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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Jan17

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos


GIL

 

LÁGRIMAS DE SANGUE

 

Naquela ocasião as palavras vertiam-se-me como água em cesto roto. Por muito que as peasse, remedavam cabras doidas entre penedos e galgueiras. E eu, na ingenuidade das minhas verdes primaveras, permitia-as soltas, selvagens e libertinas.

 

Às segundas já ansiava os domingos. Aguardava-os como o renovo a água da rega. Os dias do senhor eram mágicos. Pela matina assistia à missa, no templo românico de Santa Leocádia. Acordava de madrugada e saía do Carregal aos primeiros acordes do galo. Sapatinho engraxado, calça vincada e camisa alva de terylene. Três quilómetros, à pata, que pouco custavam, pese embora a lama do inverno ou o pó do estio. Ouvir as larachas do padre Luís, era uma desobriga que se impunha, para expurgar os pecados, o mais das vezes veniais, e atestar a alma de fé. A liturgia pouco mais durava do que o concerto de um rouxinol num qualquer silvado. Não estivéssemos afeitos à obrigação, inconsciente, do culto e saíamos de Santa Leocádia menos católicos do que chegáramos!

 

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A igreja matriz, onde ainda se diz a missa, é um respeitável templo do século XII, classificado como monumento nacional desde 1961[1]. Com a fachada principal singela, e sem ornamentos, ostenta um campanário simples, com duas ventanas e respetivos sinos. O maior usa-se para chamar os fiéis à oração e para tocar a sinais. É baloiçado por uma grossa corrente de ferro que com o tempo lavrou fundo canyon na padieira da porta principal. O mais pequeno toca apenas a rebate, no caso de incêndio ou de outras desgraças.

 

O exterior da igreja, rude e sóbrio, é de granito nu, aparelhado e muito musgado. O telhado de duas águas. As paredes laterais, no cimo, são rematadas de um lado e de outro, com temíveis gárgulas, que afugentam os atoleimados e as almas penadas. A parede nascente, contrária à entrada principal, apresenta uma seteira ricamente trabalhada. Para mim, a jóia da coroa! Ao lado direito, encontra-se o cemitério, construído no tempo da reforma dos cabrais. O jazigo da família Morgado, à entrada do lado esquerdo, visitava-se, invariavelmente, para um padre-nosso por alminha de quem lá estava. A igreja é circundada por um adro amplo. Junto à porta lateral, a sul, um sarcófago de pedra encosta-se a à parede servindo de poiso aos homens antes do santo ofício. Uma dezena de degraus, muito gastos pelo uso e pelo tempo, dão acesso ao adro, desde o terreno fronteiro, onde um pelourinho de pedra, muito torto, testemunha a antiguidade do conjunto. Ao interior da igreja o acesso faz-se exclusivamente pela porta lateral do lado esquerdo. Somente em dias de festa, casamentos ou funerais se escancara a principal.

 

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O espaço interior é pesado e misterioso. As paredes, antes caiadas, deixam hoje ver antiquíssimos frescos que um restauro recente deu à luz. O chão, de soalho de castanho, muito gasto, mostra um vasto conjunto de sepulturas e pedras tumulares. A única nave tem teto de madeira e é fechada por um arco triunfal abundantemente lavrado. O altar principal, para lá do arco em ogiva, é de talha dourada, muito simples, em que são protagonistas cachos de uva e os anjos papudos. Para cá do arco os altares secundários. Os do lado esquerdo estão dedicados não me lembro bem a que santinhos. O do lado direito à figura tenebrosa (que Deus Nosso Senhor me perdoe!) do Senhor dos Passos. Esta imagem mexeu sempre muito comigo. De tamanho natural, o Senhor ajoelha-se ao peso do lenho. Veste túnica roxa, atada à cintura por uma grossa corda de sisal. O seu tamanho desusado, a sua expressão de sofrimento e a feridas no rosto, marcaram-me! Nunca o consegui encarar sem que me sentisse agoniado. Hoje mesmo, ainda evito encará-lo! Abaixo da porta lateral, portanto mais longe de Deus, quiçá um castigo pelo pecado original, as mulheres de lenço ou de véu e xaile de merino. Acima os homens. Bancos não havia. Quem se quisesse alapar que levasse um moutcho de casa. Alguns assim faziam. O meu falecido avô, António Moreiras, como carpinteiro que era, não só construiu um, devidamente estofado de serapilheira para si, como para a minha avó um genuflexório que também servia de assento.

 

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E assim se consumiam as manhãs de domingo. Terminavam, invariavelmente, com um lauto almoço de coelho estufado, frango de churrasco, engordado com os saltões das poulas das Padanas, ou com leitão no forno de lenha, quando as recas pariam para lá da capacidade de os vender. No tempo da caça, coelho bravo ou perdiz na brasa, com molho verde!

 

As tardes passava-as em Fornelos nas tropelias da meninice: jogando ao fite, ao rou-rou, fabricando cestinhas com parentes ou ouvindo estórias, quando o tempo não permitia ares livres. Contudo, o que mais me fascinava era a pregação!

 

É desta atividade que vos falo!

 

Desde tenra idade, alguém me topou faculdades oratórias invulgares. Acho que as ganhei ouvindo as pregações. As festas rijas não passavam sem um pregador, como as de hoje sem uma banda! Estes clérigos, sofistas, cobravam gorda maquia, e empanturravam-se, à tripa forra, na mesa das famílias mais abastadas. E eu ficava a ouvi-los, extasiado, o tempo que fosse, contrariando o que seria normal que era andar atrás das canas dos foguetes. Bebia-lhes as palavras, os gestos, bem como as demais ênfases da pregação, com avidez inusitada.

 

O meu sonho era um dia ser pregador!

 

Sonhava subir, devidamente paramentado, a um púlpito e fazer chorar os seixos da calçada como o padre Salgado fazia chorar as velhas beatas. O púlpito, para mim, tinha uma áurea mágica! Quanto mais alto fosse melhor! Mesmo hoje, se visito um templo, procuro sempre o púlpito e imagino-me desde lá puxando pela fé dos crentes. Os púlpitos, há muito abandonados, fascinam-me!

 

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Então, a partir dos meus quatro anos, comecei a não ter papas na língua, nem vergonha na cara! Falando pelos cotovelos, rebuscava, nos recônditos da memória, ainda viçosa, coisas que não lembravam ao diabo! Quando não, inventava, com a mesma facilidade com que o melro inventa as melodias que canta. Daí que, primeiro em família e depois em público, viesse a dar em aspirante a pregador. Não havia festa íntima que não fechasse com uma pregação de natureza religiosa ou profana, mas sempre puxando ao sentimento. A um canto da sala, sobre a cadeira mais alta da casa, relatava a vida de um santo ou de uma santa que a minha avó Carolina me tivesse lido da Cruzada ou do Avé-Maria, ou outro qualquer acontecimento que tivesse escutado na rádio ou tivesse observado em qualquer lugar. Dizem, as más-línguas, que não ficava a dever nada aos melhores pregadores da época, salvo seja!..

 

Em público comecei, lembro-me bem, em Fornelos, teria uns cinco anos. Esta povoação, ínfima, situa-se no limite do concelho de Chaves, confinando com o de Valpaços no Alto da Cruz, a apenas dois quilómetros. Aldeia natal da minha família materna, este lugar da freguesia de Santa Leocádia, juntava sempre muito povo nas tardes de domingo, não sei se por ser atravessado pela estrada nacional 314 que de Chaves conduz a Murça por terras de Montenegro, se pelo vinho da adega do Ti Balele que se escancarava para todos. A verdade é que a partir de dada altura começou a juntar ainda mais povéu, estou que para ouvir o tal aspirante a pregador. O Ti Morgado era o chefe de cerimónia. Quando sobre a parede poente do adro da capela se projetasse a sombra do edifício, fazia-ma subir. Emplouricado naquele púlpito improvisado e olhando a gente desde o céu, destravava as palavras que se evadiam em catadupa. A pregação durava e eu sentia-me o rei de uma festa em os crentes me escutavam com mais atenção do que ao padre Luís na igreja de Santa Leocádia! E eu puxava à lágrima quanto pudesse!

 

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Assim aconteceu durante alguns anos. Raro era o domingo em que não havia sermão. Apenas a borrasca ou a neve do inverno me tiravam daquele púlpito, desde o qual terei subtraído muitas almas ao regaço de belzebú!..

 

Certa ocasião, com sete anos, fui de visita a uns parentes de Almeidinha, um pequeno lugar da vetusta freguesia do Jarmelo, situada para os lados da cidade da Guarda e a caminho de Vilar Formoso.

 

Impõe-se aqui um parêntesis para situar o leitor na história desta freguesia, com referência à obra de Leite de Vasconcelos.

 

«[Jarmelo] tinha honras de Couto com muitos privilégios no tempo do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado. D. Manuel deu-lhe de novo foral em Santarém, no dia 1 de Junho de 1510. Em 1755 já estava desabitada, tendo apenas algumas casas, a da câmara e cadeia e mais duas moradias para dois beneficiados, além de três igrejas.

 

Nascera por má sina no Jarmelo, Pero Coelho, que foi gentil-homem da corte de D. Afonso IV - o Bravo, pai de D. Pero. Era filho de Estevão Coelho e de D. Maria Mendes Petite, que foi avó de D. Eleonora d'Álvini, esposa do Santo Condestável. Imensamente ricos, os pais de Pero Coelho deram ao jovem uma educação esmerada.

 

Pois foi justamente para o Jarmelo que Inês de Castro, amada de seu filho D. Pedro, foi desterrada a conselho de Pero Coelho. Ali seria vigiada com rigor. Então D. Pedro em mortal ânsia, não comia não dormia, não parava um momento, e buscava por toda a parte até que descobriu a sua Inês. E com mil cautelas e embustes, às escondidas, foi vê-la de noite, a cavalo, envolto na treva de uma longa capa negra. O corcel levava as ferraduras pregadas às avessas para assim despistar os seus perseguidores. Filou-a e trouxe-a por caminhos calçados de luar, à garupa do seu alazão e foi pousá-la em recônditos paços, no meio de jardins e fontes a cantarolar em tanques de azulejos esmaltados [em Coimbra].

 

Ora, quis a política desse tempo que três fidalgos, um dos quais Pero Coelho, invocando especiais razões de interesse para a grei e para o rei, praticassem o bárbaro assassinato de Inês de Castro na Quinta das Lágrimas em Coimbra, no dia 7 de janeiro de 1355. [Apenas] dois anos depois foram justiçados, bem mais cruelmente, dois dos assassinos. A Pero Coelho foi-lhe arrancado em vida o coração pelo peito. Ao outro foi-lhe arrancado pelas costas.

 

[Em retaliação] Pedro, nesse mesmo ano, ordenou que fosse completamente arrasada a vila do Jarmelo, o que se fez em virtude de nela ter nascido Pero Coelho. Depois da vingança de el-rei D. Pedro, determinou que no Jarmelo não ficasse pedra sobre pedra e que se salgasse o terreno, num gesto decisivo de maldição e extermínio. Excetuou-se porém uma pedra, tosca por sinal, onde os minúsculos pezinhos de Inês pousavam ao montar e desmontar o seu corcel de caça, a [pedra de montar]. Determinou-se que ela vencesse uma tença, de 5 reis por dia, segundo o vulgo à memória “daquela que depois de morta foi rainha”. Foi o próprio D. Pedro que ao visitar pela derradeira vez aquele lugar para ele sagrado e tão saudoso, dissera, num misto de ódio e de tristeza:

 

- Adeus Vila do Jarmelo, adeus pedra de montar, enquanto o mundo for mundo dinheiro hás-de ganhar!

