Chaves D´Aurora
romance

- ALEGRIA, ADEUS!
Um automóvel conversível, de encarnado bem vivo, com bolinhas e florezinhas brancas pintadas sobre o capô e nas laterais da carroçaria, versão moderna e motorizada da famosa Carochinha, parou à frente da estação. Envolvida em um vistoso casaco de peles e uma estola de marta (que, a esse tempo, a consciência ecológica ainda estava nula ou incipiente), dele saltou uma senhora que, ao ver os Bernardes, saudou-os em alto e bom som – Meus queridos! Não podeis partir sem o meu abraço!
Logo se pôs a abraçar um por um, inclusive a João Reis que, dessa vez, mostrou-se mais amável e recetivo, enquanto Afonso, mesmo que de pouco falar, exclamava – Ai que nos chega quem estava a faltar. Ai que a Alegria nos vem aquecer, esta manhã! – mas Adelaide, a desfazer, de repente, o que o rapaz dissera, tirou da bolsa encarnada um lencinho da mesma cor e enxugou os olhos, marejados de sincera tristeza. Ao sentar-se ao lado de Flor, no salão aquecido, abriu o casaco e revelou, por dentro, um belo vestido da mesma cor do automóvel. Arminda, após compartir com os demais o assombro diante do novo veículo – E a Carochinha, Tia Dedé? – devolveu novamente à alegre viúva o seu riso exclusivo e a tão saudável falta de siso – Ah, filha, agora sou uma mulher do século!
Ao conseguir um breve apartado que lhe propiciasse umas palavrinhas com Aurita, Adelaide abraçou e beijou a rapariga. – Pobre menina, amaste tanto a esse gajo e acabaste por ficar assim, com essa carinha de tristeza eterna. Quanta dor, depois de tanto amor! – e Aurora começou a chorar – Não, minha menina, não chores! De tudo sobrou-te esse querubim tão lindo, esse ai-jesus, teu e de toda a família. O que precisas entender, agora, é que de nada, nada mesmo, hás de ter culpa. Só é errado na vida fazer mal aos outros ou a si mesmo.
Aurora contestou – Mas se eu fiz a desgraça de todos os meus! – e a açoriana – Não, não fizeste. Cada um carrega na vida o baú de suas escolhas. Tiveste as tuas. Tua mãe, como quase todas as mulheres deste mundo em que vivemos, é alguém que deixa os maridos escolherem por ela, mas o teu pai... ele sempre teve, diante de si, várias escolhas a fazer. – Cuidou que ninguém mais a ouvisse e continuou – Bem podia o Reis ter procurado outras maneiras de resolver tudo isso. A mim parece que escolheu a pior. Acabou por condenar todos vós a um calvário sombrio, ao invés de buscar conservar apenas as alegrias da última ceia.
Mirou então os demais viajantes que seguiam para Braga ou ao Porto, dentre os quais alguns conhecidos de vista – Essa gente toda adora julgar os outros, mas ao sério e sem léria, detestam julgar a si mesmos. Essa gente... pouco se lhes dá, se é Cristo ou Barrabás. A cruz não é deles. Mas não culpes também ao senhor teu pai! São coisas da condição humana. Vai, busca sempre algum modo de ainda seres feliz! – e, dessa vez, as palavras da viúva não ficaram a entrar pelo Brunheiro e sair pelo Barrosão. Não sabia Adelaide, entretanto, que Aurora já estava com tudo bem arquitetado, a fim de ser feliz nos braços, para sempre amados, de um - agora - fiel e ajuizado Hernando, esperança de sua própria redenção.
- IRREVERÊNCIA, ADEUS!
O motorista atual de Dedé era um rapaz mais baixo, mais franzino e até alguns anos mais velho do que os valetes anteriores. Bicanço, bexigoso, era também aquilo que não se podia negar em dizer – um feio. Florinda custou a perguntar, mas não resistiu...
(continua na próxima terça-feira)




