

A Fundação de Serralves foi criada em 1989, mas a origem deste espaço remonta a 1923 quando Carlos Alberto Cabral, 2º Conde de Vizela, herdou a Quinta do Lordelo, uma propriedade de veraneio da família situada, na altura, nos arredores da cidade e que foi sendo ampliada com a aquisição de terrenos adjacentes, atingindo nos anos seguintes uma área de 18 hectares. Hoje, aquilo que genericamente designamos por Fundação de Serralves integra, na verdade, vários espaços distintos: a Casa de Serralves, um exemplar único da arquitetura Art Déco dos anos 30 do século passado; o Museu de Serralves, o mais importante museu de arte contemporânea em Portugal, autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, inaugurado em 1999; e o Parque propriamente dito, com uma grande diversidade de plantas e árvores, tanto de origem autóctone como exótica, que proporciona uma oportunidade privilegiada para, em pleno centro da cidade, estar com contacto com a natureza.

 

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Fotografia de Luís dos Anjos

Optamos por comprar bilhetes apenas para a visita ao Parque, deixando o Museu para uma próxima oportunidade. Seguimos por um dos muitos caminhos possíveis, percorremos magníficos jardins harmoniosamente interligados entre si, passamos pelo lago e pela mata, até que chegamos ao grande prado, onde encontramos vários animais em liberdade e, finalmente, à horta pedagógica. Desfrutamos da beleza do local, do silêncio, da harmonia com a natureza. Pelo caminho, observamos ainda várias esculturas da Coleção da Fundação de Serralves expostas em permanência no exterior numa espécie de museu ao ar livre. É, sem dúvida, um espaço que merece ser visitado!

 

A tarde avança e ainda nos restam duas horas de viagem até casa. Iniciamos o caminho de regresso ao carro e esperamos voltar em breve.

 

Luís dos Anjos

 

07
Mar19

Fernando Peneiras “100peneiras” fotografia, em Chaves

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Mais uma vez o Blog Chaves deixa este espaço virtual para sair à rua, entrar na Adega do Faustino e num cantinho de três paredes mostrar a arte da fotografia, mas desta vez, é também a fotografia que nos mostra outras artes, como a arte que a natureza nos oferece num majestoso rio a desenhar uma linha curva por entre encostas feitas de um puzzle de peças de linhas retas paralelas, às vezes curvas, mas sempre geometricamente traçadas com todo o rigor, que ora se traçam de tons verdes, ora de tons amarelos, ora de tons sépias, ora de tons vermelhos,  para por fim se despojar de todas as cores e ficarem simplesmente nuas sem qualquer pudor.  São pérolas daquele, ou deste colar de pérolas que Miguel Torga apelidou de Reino Maravilhoso. É um bocadinho de tudo isto que o olhar de Fernando Peneiras registou e congelou para,  em fotografia, partilhar connosco neste mês de março e também abril, na galeria da Adega do Faustino, em Chaves.  

 

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Fernando Peneiras “100peneiras” fotografia

“O Meu Majestoso Douro”

 

Fernando Augusto Paiva Peneiras nasceu em S. João da Pesqueira e reside na cidade do Peso da Régua, onde exerce a sua actividade profissional e o seu hobby de “fotógrafo amador” que pratica com imensa paixão, sendo um grande entusiasta e um grande amante da Região Demarcada do Douro, Alto Douro Vinhateiro.

 

 É no seu site:

 http://fernandopeneirasfotografia.weebly.com/,

 

na sua página do Facebook:

 https://www.facebook.com/fernando.peneiras.7

 

e no seu blog http://fotografiafernandopeneiras.blogspot.pt/,

 

entre outros, que expõe, aos visitantes cibernautas e seus amigos, toda a beleza que o rodeia, os seus olhos observaram e as suas objectivas capturaram.

 

No entrudo de 2012 e a convite da direcção da Casa do Careto de Podence, realizou uma exposição fotográfica com o título "Figuras Míticas de um Povo", alusiva a essas figuras misteriosas e diabólicas, “os Caretos de Podence”.

 

Cedeu fotografias para diversas obras, tais como o “Guia Turística da Natureza do Douro”, o “Guia das Aldeias Vinhateiras”, as ilustrações de capa do livro "A NINFA DO DOURO" de Manuel Araújo da Cunha, foto de capa do livro “Palavras d’Alma” de Rui Mendes e, regularmente, trabalhos seus são vistos noutras publicações, cartazes, outdoors e paredes de vários negócios.