 

E quando mais tarde deixou de se cobrar a tença estipulada, foi essa falta suprida pela caridade amorosa e sentimental da gente humilde das choupanas de colmo, únicas casas que então havia, cavando-se na mesma pedra uma caixa de esmolas, onde os fiéis antes ou depois da missa, iam botar alguns ceitis.

 

Hoje o Jarmelo não é sequer um povoado. Ninguém habita as suas casas totalmente desmoronadas. As muralhas da antiga vila, esfarrapadas e dispersas no cimo da alta colina pedregosa e abrupta, provocam-nos a saudade que é natural sentir-se por um varão ilustre, ao atentarmos nos despojos à maneira de Hamlet.

 

Ali resta apenas a lenda, nuvem vaporosa que sempre fica pairando nos lugares santificados pelas tragédias de amor!»

 

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Escutei, pela primeira vez, esta trágica história de Inês num dos serões dessa estada, contada pela matriarca da casa. Provocou-me grande curiosidade. Gravei-a nos mais ínfimos pormenores para ocasião oportuna. Estava certo que o próximo sermão não andaria à volta de um tema religioso, mas do drama de Inês de Castro.

 

Assim foi!

 

No domingo que se seguiu, após a missa na igreja paroquial do próprio Jarmelo, o Ti Morgado guindou-me ao descanso mais alto da escadaria da torre sineira que é exterior à igreja de S. Miguel. A gente que deixava a missa juntava-se, curiosa, à volta da torre para ver o que é que um pimpolho de palmo e meio, de calções e suspensórios, teria a dizer lá do alto! Mesmo o prior, já desparamentado e de sotaina, estava curioso para ver onde paravam as modas!

 

Comecei de largo! Papagueei o amor e a tragédia nos seus mais ínfimos pormenores, indo muito para lá do que ouvira. Pintei o quadro o mais negro que pude. E quantas mais lágrimas se soltavam dos olhos piscos das velhinhas, mais me empolgava no relato. Escaquei a louça que pude, mas deixei tudo em pratos limpos! Durou mais de meia hora aquele sermão profano. Terminei-o com o célebre dito de D. Pedro:

 

Adeus Vila do Jarmelo,

adeus pedra de montar,

enquanto o mundo for mundo

dinheiro hás-de ganhar!

 

Arranquei uma ovação mais forte do que a de Tony Carreira ao acabar o Sonho de Menino. Estou que se teria ouvido até na Serra da Estrela!..

 

Senti-me empertigado por ter sido capaz de contar a histórica trágica de Inês de Castro no próprio sítio onde ela teria estado e para as pessoas de lá!

 

− O rapaz tem jeito para pregador! − Diziam as pessoas que não se cansavam de parabenizar a família!

 

Para ultrapassar o estatuto de aspirante e poder ser pregador a sério, mal completei a 4ª classe em 1966, fui para o seminário de Vila Real.

 

Malfadada hora!

 

Dei-me tão mal na imensidão daquele casarão amarelo!

 

Chorei lágrimas de sangue pelos cantos!

 

Lá conheci o padre Max, que faleceu na Cumieira a 2 de abril de 1976. Dele levei muita pancadinha; o padre Minhava, grande músico e compositor, autor da bela marcha de Vila Real que aprendi e ainda hoje canto com nostalgia; o padre Gilberto, santo homem, diretor espiritual; o padre Hélder, responsável pela paróquia de Santa Maria Maior em Chaves; o padre Santos que me obrigava, à força do marmeleiro, a deglutir o intragável latim e tantos outros, que prefiro nem recordar!..

 

Estive lá ano e meio, afastado da minha infância livre!

 

Sim, porque que eu cresci aos ninhos, sentindo o cheiro do feno e da carqueja; aprendendo a assobiar com o melro e o rouxinol; fazendo-me gente à força dos nevões; sentindo o uivo do vento norte cortado por navalhas do sincelo; fabricando os meus próprios brinquedos; insultando o vento suão; fazendo dos dias infinitos escola e das noites estreladas sonhos; vendo parir a reca e a burra e a vaca; botando a cria ao monte e indo cá botá-la; jungindo parelhas de bois galegos e atrelando-os ao arado; sentindo o cheiro do esterco e da terra lavrada; vendo raposas e lobos e texugos; aparelhando cavalos e galopando na poeira dos caminhos; capando grilos e sacrificando saltões e lagartixas; estudando as formigas, os cágados, as abelhas e as vacas loiras; armando pescoceiras e fazendo magustos com fronças húmidas; rasgando calças a subir às cerdeiras; abrindo buracos em penedos para fazer vinho de amoras; sentindo nos pés descalços a força telúrica do Brunheiro; adoecendo e sarando com rezas e mezinhas; chamando as plantas, os animais, os lugares, as pessoas e os caminhos pelos seus nomes próprios; aprendendo palavras que já não se usam e expressões que já não se ouvem; enfim, fazendo os meus benditos sermões!

 

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Afortunadamente, vá-se lá saber porquê, fui convidado a abandonar o malogrado seminário.

 

Fim de suplício!

 

Naquela casarão ninguém me deu oportunidade de ser pregador!..

 

Foi um desgosto de morte para a minha avó Albertina! Dizia que quando me ordenasse, mandaria matar duas vitelas, encomendaria uma camioneta de arroz e outra de açúcar e convidaria a freguesia inteira de Santa Leocádia para ouvir o meu sermão numa festa no Lameiro Grande!..

 

Nem tudo se perdeu!..

 

A vida, afortunadamente, concedeu-me, em parte, o privilégio de ser pregador. Pois enquanto mo permitam, o meu púlpito continuará a ser o da sala de aula e os fiéis ouvintes os meus pacientes alunos!

 

Gil Santos

 

[1] Decreto nº 44075 publicado em 5 de dezembro, no DR 281/61 série I.

 

 

20
Nov15

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


GIL

 

O Trinca Espinhas

 

Os companheiros de escola umas vezes chamam-lhe Estarrincas e outras Trinca Espinhas.

 

Amâncio Sanfrósio Carrapiço, de facto, não tinha nome que se recomendasse! Se até para se ser cão é preciso sorte, muito mais para se ter nome decente. Chego até a pensar que a gente não devia ter nome(s), próprio(s), nem apelido(s), antes um número, ou até, quiçá, uma matrícula como as dos carros. Mesmo com a conotação negativa que algumas combinações de algarismos possam ter, ainda assim, acho preferível, a ter de levar com uma Urraca Carmelinda, um Terebentino Maçapão, ou até com um Jagolino Carranhoso!

 

Amâncio era filho da crujidade, o mesmo é dizer nascido de uma aventura de ocasião, talvez motivada por alguma febre n(d)os fenos! Foi feito na forma da Heloísa Arrebita, na acarreta do feno do Ti Moreiras do Carregal.

 

Até hoje ninguém lhe (re)conheceu o pai, pese embora a lograda ter feito uma acusa ao Inácio Fintador. Diz que a apanhou ó por baixo, no palheiro da eira na pisa do feno! Chegou mesmo a dar parte dele à GNR do Vidago. Contudo, quando a autoridade o procurou, já se tinha espantado, p’rá Galiza, segundo a prosmeira da Tia Cândida que a queria casada com o neto Catrapisca!

 

A estória é boa de contar. Atentemos:

No Planalto, depois de se segar o feno, à gadanha, espargia-se pelo lameiro. Virava-se com as forquilhas de carvalho, durante uns dias, para que secasse e não ardesse no palheiro por ter sido empalheirado com lentura. O do Ti Moreiras já estava pronto para ser guardado, por isso pôs dia para a acarreta. O Carregal despejou-se à ajuda. Eram para mais de vinte almas, entre homens, mulheres e crianças. Algumas iam, tão-somente, pelo cibo, bem no sei, que o trabalho não era ele assim tanto!.. O rancho seguiu, de madrugada, para o lameiro do Belão que havia sido guardado para feno pelo S. Brás. O Ti Moreiras jungiu a sua parelha de bois galegos, atrelou-a ao carro, sem ladranhos e armado de estadulhos da acarreta. Juntaram-se-lhe mais duas juntas, também à ajuda, a do Gripino e a do Patalão. Sobre o tabuado do carro do Ti Moreiras seguia uma cesta vindima com uma dezena de bolas de trigo de quatro cantos, figos secos e nozes. Era para o mata-bicho. Enfiado num estadulho um pipo de dez litros de tinto de Cova do Ladrão, noutro uma lingureta de bagaceira e noutro ainda uma corda carral para espartilho da carga.

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A manhã mostrava-se límpida, fazendo adivinhar forte canícula e estava destinada ao ajuntamento do feno, à limpeza do lameiro e ao carregamento dos carros. A tarde à acarreta e a encafuá-lo no palheiro.

 

O jantar chegaria pelo meio-dia em duas jigas que a patroa Carolina e a sua criada levariam à cabeça, costa abaixo, até ao Belão. O Ti Moreiras, nestas coisas dos morfes, não costumava deixar o crédito por mãos alheias. Quem trabucasse manducava! Desta feita, cozinhou-se um apurado guisado de cordeiro, que havia de ser degustado na fresca da carvalhada da Galgueira, no chão, sobre alvas toalhas de linho, estendidas numa esteira do próprio feno. Quatro fundos assadores de barro negro de Nantes, atacados do guisado, foram espalhados pela mesa improvisada. A cada trabalhador distribuído um carolo de pão e um garfo de ferro para espetar um cibo do cordeiro. A Galgueira, por esta ocasião, estava pejada de saltões e muitos deles afogavam-se no molho do guisado. Ninguém se incomodava, pois bem se sabia que saltão não gosta de cordeiro guisado!.. Para beber, o tal tinto de Cova do Ladrão, refrescado no rego do lameiro e cujo pipo passava de boca em boca.

 

A mim, nestes trabalhos da lavoura (segada do pão, arranque das batatas e sega do feno) cabiam-me quase sempre duas tarefas que eu cumpria com grande alegria: passar o pipo aos trabalhadores e ir a Adães pelo cordeiro para a refeição. Na véspera da empreitada o paizinho selava-me a Matriosca, sua égua de estimação, botava-lhe os alforges e mandava-me ao peliqueiro de Adães por um cordeiro. Como eu gostava deste trabalho! Cavalgando à toda, dava-me um gozo imenso chegar ao destino com a cavalgadura esbaforida a fumegar. Depois, o peliqueiro ia-se ao rebanho, apanhava o melhor cordeiro por uma perna e ali mesmo o sangrava e esquartejava para que eu o levasse preparadinho, até à cozinha da maezinha. E eu, de cima dos meus seis anos, fazia aquilo com uma vaidade imensa, por me sentir útil na azáfama das colheitas!

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 Carregal

Retomemos:

Despois da janta, atrelavam-se os bois, fartos por uma manhã descansada de pasto, aos carros, carregados como ouriços-cacheiros, que transportariam o feno até ao palheiro onde se calcava-se para que ficasse bem apertado e capaz de ser ripado às gabelas para alimentar o gado nos dias de invernia. Era um regalo ouvir os carros de bois a cantar ao desafio pelo termo da aldeia. E os agricultores, briosos, punham nisso grande proa. Untavam a cantadeira e o chumaço com sebo, apertavam os encostos do eixo como quem afina cordas da viola e punham o carro a cantar com afinações diferentes consoante a carga e a sua arte. O cantar da carga do feno e do centeio era mais grave e o da carga das batatas mais fininho. O bem chiar era muito importante num carro de bois pois conferia autoestima ao seu proprietário, dando-lhe um estatuto de grandiosidade e prestígio social. Cada carro tinha o seu timbre próprio, pelo que não era difícil saber-se, a léguas, quem lá vinha e que carga transportava.

