Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade
Barcelona 1 – 0 Chaves
ESTIU
Tão perto e tão longe. Portugueses e espanhóis. Perfeitos insatisfeitos, em cada lado da fronteira buscam solução para o mesmo problema (mas não do mesmo modo) com os diversos “quintais” de cada país a teimar preservar a identidade. Se na Chaves do interior, ela ergue-se como um fardo inútil logo de vencida, na Barcelona catalã, a identidade defende-se com unhas e dentes. Em ambos os lados, já ninguém se lembra do tempo onde se venciam batalhas, mas do lado castelhano, ainda se olha com ar desconfiado para o “invasor” e, quando o sol finalmente se rende, deseja-se “Bona nit” enquanto se limpa secretamente o pó das armas arrecadadas nos armários findo o tempo das guerras e revoluções.
Viver numa terra onde a crise chegou, mas ninguém entrou em depressão é um modo de afirmar-se vivo, um grito existencial. Na Catalunha, o mundo não parou de girar, as políticas europeias não inibiram a alegria e a boa disposição, a crise não tirou a gente da rua que agradece e aproveita as altas temperaturas e esplanadas do “estiu”, mesmo sentindo o cheiro da pobreza crescente. Aqui, toda a gente se queixa, mas ninguém gosta de estar parado. Aqui, até parece mal dizer que se vai para casa mais cedo, que não se faz nada depois do trabalho, pois aqui tudo parece possível desde que se esteja presente. Em Barcelona é impossível não “espicaçar” a vida, pois tudo o que nos rodeia é aversão à apatia. Mesmo que tudo não passe de um devaneio de Verão – ou irreverência fingida de gente que recusa a todo o custo envelhecer – e que grande parte nem sequer afie as garras perante um mundo confortável e comodista, secretamente cada um espera colher inspiração destes bons ventos catalães.
San Juan em Barcelona - Fotografria de Sandra Pereira
Um dinamismo espanhol, que contrasta com o imobilismo português. E que entristece à distância. O vento noticioso que chega ao estrangeiro apenas traz distrações políticas do nosso país. E que entristecem à distância. Reflexo do nosso país, pensamos na nossa cidade. De coração apertado, imaginamos o que seria se por lá chegassem esses mesmos ventos que levassem o fardo das pesadas heranças para bem longe, para que Chaves deixasse de espartilhar o seu futuro em anos, atada a ideias repetitivas e monótonas, e lenta, às voltas dentro dos muros do seu quintal, como que indiferente à evolução das expectativas e qualidades das gentes.
E no entanto, somos todos ibéricos, todos buscamos solução para o mesmo problema: uma esquematização da Europa que não se importou de preparar toda uma nova geração para um mundo que deixou de existir. Em Barcelona, há gente que procura adaptar-se, mesmo que signifique deixar para trás o que já tinha construído e pensava estar seguro. Em Chaves, poucos são os que sequer entenderam o problema: um mundo que, entretanto, mudou. (E já que mudaram o tabuleiro sem darmos conta, agora é preciso sermos nós a refazer as regras do jogo).
E no entanto, o português tem uma cultura e uma língua que despertam a maior curiosidade e vontade de aprender da parte das nacionalidades alheias...
E no entanto, Chaves é um nome que já soa muitas vezes a algo no imaginário forasteiro e começa timidamente a aparecer nos mapas e roteiros…
San Juan em Barcelona - Fotografria de Sandra Pereira
Barcelona 0 – 1 Chaves
SAN JUAN
A abrir a época oficial de Verão e das suas festas, esteve a marcar passo o S. João, celebrado também em Espanha, mas com outros costumes e tradições, inclusive algumas gastronómicas bem mais doces do que a sardinha assada, como a “Coca de San Juan”, um bolo que abunda nas pastelarias catalãs apenas por essa altura e é comprado religiosamente.
Nessa noite de 23 de Junho, com direito a feriado no dia seguinte, os espanhóis explodem literalmente em alegria e exorcizam toda a sua energia (negativa sobretudo) assumindo uma atitude desvairadamente pirómana, lançando petardos por todo o lado e bebendo desalmadamente até de madrugada. É a “Nit del Foc”, literalmente a Noite do Fogo, símbolo de pureza. Sob o mesmo pretexto, são tradições bem diferentes do São João do Porto, mas que atraem as mesmas multidões de “fiéis”.
Já em Chaves, não precisamos de petardos, nem fogueiras na praia, nem grandes exibições ou concertos, como o San Juan na Catalunha. Basta-nos somente a nossa cerveja, a nossa sardinha assada, rodeados dos nossos melhores amigos e familiares, e se regados com uma “pimbalhada”, ainda melhor! É apenas mais um pretexto para nos juntarmos e arranjar um “dia diferente”. O nosso convívio é humilde e modesto, mas sabe bem e deixa saudade a simplicidade com que tudo acontece na nossa terra…
Em Chaves, aprende-se a ser feliz com pouco, mesmo que nem sempre se dê o devido valor a este luxo que a vida contém. Em terras transmontanas, uma festa é um convívio tu cá, tu lá, onde se paga uma cerveja ao Zé que já não se via há uns dias, e se pergunta como vai a saúde da dona Maria, sem multidões, sem gente desconhecida, ou “alternativas” à festa fora de contexto e desprovidas de sentido. Está como que tudo em simbiose, num ambiente de partilha e muito carinho. Todos os anos, “é a mesma coisa”. E ainda bem, dizemos nós. É a nossa família, é Chaves.
Sandra Pereira