 

Trabalha regularmente com a AETUR (Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes) onde tem fotografias suas expostas na Fundação Rei Afonso Henriques – Zamora/Espanha, participou numa exposição na casa de S. Paulo - S. Paulo, Brasil. Participou igualmente noutra em Buenos Aires e Montevidéu.

 

Publicou o livro de fotografias do Douro com o título “O Meu Majestoso Douro” das quais algumas neste espaço expostas. É coautor do livro de fotografias “Paisagem Natural” col. Fotógrafos da Nossa Terra.

 

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O ALTO DOURO VINHATEIRO, paisagens e histórias…

 

A paisagem da região do Alto Douro Vinhateiro é determinada pelo curso natural do rio e pelo esforço sobre-humano de gerações passadas. A sua beleza é fruto em iguais porções da generosidade divina e do suor humano, resultante do trabalho árduo e continuado de uma paisagem natural, bela por natureza, mas que se tornou única no mundo pela mão do Homem. As encostas que ladeiam o rio foram trabalhadas ao longo de séculos, partindo-se o xisto, construindo-se terraços e muros, e cultivando a vinha em socalcos. O resultado é assombroso, uma paisagem única no mundo. Nas palavras do poeta Miguel Torga: “é um excesso de natureza. […] Um poema geológico. A beleza absoluta.”.

 

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Região Vinhateira do Alto Douro ou Alto Douro Vinhateiro é uma área do nordeste de Portugal com mais de 26 mil hectares, classificada pela UNESCO, em 14 de Dezembro de 2001, como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural e rodeada de montanhas que lhe dão características mesológicas e climáticas particulares.

 

S. João da Pesqueira é o Concelho que detém a maior área classificada como património mundial pela Unesco. (cerca de 20%.).

 

Esta região, que é banhada pelo Rio Douro e faz parte do chamado Douro Vinhateiro, produz vinho há mais de 2000 anos, entre os quais, o mundialmente célebre vinho do Porto.

 

As suas origens remontam à segunda metade do século XVII, altura em que o Vinho do Porto começa a ser produzido e exportado em quantidade, especialmente para a Inglaterra.

 

Contudo, os elevados lucros obtidos com as exportações para a Inglaterra viriam a gerar situações de fraude, de abuso e de adulteração da qualidade do vinho generoso. Os principais produtores de vinho durienses exigem então a intervenção do governo e a 10 de Setembro de 1756, é finalmente criada a "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro".

 

Para demarcar o espaço físico da região foram então mandados implantar 201 marcos de granito. No ano de 1761 são colocados mais 134 marcos pombalinos, perfazendo então um total de 335.

 

Já em 10 de Maio de 1907, ao abrigo do decreto assinado por João Franco, a região demarcada é novamente delimitada, estendendo-se para o Douro Superior.

 

A longa tradição de viticultura produziu uma paisagem cultural de beleza excepcional que reflecte a sua evolução tecnológica, social e económica.

 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

fernando peneiras

 

Ficam aqui algumas das imagens que estão em exposição, as restantes, terá que ir à adega do Faustino para as ver ou então, para ver outras imagens de Fernando Peneiras, aceder a um dos sítios (página, Facebook ou blog) que o autor partilha na WEB.

 

 

06
Mar19

Coisas do meu baú e coisas do diabo!

1600-1793-1

 

Nas coisas do meu baú, no cantinho das coisas mais recentes, já deste século, encontrei 4 imagens com coisas que já não existem ou foram consideravelmente alteradas, umas para melhor, outras para pior, outras nem uma coisa nem outra… Por exemplo na primeira imagem que vos deixo, o antigo Hotel de Chaves entrou em obras, que ainda decorrem, recuperou o reboco, ganhou cor, é uma das coisas que foi alterada para melhor, pelo menos deixou de estar fechado e espera-se que abra em breve, com as mesmas funções mas muito mais modernas. Já a casinha que estava adossada à muralha desapareceu por completo, foi-se com as obras de recuperação do baluarte após ter desabado naquele chuvoso e fatídico inverno de 2000/2001, felizmente em Chaves não houve vítimas, mas ficam na memória as 59 pessoas que morreram nesse ano na queda da ponte de Entre os Rios. Ainda na imagem, em frente à casinha, do lado esquerdo a confrontar com as escadinhas das manas um edifício que também já não existe, ou melhor, ainda lá está, ou estão os seus restos mortais caídos por terra, esta, é aquela que nem é uma coisa nem outra, pois se antigamente estava mal, agora continua…