 

Encosta do outeiro acima seguiam, então, os três carros de feno com a malta atrás de forquilhas ao ombro. Dirigiam-se para a eira, onde o Ti Moreiras tinha o palheiro do feno. Um carro de cada vez, encostava-se a uma janela alta que a parede de pedra solta, propositadamente, tinha rasgada para este efeito e um homem de cada lado ia atirando fartas garfadas de feno para dentro. No interior, à rapaziada nova, solteira, cabiam as tarefas de o acomodar e de o calcar para que ficasse apertadinho. Eram tarefas penosa, por um lado, mas muito atrativas por outro. Penosas, porque o pó da erva seca provocava muita comichão e dificuldades respiratórias. Atraentes, porque alguns vingavam-se das moças que no dia-a-dia não davam abébias, mas ali não podiam evitar amassos e cambalhotas! Aquilo era uma festa, um regabofe, como soi dizer-se! Ao ponto de se correr o risco de chegar a vias de facto, em relâmpagos, bem entendido, mas nem por isso ausentes de consequências a prazo.

 

Foi isso que aconteceu naquela tarde. Uma distração entusiasmante mas fatal! O Inácio já lhe andava com sede há muito tempo e a Heloísa, pese embora vir mantendo uma atitude recatada e distante como convinha, para povo ver, também lhe tinha ganas, que estas coisas só acontecem quando a vontade é comum! Aproveitaram a borga e entre a confusão e a gritaria a coisa deu-se! E aconteceu num tão curto espaço de tempo que talvez por isso o Amâncio justificasse a nomeada do Trinca Espinhas!.. A rapariga achou-se grávida e o Inácio, tralhado, pôs-se de fora. Negou que fora ele e quando viu a sua boa pisgou-se. A Arrebita teve de criar o crianço ao Deus dará, com a ajuda da sua mãe e das vizinhas.

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 Adães

O Amâncio cresceu entre nós e apesar de muito mais velho, partilhámos as brincadeiras e as travessuras próprias da idade. Contudo, o moço era atravessado de todo. Não sei se por falta da vergasta do pai se pela própria revolta de não o conhecer, ele era das felpas do diabo! Roubava fruta, assobalhava os centeios, tirava os ninhos, esganava os gatos, prendia latas ao rabo dos cães quando os apanhasse à cainça entalados nas cadelas, soltava os coelhos das coelheiras e as pitas da capoeira só para ver as velhotas atrás delas, roubava favos das colmeias, capava grilos, enfim fazia trinta por uma linha! Então na escola era um cristo. O mestre Matos, andava-lhe sempre no lombo, não porque ele não aprendesse, que nisso era um ás, mas pelas asneiras que fazia. E enquanto apanhava, de régua, ou de marmeleiro, não se queixava, estarrincava os dentes com a raiva. Daí a nomeada. Praticamente não havia recreio cujo termo não trouxesse arraial. O pior é que, muitas vezes, sobrava para os outros que o acompanhavam nas maroteiras. As pedras da mina dos Candeias se falassem, teriam muito que contar!..

 

Naquele tempo tínhamos escola aos sábados de manhã. Porém, esse dia destinava-se às limpezas da sala de aula. A escola era composta apenas por duas salas, uma masculina e outra feminina, um recreio e nada mais. Casas de banho era coisa de luxo que na ocasião não existiam e as necessidades fisiológicas satisfaziam-se no souto, nas traseiras do edifício. Pelo caminho, do Carregal a Adães, cada um de nós, ao sábado, tinha de ajeitar uma vassoura de fronças de giesta para varrer a escola. Os de Santa Leocádia, de Fornelos da Dorna, de Vale do galo, de Matosinhos e de Santa Ovaia faziam o mesmo. Então, aquilo era um espetáculo de poeira no ar. Uns varriam para o sítio que os outros tinha já varrido e antes do lixo chegar à porta já tinha havido desaguisados. Os do Carregal não se davam com o de Vale do Galo e os de Matosinhos com os de Santa Ovaia, pelo que não era incomum aquelas manhãs acabarem com uns a correr os outros à pedrada até às suas terras. Claro que na segunda-feira o Matos acertava-nos o passo e as contas e ficavam saldadas!

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 Stª Leocádia vista desde Adães

Outra das tarefas que se cumpria ao sábado, era a de fazer a tinta para encher os tinteiros de porcelana das carteiras para molhar a pena na escrita mais elaborada da semana. O professor dava uma pedrinha de tinta a cada um que derretia com água, mexendo com um guiço, até que se fizesse em tinta. Quanta mais água levasse, mais aguada ficava e mais mal escrevia. Se se diluísse pouco a tinta ficava carregada mas não dava para a semana toda, pelo que era sempre difícil esta gestão. Porém, com a experiência já se tinha uma medida certa da água que dependendo do tamanho do cristal da tinta, andava sempre por mear o tinteiro.

 

Ora, num desses sábados, para além destas duas tarefas usuais, havia uma outra que constava de colher as pinhas do pinheiro manso qua havia no recreio da escola e depois acender uma fogueira para extrair os pinhões. Era uma tarefa que se cumpria uma vez por ano e que a rapaziada gostava de a fazer, apesar da resina embloutar tudo e das queimadelas nas mãos. Os pinhões eram para o senhor professor, contudo, dava sempre para rapinar uns quantos, que depois serviriam para jogar ao rapa no serão da consoada.

 

A sala, naquela maré, varreu-se num ápice e os tinteiros mearam-se num instante com sentido nos pinhões. Ora, enquanto todos estavam entretidos nesta tarefa, incluindo o professor, o Estarrinca, entrou sorrateiramente na sala das raparigas e de braguilha aberta encheu tinteiro a tinteiro.

 

Cala mureta!.. Somente abriu a boca para alguns, os mais amigos!

 

Aquilo passou.

 

Na segunda-feira era dia de prova escrita e no recreio estávamos todos aspadinhos para ouvir as novidades das raparigas da sala da professora Matilde sobre a qualidade da tinta.

 

Nem uma agulha boliu!.. Tudo correu com normalidade.

 

Passado dias o professor Matos passou a seguinte lição na aula masculina:

 

― Vocês deviam ter vergonha! São uns palermas! Haviam de ver os resultados das provas das raparigas da 4ª! A professora Matilde está toda crontcha! E com razão! Os ditados quase não têm erros e os problemas de matemática estão muito bem resolvidos. O problema é que a tinta com que as meninas fizeram as provas estava um bocado deslavada e a escrita lê-se mal! Temos de comprar d’outra tinta. As vossas provas lêem-se bem, contudo estão uma vergonha. Eu aqui só tenho asnos!..

 

Bem m’ou finto! Pensavam os que sabiam da marosca!

 

Mas afinal porque teria sido a urina do Estarrinca assim tão inspiradora? Ninguém sabe ao certo!

 

Eu acho que ele tinha pacto com o diabo!..

 

Meninas daquele tempo que lerem esta estória, se ainda têm essa prova guardada de recordação conservem-na, que é uma autêntica relíquia!...

 

Gil Santos

 

 

19
Jun15

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


GIL

 

DA TRAQUITANA À SAINÇA

 

Naquela manhã gélida de janeiro, dos ramos pelados das carvalhas da Lampaça, bem como das telhas de meia cana dos beirais dos tugúrios, pendiam pingarelhos como se fossem luzeiros do mais fino cristal. Um carambelo que durava há semanas e que enfeitava as fronças das giestas brancas com navalhas de gelo, aguçadas por um vento boreal refinado nos cumes da Sanábria e do Larouco!

 

Rais parta, Ti Peliqueiro, parece que a puta da galega pariu dianho! – Queixava-se a Tia Brízida, com o xaile de merino encafuado, enquanto amarfanhava uma gabela de labrestos para acomodar os coelhos.

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A noite havia sido agitada em casa dos Ladairos, na Ribeira do Pontão. A matriarca parira um raparigo, o derradeiro de uma ninhada de cinco. Um rapaz que havia de tomar o nome de Arlindo na pia batismal de Santa Leocádia, sob as praxes do Carabunhas. Contudo, pouco tempo o Arlindo se deu a esta graça. O povo rebatizou-o de Burraçudo. Assim passou a ser conhecido desde gargalhorte, não só por lhe incharem as carnes ao redor dos olhos, mas, sobretudo, por morrinhar, horas a fio, no escano da cozinha, confortado pelo borralho e pelo ronronar da gataria nas folgas da muração. Porém, a maior (des)virtude do Burraçudo era a de ser fanhonha. Todos arreganhavam os dentes dele, desde os tenros anos em que jogavam ao pião, ao rou-rou, à reca, ou à pincha carneira no prado. Já adulto, poucos o entendiam, sobretudo quando estivesse com um grãozito na asa, o que acontecia com certa frequência. Foi marca que lhe ficou e que haveria de o acompanhar à cova.

 

O Burraçudo não era mal parecido, tinha proa e haveres, por isso aquele defeito não o privava das melhores fêmeas, prevenidas ou desprevenidas. Na Ribeira, de onde era natural, bem como nas terras vizinhas, levava tudo a eito. Tanto, que andou muitas vezes envolvido em zaragatas. Levou muita lostra e pagou muita rodada pelas tabernas por mor de meter a foice em seara alheia. E teve mais sorte que o mano velho, o Perdigoto, que apareceu morto, dizem que por razões passionais, nas voltas do Fernandinho, com uma machada cravada no caco! Nunca se descobriu quem o escacholou, mas toda a gente sabia, mais ou menos, porquê!..

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No Carregal, o Burraçudo catrapiscava a Aurélia da Rua, em Santa Ovaia, a Grifa, em Matosinhos, a Lívia, em Santa Leocádia, a Serena, em Fornelos, a Rabeca e, no Vale do Galo, a Pompeia. E nunca teve nenhuma de poulo!.. Mas, a sério, a sério, namorava a Milena na sua própria terra.

 

Com tal ocupação, aos domingos, era um corridinho! Quem as pagava era o inocente do seu alazão! Suava como um cavalo para dar conta do recado, porém, estou que menos do que o dono para dar conta do seu!..

 

Deste forrobodó carnal, a primeira a alcançar foi a Milena. Aconteceu, acidentalmente, numa das visitas culturais(!) que costumavam fazer ao Cerco do Pontão, uma fortificação em ruínas que teria servido, há séculos, como reduto defensivo do lugar. Foi um falatório, até porque a moça, de boas famílias, estava guardada para outro pimpão! Porém, como o povo diz que “a ração não é para quem se talha mas para quem na come, o marmanjo levou a dianteira ao de Loivos e papou-a. Ela era, inclusivamente, estudada e mais tarde, já casada, haveria de chegar a professora regente.

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Foram forçados a juntar fazenda, para grande desgosto da família da rapariga. Os pais, para seu sustento, dispensaram-lhes parte da herança ainda em vida, mesmo sob pena de o adágio “quem dá o seu antes que morra merece com uma cachaporra”, se poder vir a confirmar! Tocou-lhes meia dúzia de leiras que os sustentassem e à respetiva prole. Uma delas, de bom proveito, ficava a cerca de um quilómetro da aldeia. Era o linhar da Sainça. Terra mimosa, gorda e húmida. As novidades ainda vinham longe e já na Sainça se exibiam com abundância!

 

A Milena não tinha parido e já a Aurélia anunciava ao Burraçudo, numa das frequentes visitas ao Carregal, a gravidez do primeiro zorro e a Grifa, em Santa Ovaia, do segundo. Como soi dizer-se, era como quem cantava à desgarrada! Quando a legítima emprenhasse - ele dizia que bastava despir as calças e arrimá-las para cima da enxerga - emprenhavam as amantes! Os amigos da copofonia, na galhofa, tornavam a culpa à lua nova!

 

O nome dos legítimos inspirava o dos zorros que nascessem a seguir! Na Ribeira, a Milena teve três rapazes e duas raparigas, a Cremilde e a Graziela, o Agripino, o Alpoim e o Heitor. No Carregal, a Aurélia teve três rapazes e duas raparigas, todos batizados na capela do lugar, que curiosamente data de 1480, com os mesmos nomes dos da Ribeira. E o mesmo aconteceu em Fornelos, em Santa Ovaia e em Vale do Galo! Estranhamente, todos os rebentos puxaram ao pai, mesmo os femininos: nariz curto e grosso, rosto bolachudo, corpo atarracado, roliço, cabelo farto, tez morena e voz roufenha. Parecia castigo do criador!

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O Burraçudo estimava muito a esposa, quase tanto como as amantes. Porém, a rainha das concubinas era, sem dúvida, a Aurélia do Carregal. Com ela passava mais tempo, porque tinha a cobertura de uma sua irmã que vivia naquele lugar e lhe dava rebuço. Também porque no Carregal apanhava a carreira para Chaves, onde dizia ter de ir com muita frequência! Depois, era o regabofe pelos palheiros, pelos fanencos das poulas e pelas chamiças das touças, desde as Padanas ao Corgo!

 

A legítima fingia nada saber desta vida excomungada do marido. Evidentemente que sabia, até porque as alcoviteiras não deixavam de lhe ganhar os favores com a troca de novidades, sempre frescas! Portanto, andava bem informada, mas fazia à de conta!.. Desde que fosse bem tratada e aos filhos não faltasse pão, deixava dar que para si bondaria! A verdade se diga, também não constava ser mulher de grande mantença!..

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E se a todos os ilegítimos, que o Burraçudo nunca perfilhou, ajudava como podia, os do Carregal eram especiais. No tempo da produção hortícola, a Aurélia era a única que tinha ordem para colher o que precisasse no linhar da Sainça! Era uma farturinha no tempo das baijes, das alfacias, das tomates, das cebolas - que consolavam rachadas com sal à merenda e faziam nutritivos caldos de porretas - das cinouras - rilhadas nas maçadouras do prado. Enfim, neste tempo era vê-la, quase todos os dias, da Traquitana, onde morava, à Sainça e da Sainça à Traquitana! Tudo coletava pela hora da sesta para que desse menos no olho. Também estava autorizada a apanhar guiços para o lume nas poulas do Burraçudo, níscaros nas suas touças, bem como as castanhas nos soutos. Pelo Natal, era a única que recebia, por intermédio do cunhado do Burraçudo, consoada especial: uma remeia de vinho, do de Cova do Ladrão, um pão centeio cozido pela sua irmã, e uma almotolia de azeite.

 

A Aurora Serritcha do Carregal tinha dois filhos gémeos a frequentar a escola da Ribeira, na classe da Milena. Dois morqueliáiros que não conseguiam sequer aprender o nome da Padrela, a serra que alcançavam da janela da sala de aula. A Serritcha tornava a culpa à mestra e dizia que era ela que não fazia caso deles e que por isso é que não passavam da primeira. Assim, pensou que se a pusesse a par das manobras da Aurélia para se abastecer na Sainça, poderia ganhar a sua atenção!

 

− Ó senhora pressora, vossemecê conhece a Aurélia do Cargal? Pois olhe que é ela lhe anda a comer a horta da Sainça e a bem dezer o restro! Não perde uma sesta! Aprobeita a calmaria, bai-se-lhe ao renovo e enche o cu. Uns trabalham, senhora pressora, e outros governam-se! Olhe que é uma boa porra!..

 

A professora há muito que andava com a pulga atrás da orelha. Agora tinha a confirmação. Preparou-lhe a estrangeirinha. Só que, inadvertidamente, confidenciou-a a uma amiga. Esta, por mero acaso (!), privava com o marido que, assim, se inteirou das intenções da mulher.

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Ora, numa tarde de canícula, no mês do S. João, a Milena ajeitou uma vergasta de marmeleiro e, logo após o almoço, sem sequer arrumar a cozinha, deixou que o marido se espojasse na cama para gozar a sesta e meteu pés ao caminho para a Sainça. Acocorou-se num centeio contíguo e fez-lhe a espera. Não tardou que a Aurélia escancarasse a cancela e, com grande à-vontade, se introduzisse na horta. Não tinha ainda começado a colheita, quando uma vergastada lhe atravessou o lombo de lés-a-lés. E outra e mais outra, até assobiavam!..

 

− Ah minha puta dos infernos, atão és tu que andas a comer a minha hortinha? Deixa estar que te vou encher a brajuega!..

 

A Aurélia, que não era mulher para se ficar, mal recuperou das vergastadas, engalfinhou-se na Milena e, aos rebolões, assobalharam o talhão das cebolas. Nesta refrega, entre gritos, palavras que não me atrevo a reproduzir e o verde-gaio ao léu, as mulheres, desgrenhadas, pareciam o diabo em figura de gente!.. Entrementes, o Burraçudo pinchou o portelo para as separar. Intrometeu-se e apanhou por medida! Foi o catano para as apartar!.. Após uns longos vinte minutos de gritaria e de toma lá, dá cá, conseguiu as tréguas entre arrebunhanços e manhuços de cabelo!

 

No final de um sermão, sábio, diga-se de passagem, acabaram os três a dormir a sesta - que sesta - numa fresca da Galgueira, embalados pelo trinar de um rouxinol que das avelaneiras os mirava descorçoado!

No rego de um lameiro do Belão ficou a cesta de vime da Aurélia, repleta, a refrescar as mais viçosas delícias da Sainça!..

 

O Burraçudo era levado do catano p’rás mulheres!..

 

Gil Santos

 

 

05
Out13

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos


 

Telha de meia cana

 

Uma falha geológica, milenar, pariu a veiga de Chaves. Dela tiraram partido os romanos, aproveitando a qualidade das águas cálidas que dela brotam. De origem vulcânica aquecem nas profundezas. Depois atravessam várias camadas magmáticas, desembocando à flor da terra. E tanto saram reumatismos, como males da pele. Mesmo para os enfartamentos ou as cardielas são boas. “E para as doenças mais graves”! Nelas tomou nome a cidade: Aquae Flaviae. A veiga, por onde minam, é mimosa e prenhe de sustento. Acoitada entre montanhas ingremes, viu-se ostracizada durante anos em solidão e silêncios. As encostas protegem-na das agrestes invernias planálticas. E pese embora massacrada, amiúde, por nevoeiros densos e gelados que se assapam às semanas, quem a penetra desde os cumes, parece ter chegado ao paraíso. Não quer isto dizer que muitas vezes não se experimentar o contrário: carambina no vale e sol radioso no planalto.


Das bordas dos altos em que se ampara, contemplamos uma paisagem bucólica, feita de mistério. Um panorama de cortar a respiração. Imaculado, contrasta em beleza com os cumes nevados, ou com o imenso mar da Póvoa.



Veiga de Chaves em dia de nevoeiro vista desde o Brunheiro

Depois, que ninguém olvide a artéria aorta: o Tâmega, princesa sua! A cidade, beijada pelo rio, assim reza seu hino, bebe-lhe a seiva. Dele amacia a canícula do verão e dá de beber às hortas, tornando-as mimosos e prolíferas. O rio foi e será a fartura eterna da nossa veiga!


Quase todas as urbes importantes que conheço, avezam um curso de água de que se podem gabar e envaidecer. Veja-se o Porto com o Douro ou Lisboa com o Tejo; Paris com o Sena ou Londres com o Tamisa; Praga com o Moldava ou Budapeste com o Danúbio; Moscovo com o Moskva ou S. Petersburgo com o Neva e sei lá quantas mais. Chaves tem o Tâmega, o que, a par de outras razões, muitas, a torna numa cidade, igualmente, notável. As orillas do seu rio são remédio para o corpo e alento para a alma dos tamagani. E já agora inveja para os muitos forasteiros que a visitam!


E ainda sobre as montanhas cercanas: quantas gerações de sonhos não alimentaram elas? Tantas vezes escancarei as portadas das janelas do meu quarto, nas manhãs geadas de janeiro e olhei o Brunheiro, como quem lê o Seringador, ougado por um nevão que me salvasse das chamadas orais do Dr. Castro! E quantas outras, subindo as suas encostas para a aldeia mãe, contemplei, pasmado, as fronteiras orográficas, intransponíveis, que me isolavam de um mundo outro! Quantas vezes, desde o Carregal, fitei o Larouco que me parecia um touro espreguiçado a ruminar nos lameiros do Barroso! E o Alvão com a sua testa proeminente a contemplar, de soslaio, as terras de Basto. Com a Padrela tive sempre duas paixões: uma de raiva, por me privar das vistas do sul que eu tinha como o lugar do orgulho pátrio, outra de tentação de lhe conquistar o pinouco e contemplar desde o céu, o Carregal, Fornelos, Adães e Santa Leocádia, aldeias da minha infância. Vistas daí haveriam de ser outras! E como eu queria que fossem outras! E como seria o mundo do outro lado da Padrela? E do Alvão? E do Larouco? Confesso que para norte raras vezes me voltava. Aliás, evitava até fazê-lo. A Sanábria já era Galiza e a mim tinham-me ensinado que “de Espanha nem bom vento” ─ nisso eu acreditava porque o conhecia gélido a enfrieirar-me as orelhas a caminho da escola de Adães ─ “nem bom casamento” ─ também nunca pensei casar em Espanha, porque diziam que as espanholas eram caralhudas!



Anoitecer visto desde Stª Leocádia

Por vezes, nesta contemplação, dava comigo a meditar sobre quão triste era (sobre)viver neste buraco de parolice feito. Como era dura a solidão, antiga, nas montanhas e nos vales de Trás-os-Montes! E eu imaginava como seria extraordinário libertar-me daqueles espartilhos e voar livre para outros mundos! Hoje reconheço o equívoco. E reconheço-o, tão-somente, porque emigrei. E quase ia perdendo a essência da terra mãe. Bem vistas as coisas, a solidão, a pobreza e o isolamento são apenas peanuts!


Ontem sonhava sair. Hoje anseio regressar! É esta velha mania de só se estar bem onde não se está!..


(In)felizmente a procura de vida flauteada levou muitos à estranja, ao litoral e à cidade de Trajano. Assim aconteceu ao Carolino Calvão. Carolino, por gosto de madrinha, Calvão pelo lugar que lhe deu berço. É muito comum encontrarmos pessoas na cidade, cujo nome de batismo foi cambiado por um de nomeada, referenciado à aldeia natal.


Ainda a cara não via navalha, quando das fraldas do Barroso, Carolino veio servir para Chaves. Moço de recados, andou aos emboleques. Levou muito pontapé no sim senhor e comeu o pão que o diabo amassou. Quiçá por isso se fez homem taludo! Trabalho, comida e cama era o que lhe bondava!