 

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Nesta segunda imagem, a tal casinha da primeira imagem, mas em pormenor, vista de frente. Teve como últimas funções, no rés-do-chão penso que uma ótica e no primeiro andar o escritório de um advogado, ou melhor, a sua última função foi mesmo receber aquela placa de aviso “O CORREEIRO E O SAPTEIRO ESTASMOS A 60 METROS”. Eram vizinhos numa das construções que estava adossada ao baluarte e vizinhos continuaram nas novas instalações da Rua do Poço. Infelizmente o correeiro já faleceu, mas o Quim sapateiro ainda lá está.

 

1600-1857

 

Pra pior, bem pior, ficou o espaço desta terceira imagem. A meu ver, pela inerência que lhe é conferida pela Ponte Romana, este é um dos espaços mais nobres da cidade, contudo tem sido também o menos cuidado. Incompreensivelmente ficou de fora do espaço POLIS, ao que sei, para ser objeto de um estudo de pormenor, talvez com boas intenções, mas lá diz o povo, e o povo tem sempre razão,  “De boas intenções está o inferno cheio”. A coisa, para remediar, até nem estava má, o espaço estava limpo,  relvado, ia sendo tratado e até tinha recebido uma escultura de autoria do escultor Carlos Dutra que, resultou do Encontro de Arte Jovem – Simpósio do Granito 1993. Curiosamente a escultura tinha o título de “ Involução, conteúdo e emissor”. Coisas do diabo (o do inferno das boas intenções),  a coisa involuiu mesmo, a escultura desapareceu (pelo menos poderia ter sido colocada noutro local, mas simplesmente desapareceu) e o relvado deu lugar a um terreiro para receber popós, que entretanto deixou de os receber e o espaço deixou de ser tratado. Coisas do diabo! Ficámos sem escultura, sem relvado e o raio do estudo de pormenor nunca foi parido… esperemos          que a mãe dos estudos de pormenor engravide outra vez e dê à luz um estudo digno, mas para obrar, ou melhor, para levar a efeito a sua construção, que “obrar” já muito “obraram” naquele espaço. Coisas do diabo, de abortos e de merdosos que nem sequer têm a sensibilidade de gostar da arte dos artistas…pelo menos podiam fingir que gostavam, e deixavam por lá a escultura que a meu ver e no meu gosto, até era bem interessante.

 

1600-1771

 

E ficamos por aqui, por hoje, pois continuaremos a basculhar no nosso baú à procura de coisas interessantes, diferentes ou que já não existem.

Até amanhã!

 

05
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VÉNUS DESONRADA.

 

Alfredo estava feliz, a esquecer tudo o que não queria que lhe viesse à mente, naqueles fugazes instantes que lhe precediam as mãos algemadas. Sabia que, na manhã seguinte, estaria a bater em sua porta, de novo, com o seu manto frio e mãos cruéis, a inexorável realidade. Tinha agora, ao seu lado, três de seus melhores amigos, aqueles com os quais aprendera a nadar no Tâmega e que, muitas vezes, tinham ido à própria Quinta buscá-lo para as pândegas. Bons momentos, quando saía com os putos para farrear, sob os olhares reprobatórios do senhor Reis, mais fingidos do que verdadeiros – Rapazes, ah, os rapazes! – e o sorriso condescendente de dona Florinda, que os não deixava sair sem antes provarem de seus famosos bolinhos de cenoura e até de alguns deliciosos Pastéis de Chaves, confeiçoados àquela mesma tarde.

 

Conversa vai, conversa vem, puseram-se os moços a falar das meninas da Vila, com os maiores respeitos a umas e bem marotas insinuações a outras. De repente o Zeca Sarmento, já inebriado por muitos teores alcoólicos, virou-se para o futuro noivo e disse – Cá o nosso Alfredinho é que… olha, Alfredinho, com todo respeito, mas tuas irmãs são um quê de bonitas! Umas verdadeiras Vénus, como as desses pintores... Mas vestidinhas, é claro, digo-te isso com todo o respeito! Vamos lá que a Lilinha ainda esteja a vicejar e a Mindinha mal esteja a se pôr, mas ah! Tivesse eu, pra já, a idade das outras duas…

 