Quando o Imperador Flávio lho permitiu, fez-se a outra vida: artesão de telheira. Montou um pardieiro para os lados de Samaiões. Comprou uma junta de bois pinheiros no toural do Tabolado. Para galegos o pé-de-meia era curto. Mandou fazer os moldes de que precisava para a empreitada da fabricação da telha de meia cana que haveria de substituir tantas e tantas coberturas de colmo por esses tugúrios rurais. A argila, nos baldios da veiga, abundava e era matéria-prima de excelente qualidade. Bastava carregá-la entre ladranhos. Montou uma fabriqueta que mais parecia um estaminé da Flandres.  Ajeitou um telheiro por mor da chuva e do sol, um espaço amplo para amassar o barro e um terreiro para a secagem das telhas. Curiosa e inteligente foi a forma como amanhou a pisa do barro. Enterrou, ao de pé, um tronco de carvalho, num canto do terreno que ocupara. À sua volta espalhava a argila que humedecia com um regador. Jungia os bois, atava-os pelo jugo ao poste, limitando-lhes os movimentos giratórios. O busílis era fazê-los circular por vontade própria, já que não tinha moço que os tocasse. Lembrou-se da história do burro e da cenoura e pendurou uma cesta de rede no jugo da parelha de modo a que os animai a vissem à sua frente. Depois, enchia a cesta com couves-galegas. Era um regalo vê-los correr atrás da hortaliça que teimava em andar tão ligeira quanto eles. Assim o barro se tornava como veludo para encher os moldes de madeira que secavam as telhas ao sol.


A vida de empresário artesão depressa deu bons frutos. Porém, sozinho, começava a ter dificuldades em dar conta do recado. Decidiu então juntar fazenda com a Adelaide, conhecida, mais tarde, por Calvoa. O matrimónio trouxe-lhe companhia para a cama, para a mesa e mais dois braços para a fábrica, fora os que fossem capazes de produzir juntos! Ajeitaram mais vinte! Daí a uns anos aquilo parecia mesmo a Cerâmica Flaviense!


A companheira era uma mulher de pelo na venta. Tratava da casa, trabalhava na fábrica, paria e criava os filhos. Muitas vezes se via a caminho da telheira com um pela mão, outro à teta e outro na barriga. Depois, a Calvoa era limpa e asseada. Conta-se que nas raras sobras de tempo, aproveitava para escarolir a casa, particularmente a cozinha e o escano. Depois de ter o chão esfregado, curiosamente, espargia-o de cinza, não fosse o seu homem achar que se lhe sobrava força para limpar a poderia usar no fabrico de mais telha!..


O tempo e os anos foram-lhes minguando a força e o trabalho. A tropa primeiro e a América depois, retiraram-lhes os filhos de casa, os maganos as filhas. Ao mais, também não conseguiam competir com a maquinaria da Cerâmica que ali perto, entretanto, se instalou. Descorçoados reformaram-se. Ficaram sozinhos, ambos muito gastos. Passaram então a dedicar-se à horta, ao galinheiro e à coelheira, tantas vezes dizimada pelo excomungado chamorro![1]

 

Carolino, uma ocasião, criou, com o maior empenho, um galo capão. Era a luz dos seus olhos, a chama da sua candeia e o azeite da sua almotolia. O bicho era um verdadeiro pimpão: penas brilhantes, esporão ameaçador, porte atlético, mandão! Estou que o Carolino teria mais empenho no galo do que na própria patroa! Regalava-se a ouvi-lo cantar pela alva, bem como a vê-lo fazer a corte às galinhas pedreses da capoeira! Um dia receberam a visita de um dos filhos emigrado nas américas. A Calvoa, para o mimar, fez do dito um portentoso arroz de cabidela! Quando à mesa se preparavam para o degustar, o Carolino desconfiado, precipitou-se para o galinheiro! Faltava o seu Tiroliro! Foi-se ao pote e de raiva virou-o sobre a laje da lareira. Possesso saltou a gritar:


Excomungados seidas! Mil bitchos crie o cu de quem papar o meu galinho!


O filho teve de ir larpar a quem lho desse. A mulher levou duas arrochadas no lombo para que aprendesse!




Noutra ocasião precisou de ir à adega buscar vinho para a ceia. Pegou na candeia de azeite, desceu as escaleiras de perpianho que davam para o pátio e entrou na adega. Quando se preparava para abrir a torneira, uma corrente de ar apagou-lha. Com receio de verter o precioso líquido, tornou ao lume para a acender. A cena repetiu-por três vezes. À quarta, colérico, veio ao pátio, deu duas voltas à candeia e plantando uma touça de carvalhos e outra de negrilhos, arrimou-a mais longe do que seria Braga! No dia seguinte, a Calvoa foi dar com ela pendurada no galho mais alto da cerdeira fronteira à casa.


Estou que ainda lá deve estar para alumiar as noites de Samaiões quando falta a luz elétrica!


Carolino pereceu velhinho, pouco depois de uma consulta ao doutor Alcino.


─ Então Sr. Carolino, está bonzinho?

─ Cá estemos senhor doutor!

─ Ai estemos estemos!


O que não sabia, médico e paciente, é que não estariam, ambos, por muito mais tempo!

Efémera é a vida! E mais efémera é ainda, não havendo quem no-la cante!



[1] mixomatose

 

 

28
Jan13

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros


 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

(conclusão)

 

[14. João Ventura]

 

A chegada de Carmen foi de tal modo importante que já nem lhe sei dizer, assim à distância, se foi ela, a emigração, a televisão ou a guerra colonial o que mais transformou a Vila nos últimos anos até a deixar irreconhecível. Não falo dos camiões a descarregar vigas de cimento e perfis de alumínio e dos edifícios pacóvios ou dos loteamentos que avançaram contra os muros antigos das propriedades e as árvores de fruto. Não falo do ostensivo abandono da terra. Não falo da descoberta dos empréstimos bancários como modo de vida. Falo de algo mais profundo que parece ter começado a ruir a partir desse dia em que o doutor Magalhães abriu as portas a uma rapariga supostamente muito jovem e, assim o espero, deslumbrante. Porque, por esse tempo, a beleza era um crime. Carmen, que só muito raramente se deixou ver a atravessar a varanda ou no canto do pátio onde cresce a sempre-noiva, não permitiu nunca que alguém pudesse adivinhar-lhe o rosto escondido por um lenço, descaído até aos ombros, nem o desenho do corpo, diluído por entre roupas negras e largas. Repare como, de um modo geral, é ponto assente a pouca beleza da moça. Assim o fizeram correr as guardiãs da moral, as defensoras dos costumes, os paladinos das virtudes antigas. Carmen atravessara a fronteira. E a fronteira foi sempre uma vil e insinuante sombra derramada sobre os telhados da Vila. Era do outro lado da raia que chegavam os perigos ou a ameaça. Ou o que se desconhece. Foi por aí que chegaram os sete mil e quinhentos soldados de Napoleão que dormiram na Vila e seguiram caras ao Porto deixando atrás de si um rasto de medo e destruição. Foi por aí que chegaram homens e mulheres fugidos à ignomínia de Franco. Mesmo quando o futuro é que estava em jogo, e atravessar a fronteira significava fugir à desgraça, era ainda o choro de quem ficava que marcava os desígnios dessa esperança. Com a chegada de Carmen, como vê, tudo mudou. Desmoronou-se, sobretudo, o castelo impenetrável da moral. Ou, enfim, estilhaçou ligeiramente. A Vila, e só por isso já seria importante você ter começado por aqui com perguntas, voltou a acreditar nas palavras do Vasco. E começou a acreditar que a rapariga, afinal, talvez até pudesse ser deslumbrante. E que da beleza não vem propriamente mal nenhum ao mundo.  Não é um crime. O que significa que, num certo sentido, a Vila pode voltar a acreditar em si mesma. Só é preciso que este mistério, contra as suas indagações e a má-língua do mundo, verdadeiramente permaneça.

 

 

[15. Doutor]

 

O Sousa garante-me que posso confiar na sua discrição. Pois bem. Esclareçamos de vez este mistério. Sente-se, a conversa será longa. Uma parte da história já você conhece. Numa noite chuvosa de mil novecentos e sessenta e sete, depois de ter atravessado a fronteira e correr caminhos de montanha quase desertos, Carmen, cansada e incógnita, chegou à Vila. Como terá oportunidade de ver, e apesar dos seus quase quarenta anos, é duma beleza perturbante. Tínhamos combinado que. Quer dizer: nós tínhamos sido apresentados por. Mas vamos por partes. Vasco, completamente bêbado, regressa a casa e encontra-a deitada no chão. Inconsciente. Nem sei como conseguiu trazê-la nos braços e mantê-la erguida à entrada da porta. Eu estava a dormir, não terei acordado logo. Foi então que. Mas sente-se. A conversa, como lhe digo, será longa.

 

José Carlos Barros

 

27
Jan13

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros


 

 

 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

 

(continuação. terceira parte)

 

[12. Sousa]

 

Pois como te hei-de dizer. O Magalhães nunca tocou no assunto. Não ia insistir. Só te posso dizer que a Carmen é de uma beleza perturbante. Não me admiro que o Vasco se não recomponha da visão daquela noite antiga em que a diz ter encontrado desfalecida no meio da rua. Ele é um romântico, já deves saber. Pois acontece que a Carmen, inexplicavelmente, não aparece à janela ou à varanda senão a esconder o rosto e vestida de negro da cabeça aos pés. Riem-se quando o Vasco a descreve. Como é que ele diz? Deslumbrante. As pessoas riem-se. Pois desculpar-me-ás, o assunto é delicado. Bem vês, o próprio Magalhães foi cauteloso quando falou contigo. Calculo que também não tenha tocado em nada que respeite ao passado político. É um homem magoado. Lutámos juntos, conspirámos, arriscámos, tínhamos ideais. Não gosto de dizer ideais porque a palavra remete para a abstracção das utopias. O que nos movia eram coisas muito concretas. A injustiça, a arbitrariedade, a desumanidade disfarçada por uma capa filha da puta de bons sentimentos. Era tudo gentinha excelente. Praticava actos de caridade, rezava a Deus pela saúde dos pobres. Não é que tivéssemos ideais, portanto. Lutávamos por coisas concretas e sabíamos que não haveríamos de mudar o mundo. Nem queríamos mudar o mundo: esperávamos apenas conseguir mexer um cibo nos seus eixos. E incomodávamos. Isso é certo. Mas agora já tudo parece estranho, ridículo. A sacristia venceu-nos. E as pessoas esquecem. Sobretudo o que não chegaram nunca a aprender. O fascismo, por aqui, foi sobretudo silêncio. Não era nada de propriamente palpável, material. Era apenas silêncio. A guerra colonial era um pano muito largo de silêncio quando não era exaltação dos valores pátrios. A emigração era silêncio. A iniquidade era silêncio. A injustiça era silêncio. Fodeu-se tudo em deixa-andar. E quando se foi a ver já nem havia jovens e ficaram apenas os velhos como restos do rame-rame. Repara: até o grupo de futebol acabou. E o doutor Magalhães, claro, sempre incompreendido e a ficar do lado dos vencidos da vida. Porque nada mudou entretanto. O grande sonho desta gente toda passou a ser varrer para debaixo da mesa as migalhas da ruralidade como quem se livra de um incómodo ou de uma vergonha. O sonho passou a ser o comércio e o terciário: abrir um café ou arranjar um emprego nas finanças. E ter uma conta no banco e ter direito a crédito. Um dia esta merda vai dar um estouro que nem uma castanha. Mas ninguém liga. E o doutor desistiu. Com fama de empedernido, insensível, espalha-brasas. Já imaginas o quanto lhe custará falar destas fronteiras mesquinhas que o separam de um povo que tanto julgou amar e por quem se dispôs a arriscar tudo.

 

 

[13. Vasco]

 

É isso, depois de tantos anos, que procuro. O voo dos pássaros no princípio da manhã, os bois sonolentos atravessando a ponte do moinho do Cubo, a avenida de plátanos e seus muros de pedra solta, mulheres regressando à Vila com maçãs e nozes. Procuro o que não existe. A mata de carvalhos a meio do Padrão, as cobras d água caçando peixes nos remansos de Requeixe, as flores d Abril dos negrilhos, os amentilhos dos amieiros debruçados sobre os leitos estreitos dos rios. Como podemos viver tanto tempo com este peso insustentável das ausências. Pergunto. Ninguém responde. Procuro o vinho enterrado nas adegas frescas de saibro e paredes de granito, o choro e o riso, as feiras antes do plástico, os ourives de filigrana, os comerciantes de fazenda e os seus jogos simples de esconder e mostrar. Procuro as raparigas impacientes a galgar os atalhos com roupas novas, o salgueiro na curva da ribeira do Fontão e do mundo. Procuro, portanto, o que não existe nos intervalos de procurar o sinal ou o símbolo de tudo o que se perdeu. Alguém me segreda o nome de Carmen? Por sobre as pedras e a urze, por sobre o alecrim e o odor antigo da terra quando começa a chover, eis que chegam as máquinas e o comércio atravessando campos de cultivo, hortas e lugares. Por sobre as linhas do cadastro, como num movimento em falso, ergue o silêncio muros de cimento, nomes de traição. Chama-se Carmen, assim o dizem. Assim mo dizem a mim, eu que pela primeira vez, deslumbrante, a ergui nos braços contra a chuva e a sombra e contra o que ameaçadoramente regressa com a noite. Ou se perde com a noite. Não tenho lugar nem palavras para esse refúgio. Desde então, simplesmente, a procuro como se a procurasse em mim, em alguma parte de mim, eu que procuro apenas o que não existe. E por isso, em rigor, Carmen, assim se chama, não existe. Ela que, deslumbrante, ficou em casa do facultativo para assistir ao fim de todas as coisas. E para dar um nome a tudo quanto se perdeu. Às romarias, ao acordeon, à avoadinha e aos campos de poila, à banda de música no coreto de madeira, a quanto participa da invenção do mundo. Carmen. A que regressa do outro lado da fronteira para morrer sem rosto e sem nome, indecifrável, e sem fronteiras, do outro lado do mundo.

 

(conclui amanhã)


26
Jan13

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros - Continuação


 


 

O Comércio

 

 

 

um conto de José Carlos Barros


(continuação)

 

 

7. [Acúrsio]

 

Sim, trabalhei por lá uns seis ou sete meses. Foi há tanto tempo, já correu tanta água nos rigueiros da serra. Seja como for. Podia contar-lhe coisas terríveis. Como tratava a desgraçada da esposa, por exemplo. Bem, sim, não foi coisa que tivesse visto. Dizia-se, sabia-se. E das raparigas que lá iam para isso, claro, falava-se à boca pequena. Eu mesmo me recordo de uma moça que chegou aí a coberto da noite e do segredo que envolveu a casa. Eles fechados no consultório e a dona Maria escondida no quarto a rezar pela salvação do mundo. Era o que se dizia. Aqui houve dois ou três casos, mas as raparigas deixavam-nos vir. Quem não tivesse posses ou um bom amparo. Isto é como tudo.

 

 

[8. Custódio]

 

As pessoas, na Vila, perderam a memória. O que é normal. Não há memória individual que sobreviva à amnésia colectiva. À Vila foram chegando pessoas de vários lugares e por diferentes razões. Para trabalhar nas finanças ou na caixa, chefiar o posto da guarda ou montar um negócio de reclame luminoso por cima da vitrina larga. Não tinham por aqui raízes fundas. Quanto aos outros, os que tinham raízes, foram aos poucos procurando livrar-se delas como quem se livra de um incómodo. Até absolutamente nada distinguir uns e outros. Por isso mesmo encontrará agora toda esta gente tão babada com os partidos de Lisboa, por exemplo. E tão distantes do que verdadeiramente lhes pertencia ou podia pertencer-lhes. Procure-os no reservado do café bebendo vinho branco de marca a acompanhar pratinhos de cigalas. São poucos os resistentes. Procuram, nostálgicos, o que não existe. E também eles já começam a comer cigalas e também eles começam a nem procurar. E apenas se embebedam e fazem filhos que depois desaparecem daqui para longes terras ou arranjam um emprego na conservatória ou na secretaria da câmara. Agora as fronteiras. Sei lá se as fronteiras existiam, sei lá se as fronteiras existiram. Hoje sei que não existem. Nem as verdadeiras nem as outras. As simbólicas. Desde logo porque somos todos iguais e as fronteiras marcam lugares de diferenças. Vamos todos perdendo a memória e vamo-nos todos perdendo por dentro de nós mesmos como se já nem pudéssemos encontrar-nos num livro de regressos. Olhe-me essa gente do reservado do café a comer marisco congelado e a beber vinho de marca depois de ter vendido as vinhas. Se não estou a exagerar? Sim. O mais certo é que esteja a exagerar e que entre mim e o mundo se tenha já erguido uma inultapassável barreira de gelo e incompreensão.

 

 

[9. Mário]

 

A raia sempre foi um lugar mágico e recorrente. Um lugar de refúgio e protecção. Um lugar de sonho. Para procurar o amor ou fugir ao fascismo ou simplesmente à desgraça a que o mundo rural votou fervorosamente os seus filhos. A raia sempre foi um lugar por onde se transportaram ilusões difusas. Um lugar virado ao sonho mas também um lugar de desgraças. Por ali fugiram tantos emigantes não se sabe de quê. Alguns morreram ou desapareceram entre o comércio de passadores sem escrúpulos e esses caminhos que lhes eram estranhos. Mas agora me interrogo. Onde quererá você chegar com estas conversas sobre a raia? Acha que isso atrasa ou adianta à história do Vasco e da galega que se amantizou com o doutor?

 

 

[10. Pedro Mendes]

 

Não acredite na teoria dos acasos. Carmen veio parar aqui por razões políticas. Para isso serviu a fronteira tantas vezes. Podia contar-lhe muitos casos. Desde a guerra civil. Mas também depois, e então sobretudo em sentido inverso. Agora essa história dos desmanchos e da boa-vai-ela por terras de Espanha. Trocaram-lhe as voltas à narrativa. O doutor Magalhães nunca se alheou da política. Certamente que, por razões políticas, a protegeu. Como acreditar que é ao calhas que alguém vem parar a um sítio destes? Já havia história. Só podia haver. Claro que é isso que corre. Que um acaso a levou a casa do doutor. O acaso de mais uma tosga do Vasco. A encontrar uma rapariga deslumbrante, desfalecida, no meio da rua, às duas ou três da manhã. Ou talvez não. Digo eu. O certo é que o próprio destino tem os seus quês quanto a uma coisa ser consequência de outra como se não pudesse ser de outro modo. Que sabemos nós? Fale com o Sousa. O Sousa acompanhava-o nessas andanças. Verá como a história é diferente da versão de vão de escada que lhe contaram. Não quer dizer, enfim, que não houvesse muito vinho e espanholas de salero fácil à mistura. Lá de quando em vez. Mas eram outras as razões essenciais que os moviam. Nas casas de ambos dormiu muito fugido ao fascismo. Repare como a palavra já parece estranha. Soletre devagar. Fas-cis-mo. Esquecemos tão depressa. E depois essas tretas da mulher do médico. Uma beata de fundo de sacristia feita com o padre e as guardiãs da moral. Posso indicar-lhas a dedo, uma a uma, ainda. Todas juntas não fazem uma. A lançarem boatos desses. Nunca compreenderam, não podiam compreender. Acontece que o facultativo. É curioso. O Vasco diz sempre facultativo. O doutor deve ter deixado correr o boato dos desmanchos. A história acabava por lhe ser favorável. Justificava as movimentações estranhas a meio da noite, por exemplo. Esta é que é a verdade. Fale com o Sousa, o doutor pouco lhe haverá de adiantar. Ou nada. Ficou seco. Desiludido com o rumo que as coisas tomaram, com o rumo que as coisas tomavam. Mesmo em setenta e quatro, enfim. A verdade, de qualquer modo, é que Carmen nunca saiu de casa, não permitiu nunca que ninguém lhe visse o rosto por inteiro. Que pretende ocultar, ou revelar, com este mistério? Ninguém sabe. Penso que ninguém virá a saber. Nem você. Há sempre qualquer coisa que se não desvenda nunca, não acha? Um segredo, um mistério, o avesso de uma evidência permanecem para além do que sabemos e para além de todas as indagações.

 

 

[11. Júlio France]

 

Lembro-me de quando rapavam fome e não tinham uma leira e não amanhavam emprego. Nessa altura eu não era ainda o passador sem escrúpulos mas a tábua de salvação no meio da tormenta. Davam-me prendas, prometiam favores, convidavam-me para apadrinhar os rapazes e dar-lhes o nome. Empenhavam-se, é certo. Mas essas casas que vê agora a erguer-se com telhados suíços, esses carros lustrosos em que regressam, esse nariz erguido a pedir rodadas de grades, é a mim, e a outros como eu, que devem. Porque também nós arriscávamos o futuro. O nosso e o dos nossos. O mesmo com o contrabando, não lhe escondo que fiz muito. Contrabandeávamos as coisas mais incríveis, até enxadas e foices. Mantas e calçado, café e tabaco, cacau e perfumes baratos. E por isso, você não é desse tempo, as raparigas, nos bailes, nas festas, nas bodas, cheiravam todas ao mesmo perfume. Certa vez a minha mulher andou quase três horas em redor da capela de S. Caetano com um saco de contrabando à cabeça. Como se fosse o centeio de uma promessa grande. Eu andava seguido. E então com a guarda republicana a espreitar de um lado e os negociantes a espreitar do outro. Duma outra vez, em princípios de vida, impingiram-me uma remessa de sapatos todos do mesmo pé. O que passei para os vender, na feira da Vila, nos largos das aldeias, com artes e maroscas que só eu sei. Agora, eu que fui preso, que andei fugido pelos atalhos dos montes, sou corrido de passador sem escrúpulos. Por esses mesmos que livrei da desgraça dos trabalhos do campo. Por esses que vê de porta aberta no comércio, de espadinha com cromados puxados a parafina, de casa forrada de azulejos, de esposa no cabeleireiro duas vezes à semana a fazer mises.

 

 

(continua amanhã)



25
Jan13

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros


 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

 

1. [Vasco]

 

Naquela noite fiquei até tarde no café. É certo que lhe tinha bebido bem. Devia ter começado a chover pouco antes de sair. Porque não recordo a chuva senão quando, já perto de casa, tropecei num deslumbrante corpo de mulher. Ninguém, no dia seguinte, e nos dias que se seguiram a esse dia, acreditou nas minhas palavras. Eu mesmo deixei de acreditar. Mas continuo a ver, tantos anos depois, esse rosto de cinema, esse corpo dobrado nos meus braços. Enquanto a erguia sem esforço. Adormecida. Como se não tivesse peso. Como se estivesse a preparar-se para acordar e dançar num espaço sem tempo, no princípio dos tempos. Conversa de bêbado, dirá. Visões que o malte tece. Isso me disseram todos quantos ouviram a minha versão dos estranhos sucessos dessa noite.