Vitinho Mendes acrescentou – De facto, ai que bela família, a tua! E que raparigas finas, prendadas, educadas. – e o Lucas Bó – Bem servido vai o Sidónio, que já está a pronto de levar a Aldenora pro altar. Já o que pensam da Aurora por aí... – uma frase cortada e infeliz, que deixou Alfredo sério, de repente – Ora pois, e então... o que pensam da minha irmã por aí? – Ora, ela é uma linda rapariga, todavia... – ao que o jovem Bernardes – Todavia...? – Pois é, ela é muito bonita, mas é pena que a tua irmã, pelo que todos dizem por aí…

 

Eis que Alfredinho, como que livre, por alguns momentos, dos teores alcoólicos, ou com estes ainda mais acentuados, levantou-se. Com as faces cheias de cólera, agarrou Lucas pelos suspensórios (posto que todos estivessem à vontade, com os paletós e coletes jogados aos espaldares das cadeiras) – E o que é que todos, por aí, estão a dizer da minha irmã, hem? Hem?! Fala! Fala senão eu te…

 

Essa atitude do jovem Bernardes muito fez estranhar ao Zeca e ao Vitinho, pois nunca o tinham visto assim. De ordinário, era sempre tão calmo, tão afável, além de muito educado, uma qualidade inerente a todos os da Quinta Grão Pará. O Lucas, porém, que tinha pavio curto para o mais bobo estopim – Senão tu, o quê?! – também segurou Alfredo pelo colarinho.

 

Assim ficaram, olhos nos olhos, os velhos camaradas, a um passo de se tornarem os dois mais novos inimigos. O Vítor e o Sarmentinho tentavam, de todo modo, apartá-los, mas o Bó gritava para Alfredo – Ô pá, me larga, tira essas

mãos de cima de mim! Ou vais querer que t’as devolva de jeito? – enquanto aquele, para lá de transtornado – Pois então cá me digas, seu Lucas Boboca! O que estás a insinuar sobre a irmã dos outros?!

 

Foi esse o quadro a que Justina deparou-se, ao chegar de volta ao salão. A calhar que o menino Alfredo e os mais, todos eles assíduos e amados clientes, estavam agora a se meter em uma pessegada, que não convinha mais a uma casa direita como a dela, Maria do Rasgão valeu-se de toda a sua autoridade de heroína republicana e rasgou o grito – Parem com isso, parem, que lhes meto porta afora com pontapés ao cu, seus putos, que mal acabaram de chupar as pontas dos cueiros molhadinhas de açúcar, que suas mãezinhas lhes davam para deixar de chorar!

 

Diante dessa voz firme e incontestável, a exigir que os miúdos devolvessem a ordem a casa, os rapazes se apaziguaram – Calma, Alfredinho, todos estão a dizer por aí, apenas, é que a Aurita é austera demais, compenetrada demais… – disse o Vítor e o Sarmento acrescentou – Claro, é essa a imagem que tua irmã sempre nos traz à mente – ao que o Vitinho – O que alguns estão a pensar e outros a dizer… é que, de tão séria, tão sisuda, tua irmã vai acabar num convento – e o Lucas Bó, a concluir – O que é uma pena, Alfredo, a Aurita não merece! – e a pensar em outras penas, Alfredo concordou – É, ela não merece!

 

Graças à heroína condecorada pelo Governo e pelos desgovernos da vida, logo os contendedores estavam a se abraçar e, felizmente, tudo acabou em águas de bacalhau. Voltaram a beber o fino e o vinho, despreocupados e alegremente, como se nada tivesse acontecido. Ou, o que é pior, como se nada estivesse por acontecer, pelo menos ao Alfredo. Um futuro de grilhões invisíveis e de reais incertezas.

 

  1. BODAS.

Ao dia das bodas de Alfredo e Alice, tudo bem simples, como Reis mandara arranjar com o padrinho da rapariga e, mais ainda, como agora tinha que ser, face aos recentes maus...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

04
Mar19

Quem conta um ponto...

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432 - Pérolas e Diamantes: A necessidade da ironia

 

Há pessoas que procuram a imortalidade reclamando cartazes para os seus túmulos.

 

Para não ferir suscetibilidades não vou falar nem de Saramago e, muito menos, de Lobo Antunes.

 

Por exemplo, Hemingway era extraordinariamente vaidoso. Dizem que preferiu o suicídio ao acidente. Um acidente a limpar a arma teria ido contra tudo aquilo que lhe alimentava a vaidade. Garantem os entendidos que dar um tiro na cabeça com uma espingarda de caça é quase impossível, se não for planeado. Uma pessoa experiente nunca carrega a arma enquanto a limpa. Asseguram também que só um pateta poderia ter sofrido um acidente do género que vitimou o escritor. E todos sabemos que Hemingway não era pateta.