 

 

2. [Pimentel]

 

O Vasco é um romântico. Sobretudo quando bebe. Mais ainda na ressaca. Enfim, é um romântico. Nessa noite de meados de novembro de mil novecentos e sessenta e sete parecia que estava a beber de empreitada. Desde as onze, de fio, três ou quatro horas seguidinhas. As mulheres dão-lhe cabo do fígado mais que do coração. Apaixona-se muito e a correspondência é relativa. Acontece que pela primeira vez o rapaz fizera um engate que se dissesse benza-te deus. A prima do Sérgio, recém-chegada de Lisboa. Aquilo era outro andamento. Perfumezinho, decote, saia curta, o cabelo desatado nos ombros. Segue-se que dois dias depois da chegada era vê-los muito agarradinhos no baile do fundo da rua a dançar ao som da grafonola do Albino. Já lhe devo ter dito que o rapaz tem veia poética. Pois imagina. Flores e poemas a rimar, um fio de prata comprado no Inácio, bilhetinhos, prendinhas de namoro. Não que eu não lhe repetisse: deixa-te de paneleirices, menino. Mas nada. Ele fechado em casa a acertar a métrica dos versos e ela no sábado da festa com o Tó Fernandes em aulas de condução. O Vasco, é claro, adoeceu-se daquela parte da alma onde flui a inspiração da lírica. E então recomeçou nos copos. Era sempre assim de tiro e queda, o moço, em se tratando de desgostos de amor. E este, imagine-se, que parecia correspondido. E você agora compreende a razão de ninguém ter acreditado na história do Vasco. Ele fez sempre questão do adjectivo, já deve saber: a história da mulher deslumbrante em que tropeçara às três da manhã quase à porta de casa. Um pifo dos velhos, isso garanto-lho eu. A verdade é que repetia a história com convicção, sempre com os mesmos pormenores, sempre com as mesmas palavras. Isso chegou a dar-nos que pensar. E depois a coincidência espantosa de, subitamente, se dizer que o doutor arranjara empregada de dentro, ou lá que era. Caída do céu, como nos filmes. Pois o Vasco insistia que só podia ser essa mulher que levara a casa do facultativo às três da manhã quando a descobriu no meio da rua. Ele diz sempre o facultativo. O certo é que, a bem dizer, praticamente ninguém pôs a vista em cima à criada do doutor durante o andar de todos estes anos. Eu mesmo a vi uma única vez, ainda assim de relance. Toda vestida de preto, o cabelo desalinhado a fugir-lhe do lenço que tapava parte do rosto. Mas deslumbrante, ora adeus. Nem é o que corre.

 


3. [Doutor]

 

O meio é pequeno. Não há nada de estranho ou surpreendente num caso que o não chega a ser. Numa noite de mil novecentos e sessenta em sete, em novembro, ouvi bater à porta. Altas horas da noite, uma noite de chuva. Devo ter demorado, o vento corria nos telhados, não terei ouvido logo. E então aparece-me uma rapariga galega com nome de andaluza. Carmen. Quase desfalecida. A precisar de cuidados médicos. Não soube explicar muito bem como tinha chegado à Vila, não insisti nas perguntas. Ela não se lembrava de nada, ou fazia de conta que não se lembrava de nada. Vai dar ao mesmo. Ficou a convalescer, acabou por ficar. Acresce que. Mas você já deve saber. Carmen não é propriamente deslumbrante. Seja como for. Um médico viúvo não pode ter uma empregada portas adentro. Mesmo que não seja muito bonita. As pessoas falam, é assim o povo. É como lhe digo: acabou por ficar. Nunca fala com ninguém, quase nunca sai de casa, passa o tempo entre a limpeza do pó, a cozinha e a leitura de romances. Lamento, mas penso que o não quererá receber.

 

 

4. [Raimundo]

 

O doutor perdeu a mulher em mil novecentos e sessenta e seis. Agosto ou Setembro. Logo a seguir à festa da Vila. Agosto, portanto. Era uma santa, pode escrevê-lo. Do doutor não direi o mesmo. Bruto como casas, uma pedra no lugar do coração. Estou que nunca olhou um cristão que não fosse de esguelha. Daí já você tira. É assim o mundo, é sempre assim. O mundo está feito de maneira que uma metade sofra sempre pela outra metade. A dona Maria com a caridade dos pobres, as novenas, a luz do Altíssimo, e o doutor na boa-vai-ela em sucessivas surtidas a Espanha. Mulherio, só podia ser. Pois lho digo eu. Dezasseis anos servi naquela casa. E depois a desvergonha de meter portas adentro uma galdéria fugida sabe-se lá de onde. Como as outras que lá iam para o doutor. Cala-te boca.

 

 

5. [Joaquim]

 

Não vá por aí. Aqui as fronteiras não passam de grafismos tirados a tinta da china nas cartas militares. Os próprios marcos, onde e os há, é vê-los cobertos de ervas. As fronteiras são outras. De qualquer modo a verdade é a camada mais profunda de qualquer acontecimento. Não pretenda saber tudo, desvendar seja o que for que passe além da evidência. O Vasco afirma ter tropeçado numa mulher deslumbrante. Pois então tropeçou numa mulher deslumbrante. Agora não comece a fazer filmes. As fronteiras são outras, e essas é que valiam o esforço de procurar esclarecê-las. As fronteiras quotidianas que não vêm nos mapas. As que se erguem entre mim e você. Entre você e o doutor Magalhães. Entre o doutor e as pessoas da Vila. Entre as pessoas e a doente anónima que caiu no consultório do doutor às duas ou três da manhã. Entre essa rapariga, deslumbrante ou não, e o resto da Vila e do mundo.

 

 

6. [João Pereira]

 

É curioso que queira desenterrar um pequeno mistério sem importância do nosso passado recente. Por várias razões. Mas sobretudo porque se tem falado disso desde que você começou por aqui com perguntas. Na café, no barbeiro, na farmácia, no jardim dos correios, as pessoas discutem a chegada de Carmen e a inexplicável teimosia do Vasco em insistir na beleza da moça. Ele próprio não acreditava já numa história que, convenhamos, tinha pouca consistência. Carmen nunca sai de casa. Mas os poucos que a viram, na varanda ou a atravessar o pátio, uma ou outra vez no corredor que leva à sala de espera do consultório, garantem que ela pode ser tudo menos deslumbrante. Estes lugares de província são abstracções territoriais onde nada acontece. As pessoas, aos poucos, vão-se misturando na terra e desaparecem misturadas às raízes apodrecidas dos negrilhos. Onde nada se discute que não seja superficial, irrelevante. A suposta beleza da moça não é coisa de grande importância, acredite. E também pouco importa como ela apareceu ou deixou de aparecer. A grande questão é se o doutor dorme ou não dorme com ela. Esse é o ponto. E isso é que tem ocupado os espíritos desta gente nos últimos catorze ou quinze anos. E se dorme, e é como se não pudesse deixar de dormir, com que frequência o facultativo a assiste. É assim que o Vasco se refere ao doutor. Facultativo. E é isto que verdadeiramente interessa numa terra onde o virgo das raparigas e a graduação do vinho tinto se constituem como temas existenciais. De qualquer modo não deixa de ser uma perspectiva interessante. Não sei. É que a fronteira, aqui, pelo menos aqui, é um traço que divide duas margens iguais de um mesmo rio. Um rio, ainda assim, periférico. Mas não sei. Provavelmente não há uma verdade. Às vezes penso que apenas existem maneiras diferentes de olhar uma mesma coisa, um mesmo acontecimento, uma mesma verdade.

 

(continua amanhã)



23
Out11

Treze Contos do Mundo que Acabou - As voltas que o mundo dá


 

 

 

 

Conto XII

As voltas que o mundo dá

 

          - Vinde ver um carro sem bois, que está lá baixo à beira do Santo!


As chispas daquele alvoroço rastilharam pelas ruas e canelhas mais depressa que as línguas do fogo lambem a agulheta ressequida pelo chão dos pinhais em Agosto. Daí a nada, quem não era manco corria caras ao fundo do povo com quanto fôlego as pernas podiam desgastar, antes que a estranha coisa sumisse ou a levassem de volta as artes do mafarrico. Embora, em boa verdade, não deixasse de causar estranheza que o chisme estivesse aparcado à sombra da capelinha do Santo, sendo que fosse cilada do tinhoso, que estas coisas, como se sabe, não costumam emparelhar…


          - Andai lá, desamparai-me a loja e deixai espaço para a manobra, que o recado está dado e a mim não me falta que fazer ainda hoje!

 


Era o vozeirão do Domingos Lomba a ditar sentenças, empertigado de prosápia, boina descaída sobre os olhos, camisa espeitorada, os braços arremangados de roda do volante e o pescoço torcido para trás, a medir a distância às pedras da parede, enquanto o escape arrotava a fumaceira negra da gasolina em que se empanturravam os cilindros do Prefect. Nunca antes ali tinha aportado semelhante coisa, e muito embora já todos tivessem escutado dizer que havia carros que não precisavam que os puxassem as bestas, contavam-se pelos dedos de uma só mão os que tinham posto os olhos num automóvel. Fosse como fosse, não cabia dúvida, era coisa bonita de se ver, apesar da muita poeira a deslustrar os cromados e um que outro buraco ratado no tecido puído dos estofos. Aquele era o primeiro frete que o Lomba fazia, desde que, aqui a atrasado, tinha ido ao Porto pelo carro - transportar a Berrande os cinco músicos galegos de Castrelos que a Comissão dos Solteiros chamara para animar o povo na festa do Santo, mais as gaitas de foles e o restante instrumental, como pertencia. Bem atacadinho, coube tudo, bem embora o bombo reboludo, de aduelas tamanhas como as de uma pipa, tivesse que ir amarrado na dianteira contra a grelha, de modo que o Domingos por diversas vezes, enquanto durou a viagem, se viu obrigado a verter uns canecos de água do regueiro no fervilhar esbaforido do radiador. Sobre a pele retesada do bombo, maçada de milhentas pancadas, avultavam escarrapachados em perfeita caligrafia uns dizeres a tinta azul, de roda de uma vieira peregrina - Gaiteiros do Camiño. A chusma de canalha que ali se juntou é que não quis saber de gaitas nem de gaiteiros e correu desaustinada, rodeira abaixo, atropelada pelo caincar desesperado dos rafeiros, a enfarinhar-se no polvorinho mágico que os rodados levantavam. Agora, que finalmente o espanto embasbacado cedia lugar à risada das mulheres e os mais entendidos na matéria até botavam faladura de assombrar os pategos, já os mordomos podiam dar ordem para os gaiteiros começarem a arruada. Pagara a pena, sim senhor, aquele desassossego no fim da manhã, e o mais certo era o senhor abade, que havia de estar a chegar para rezar a missa, falar do assunto na prática, mal acabasse de decifrar as leituras sagradas.

 

          A capela não tinha dentro espaço onde todos coubessem, mas a alguns menos devotos pouco se lhes dava ficarem em pé, arrimados às colunas do coberto exterior, que sempre estavam mais à larga e podiam continuar a alanzoar à boca pequena sobre o sucedido, e ao fim, cumpriam a santa obrigação como os demais.