 

Afirmam também que o autor de “Por Quem os Sinos Dobram” era o preferido dos críticos porque nunca mudava de estilo, tema ou história. Não fazia experiências de pensamento nem de emoção. Steinbeck achava que, à semelhança do fotógrafo Robert Capa, criou uma imagem ideal de si próprio e que depois tentou vivê-la. O seu problema é que via os outros escritores vivos não como contemporâneos mas como adversários. Ainda segundo Steinbeck, Hemingway preocupava-se realmente com a sua imortalidade, como se duvidasse dela.

 

Henry James reescrevia textos simples e compreensíveis para os tornar obscuros e difíceis. Há escritores para tudo. Para se escrever bons livros não basta ter ideias, técnica ou competência. É necessário entusiasmo  e fé.

 

E para se escrever com ironia é necessário ter uma consciência profunda da injustiça, sobretudo em relação aos membros da Humanidade que são vítimas dos estúpidos, dos pretensiosos e dos hipócritas.

 

Um dia perguntaram à escritora Dorothy Parker se achava que a estabilidade económica era uma vantagem para o escritor. Ela respondeu que quanto a si, gostaria de ter dinheiro. E também gostava de escrever bem. Desejava até que esses dois elementos pudessem coexistir, mas se fosse demasiado difícil, preferia ter dinheiro. E rematou: “Detesto quase todas as pessoas ricas, mas acho que eu própria seria amorosa se tivesse esse tipo de vida.”

 

Curiosamente, eu penso da mesma maneira.

 

Os fazedores de opinião, vistam eles a roupa que vestirem, apenas se esforçam por domesticar a verdade. Enveredam sempre pelos caminhos de expressão demasiado gastos. É o seu vício. E teimam sempre em nos levar por aí. É difícil resistir-lhes.

 

É da natureza da palavra escrita não só dispensar a nossa presença, como também, em muitos aspetos, as nossas intenções. É isso o que a torna extraordinária.

 

Walter Benjamim afirmou que um livro pode passar mil anos sem ser lido, até o leitor adequado o encontrar. Os livros não têm pressa. O ato criativo não tem pressa.

 

Foi no século XX que descobrimos que as humanidades não conseguiram humanizar. Ou seja, a educação literária pode, pelo contrário, fomentar a crueldade política e a barbárie.

 

O nazismo, o comunismo e o estalinismo demonstraram-nos o paradoxo central: que a cultura literária, a literacia mais sofisticada, todas as técnicas de propaganda e transmissão cultural podem não só acompanhar a violência, a opressão e o despotismo, mas também, de certa maneira, reforçá-los.

 

A leitura deve comprometer-nos com um ponto de vista, deve convocar a humanidade, deve diminuir a nossa capacidade de indiferença. O mal nem sempre está nos outros.

 

Os escritores são todos fascinados pela técnica. Claro que a técnica é importante. Mas existe outro elemento na escrita que também o é: nós mesmos. Henry Miller descobriu que para ele a melhor técnica era técnica nenhuma. Nunca sentiu que tinha de aderir a qualquer tipo de abordagem particular. Tentava permanecer aberto e flexível, pronto para virar com o vento ou a corrente do pensamento.

 

Há uma caricatura da literatura francesa que se baseia na ideia de que existe sempre alguém que está triste e depois se suicida. Esse tipo de pessimismo que diz que a vida não vale a pena ser vivida é moralmente ofensivo.

 

Por vezes sinto que vivo numa espécie de Quinta Dimensão, onde tudo parece armadilhado e traiçoeiro.

 

Emmanuel Carrère conta que certa vez ouviu a uma menina, que se tinha portado mal, perguntar à sua mãe, que lhe dizia para se colocar no lugar das outras pessoas, que se fizesse isso, para onde é que iriam essas pessoas?

 

Dizem que nos devemos sempre colocar no lugar do outro. Eu percebo a intenção pedagógica. Mas a única coisa que podemos fazer é ocupar o nosso próprio lugar, com o máximo de investimento possível, e afirmarmos que estamos a imaginar como seria ser outra pessoa, sem nunca perdermos a noção de que somos nós a imaginar. Nada mais podemos fazer do que isso.

 

João Madureira

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