          -Irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, que padeceu por nós e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao céu, onde está sentado à mão direita de Deus Pai, com a multidão dos santos, dos anjos e arcanjos de redor da Trindade Santíssima, viestes hoje aqui para honrar o divino arcanjo São Miguel, vosso padroeiro, guardião das almas e carrasco do ardiloso Belzebú, a quem Deus permite desde o princípio dos tempos a tentação dos homens, pobres mortais peregrinos neste vale de lágrimas, filhos do pecado que maculou a harmonia do paraíso terreal, a fim de que neles se possa operar o mistério da redenção, pelo qual enviou até nós o seu próprio Filho, para que a todos nos resgatasse das garras peçonhentas do pecado e nos fizesse partilhar da sua divina glória, até à consumação dos tempos …

 


O Ramiro, sentado cá fora num degrau do cruzeiro, estava em pulgas para ouvir o padre esconjurar um vade retro sobre o carro mais o diabo que o trouxera, e não parava de chiscar o Artur que arreguichava as orelhas para não perder pitada do sermão.


          - Esta conversa já nós a escutámos um cento de vezes… Será que ninguém lhe contou do carro do Lomba?!


          - Espera mais um cibo, escuta até ao fim. Não me finto que as bedeiras das mulheres não lhe tenham já levado a novidade. Até rebentavam, se lho não dissessem!


O certo é que o abade deu por terminada a prática, nos modos e responsos habituais, e nem no assunto tocou. Cá fora, entre a admiração e a desencanto dos que se sentiam defraudados, começava a debandada sorrateira muito antes do ite missa est.  Uns, porque tinham de ir espertar o forno para assar o anho, outros, porque ainda iam botar um olhinho às crias, rápido o largo de roda da capela ficou deserto que nem um final de feira, e só os que estavam dentro, mais por vergonha, que por devoção, mastigaram com impaciência o resto das jaculatórias num latinório mal engrolado, até desandar cada qual à sua vida, a dar conta do almoço melhorado.


          O padre Alfredo estranhou o desassossego das velhas, que não paravam de bichanar, mas não se deu por achado e breve despiu a paramenta e meteu pés ao caminho, direito a casa do Abel Tendeiro, a saber do rancho. Antes da missa já a Carminda lhe tinha lembrado que contavam com ele, se sua reverência fosse servido, como era de hábito nos demais anos.


          - Deus Nosso Senhor abençoe esta casa e todos quantos nela se recolhem. Cá me tendes, conforme o prometido, e olhai que trago fome!


          - Pois vem em boa hora, que acabo de tirar o cordeiro e as batatas loiras do forno. Faça favor de se sentar, que vou abaixo à adega por vinho, e já lhe faço companhia. Oh Carminda, chega-me daí a caneca de quartilho, que quero que o senhor abade prove do pipinho que incertei para a festa; ele depois me dirá alguma coisa…


Desafogou o pescoço papudo do sufoco da sotaina e amesendou-se sem mais cerimónia, e quando o Abel voltou com o vinho, já ele tinha lançado mão a uma tora de presunto velho, de onde a faca tirava lascas de um sabor capaz de quebrar a abstinência quaresmal a um santo.


          - Oh Abel, bota lá então um copo, que já estou a ficar embaçado de tanto comer sem beber nada. É do tal?


          - Beba mais outro, e diga-me lá se não é uma pinguinha para dar vida a um morto!? As uvas são de uma vinha que já o meu pai trazia sobre a Teixugueira, onde bate o sol de manhã à noite e não é tão atreita às geadas como as que são viradas ao povo. O presunto tem dois anos e é para se comer, que está no ponto, senão, quando tal, seca demais e já nem os dentes o rilham como deve ser.


          - Sim senhor, está tudo como pertence e Deus manda, mas ainda tenho que guardar fome para o cordeiro e para as batatas, que do jeito como a Carminda o prepara, não quero que haja segundo em toda a freguesia!


          - E o senhor abade que me diz do caso que sucedeu esta manhã? Por certo já escutou dizer que o Lomba apareceu aí montado num carro, creio que lhe chamava um automóvel profeta, atestadinho com os músicos e mais os instrumentos, e lá vinha na esgalha, rodeira acima, sem besta que o puxasse… Que lhe parece?


          - Automóveis, já há muito que os há na cidade, onde as estradas são mais a direito e o povo parece que tem mais pressa no que faz, agora lá isso do profeta só os que na Bíblia Sagrada anunciavam a vinda do Messias… Não será que o nomeou pela marca, que fosse um Prefect?


          - Decerto seria, mas ficou tudo assarapantado com a criatura e não faltava quem tivesse receio que fosse coisa do demónio… Estavam todos à espera que o senhor falasse na missa a respeito do assunto, mas como não disse nada, a maior parte ainda não está crente. Não seria pior, ao acabarmos de comer, o senhor ir por aí pelo povo e dizer umas palavrinhas que sossegassem mais a gente.


          - Se é essa a questão, lá farei como dizes. Para tudo tem de haver uma primeira vez. Vais ver que de ora em diante depressa se habituam, que o mundo, meu caro Abel, já dizia o sábio Galileu, é uma bola que rebola, sempre em constante movimento no relógio do firmamento, e a cada dia que passa traz sua novidade.

 


Conforme discorria sobre um mundo em mudança permanente, o padre Alfredo não achou melhor exemplo que a travessa do cordeiro posta no meio da mesa, por sinal com o naco mais apetitoso virado para o Abel, e botou-lhe ambas as mãos para a rodar, assim à moda de um globo terráqueo numa classe de astronomia, e deixar o melhor pedaço da carne mais a seu jeito.


          - Será como diz o senhor abade, que lá o lê lá o entende, e quem sou eu para dizer o contrário?! Mas, cá por mim estou em crer que o mundo, sendo assim redondo, tanto anda como desanda! – e deitando também as mãos à travessa girou-a de novo ao revés, de forma que o quarto do cordeiro voltasse para a beira dele…         

 

Herculano Pombo

 


21
Ago11

Treze Contos do Mundo que Acabou - Cabrito por lebre


 

 

Conto VI

Cabrito por lebre

 

           O melro esvoaçou contrariado, a ladainhar uma melopeia de protesto com a corneta amarela do bico, e foi esconder a lustrosa fatiota negra na espessura fortificada de um silvado. Sempre queria ver se o safado do cadelo arriscava uns arranhões naquele focinho coscuvilheiro, só para mostrar serviço a quem lhe garantia o caldo. Mas não, afinal o que ele farejava como um possesso era o rasto fresco do laparoto desprecatado que ousava retouçar àquelas horas da matina, em plena luz do dia, confiante na orelha apurada e no costumeiro desembaraço das canelas. Não lhe tinha bastado dançar o saricoté toda a santa noite, a rapar covinhas no chão macio da vinha e a semear cagalhetas como azeitonas miúdas no musgo seco das fragas, sem nenhum respeito pelo sossego dos outros bichos, e ainda se sujeitava agora a que a escumilha fumegante de uma escopeta lhe furasse o casaco, só pelo desfastio de desembotar os dentes no viço fresco de uma leituga. E não tardou um credo que a cantoria esganiçada do podengo lhe pusesse as molas das pernas em sobressalto pela rodeira acima.

 


          Caim, caim, caim! Pum!


          - Traz cá, Faísca!


          O eco da descarga bombardeira ressoou pelos cabeços, onde o sol morno afagava já a folha miudinha das urzes, até ensurdecer na úmbria fria em que a corga se despenha numa alvíssima e rumorejante cascata. Alvorotado, um perdigão, roliço de peitos e arrebitados esporões cor de lacre, entendeu que era altura de espenejar os voadouros e pôr-se a bom recato, enquanto cacarejava repetidos chamos ao resto do bando que debicava o buço verde de um centeio mal acabado de nascer, por entre o penteado dos regos da semeada. Pintchó, pintchó, pintchó… E foi o bastante para a debandada se precipitar encosta abaixo, primeiro num matraquear frenético de asas, logo mais, uma dúzia de sabres rasantes a fatiar o ar frio da manhã.


          Pum, pum! Uma perdiz separou-se do bando e começou a subir na vertical, como se quizesse perfurar a manta azul do céu. De repente, a vida abandonou-a e deixou que se desamparasse no vazio da queda, até explodir num farfalhudo depenadouro contra a folhagem áspera de uma carqueja.


          - Encastelou! Viste onde bateu, Adérito?


          - Não, mas estou em crer que a minha cadela já deu com ela. Boca lá Catita, boca!   


          - Vamos sobre as outras, antes que se ratem a pés para dentro do giestal grande!

 


          Era ali que melhor resistiam à implacável perseguição dos caçarretas, acolitados por uma seita de rafeiros escanzelados, a quem a justeza do fato deixava as costelas mais onduladas que o fole de um harmónio, e permitia devassar qualquer nesga de mato, por mais cerrada ou puada que fosse. Ainda assim, só mesmo os coelheiros de cerdas duras e despenteadas gastavam as horas a chocalhar os guizos naquele labirinto, mas faziam tal restolhada que era muito raro alguma deixar-se surpreender. Mal se ratavam para debaixo das giestas, parecia que a terra as engolia. E de que outro jeito se podia guardar semente bastante que garantisse os bandos novos para o sacrifício ritual do Outono seguinte?


          - Aqui não paga a pena perdermos mais tempo. Vamos antes caras ao povo, que ainda ontem a minha mulher diz que dera fé da cama de uma lebre, ao passo das crias à beira da cavada do Freitas.


          - A este bando, bom era que não se lhe tirasse mais nenhuma, para no ano que vem, se o Maio não sair muito trovoado, termos aqui um bom talho delas…


          - É questão de não voltarmos cá nós, que outros de fora, que eu tenha sentido, não as têm estourado. Sossega, que não é qualquer um que tem arcaboiço para estes matos tão ruins de andar!


          Da tal lebre, é que nem sinal. Lá estava, de facto, a cama aconchegada no meio de uns fanancos secos, mas a orelhuda andava ao pão grande. Ou que tivesse pressentido os cães, ou que lhe apetecesse aquecer a samarra na outra chapada mais virada ao meio-dia, certo é que nem o trepar minucioso nem o farejar insistente a fizeram saltar a tiro.


          Já os dois davam a manhã por bem empregue, cada qual com sua peça à cinta, quando um lebrão tamanho como um chibo arrancou desaustinado de trás da mureira de estrume, direito à eira do Pispalhas, onde a tia Clorinda, sentada no banco dos recos a aproveitar o regalo morno do sol, fiava um cibo de lã com que fazer uns carpins para o neto mais novo, enquanto as pitas esgravatavam os grãos perdidos da última malhada.


          - Oh tia Clorinda, saia-lhe ao caminho, não deixe que se escape!


          - Pois bem, eu atrás dela não vou, que as minhas pernas não querem. Olhai lá, vós não lhe atireis comigo aqui, e tende-me cautela com as pitas!


          - Não, esteja vossemecê tranquila que daqui ninguém dá fogo. Agarra Faísca, vai-te a ela!

 


Quando se viu em tais apertos, com a fúria da canzoada cada vez mais em cima dos jarretes e o vulto negro da mulher a brandir a roca como se lhe quisesse vazar os olhos, o bicho deu um quebro súbito à longueza das pernas e enfiou decidido pelo buraco da porta da corte, como se tem visto fazer aos gatos quando se aprestam a murar a rataria. Mais um pouco e os excomungados dos cadelos a ferrarem-se-lhe nos quartos. E agora?


          - A senhora abra-lhe a porta aos cães e afaste-se para trás da parede, que a lebre ou sai ou diz porque não sai, e, quando tal, já podemos dar fogo à vontade!


Dito e feito. Corrido o garabelho de pau de freixo que mantinha a porta trancada, entraram os cães de rompante na escuridão da loja, provocando tal alvoroço e desassossego na rês, que foi obra de um instante o cabrito do tio Adelino Pispalhas sair aos pinchos a esbarrar-se na chumbada ainda embolada que o gatilho nervoso do Adérito acabava de despedir…   

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