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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DE GUERRA)

1024-antonio granjo

 

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

8

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

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Tenente Grilo - In Ilustração Portuguesa 593 de 2/7/1917

 

O tenente Grilo

 

Tinha-me apresentado no comando do batalhão de infantaria 22, no dia 11, quasi á noite. Ao outro dia, de manhãsinha, o segundo comandante, capitão Godinho, fazia a sua visita ás linhas. Pedi-lhe para me deixar ir com ele.

 

Comandava a companhia da esquerda o tenente Grilo. Estou ainda a vêl-o. A sua cabeleira fulva ardia sob a negrura viscosa da abobada de ferro. A sua face branca, a que as sardas não tinham conseguido tirar uma grande expressão de beleza varonil, trazia á idéa o perfil dum archanjo.

 

— O dr. Granjo...

 

— Conheço-o de nome, e gosto de o vêr por cá...

 

A voz sahia-lhe dos lábios com um timbre quasi infantil. Mas dava desde logo a impressão de estarmos em frente de um homem.

 

O olhar de noviço da guerra prendia-se-me ás coisas mais insignificantes, lnspecionei o abrigo. Cigarros, papelada, cartas de trincheira, mantas, respiradores, capuzes, granadas de mão, uma meza, um banco — o mobiliário da primeira linha. Como um luxo raro, qualquer coisa de refinadamente asiático, sobre a leito de arame estendia-se um magnifico couvre-pied. Devagar, como quem conta uma historia, o tenente Grilo ia fazendo o relatório dos acontecimentos da vespera. Os alemães tinham assaltado o posto de granadeiros que defendia a trincheira de comunicação, a Hun-Street, depois de terem com um bombardeamento prévio de morteiros desmantelado a linha. Haviam conseguido levar prisioneiro um soldado quasi moribundo

 

As palavras cahiam-lhe dos lábios como leves pancadas metálicas. As mãos, duma delicadeza feminina, acompanhavam as palavras com gestos curtos e tímidos; de vez em quando as suas pupilas ganhavam um brilho fosforescente.

 

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O pintor português da Grande Guerra - Sousa Lopes

 

Saimos, eu e o segundo comandante, demos volta á primeira linha e voltámos pelo abrigo do tenente Grilo, que escrevia o relatório, a lapis, tranquilamente.

 

— V. quer alguma coisa? —perguntou lhe o capitão Godinho.

 

— Não, comandante.

 

E ergueu a cabeça. Uma mécha de cabelos mais ruivos, que lhe tombava sobre a nuca, assumiu á luz crepuscular do abrigo uns tons acobreados. Cá fora as ordenanças conversavam.

 

Voltámos para a séde do batalhão. Uma camouflage escondia o caminho das vistas do inimigo. Atravez da malha fina da camouflage, onde se tinham fixado folhas de arvores para melhor enganar os observadores inimigos, via-se o bosque de Biez, o legendário bosque misterioso, no qual, ao que se dizia, haviam desaparecido duas brigadas inteiras, uma de canadianos e outra de indios, sem que voltasse um só homem a dar conta do que se passara. As imaginações provavam-no de redutos, de corredores minados, de sistemas de alta tenção, de engenhos monstruosos inventados pelo génio guerreiro da Alemanha.

 

Uma maquina agrícola, torcida e enferrujada, jazia no meio dum campo. Um balão cativo, por traz do bosque, vigiava o horizonte, onde passavam esquadrões de nuvens cinzentas.

 

Depois, á tarde, eu fui apresentar-me na minha companhia e nunca mais vi o pobre rapaz. Foi já no dia 13 que soube da sua morte gloriosa na noite de Santo Antonio.

 

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O tenente Grilo sahiu do abrigo e veiu á barraca do telefone fazer a ligação. Tinha de atravessar a estrada de Lens, enfiada pelas metralhadoras e onde as granadas e os obuzes continuamente rebentavam, revolvendo a terra, como um tufão revolve um bocado esfarrapado de pano.

 

Cabeleira fulva ao vento, a face branca resplandecendo, ao clarão das explosões, dir-se-hia o proprio Archanjo da Victoria, que avançava sobre a trincheira e vinha estender protetoramente sobre a nossa frente a sua espada flamejante. Algumas palavras trocadas á pressa, einquanto o telegrafista martelava uma comunicação, e o tenente Grilo voltou para o seu abrigo, a descoberto.

 

O alferes Pereira, que comandava a companhia, ainda o avisou: — O' Grilo, tenha cautela!...

 

O tenente Grilo desapareceu sob a onda de metralha. Quem o viu disse-me que, nesse momento, lhe trouxe á imaginação um desses guerreiros lendários que nas batalhas medievaes apareciam no mais apertado do combate, dicidindo da vitoria com o prestigio deslumbrador do penacho do seu elmo.

 

Passaram alguns segundos, viram-se dois soldados correr, ouviu-se um rápido vozear, e deante da barraca do telefone, conduzido por duas ordenanças, seguia o tenente Grilo moribundo, com o sangue a sair-lhe aos borbotões da cabeça fulva. A mécha de cabelos mais ruivos pendia-lhe da nuca e dessa mécha escorriam grossas pingas rubras.

 

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Sousa Lopes - Portugal na Grande Guerra, uma encruzilhada perigosa, c. 1918, água forte, 212 x 298 mm

 

Um estilhaço de granada tinha-lhe perfurado o craneo e duas balas de metralhadora tinham-lhe varado o peito. Levara as mãos á cabeça, andara mais dois passos e cahira de borco, no meio da estrada, desamparadamente.

 

Pobre Archanjo da Vitoria! Uns segundos bastaram para fazer dessa linda figura, digna de imortalizar um grande pintor, um pobre trapo humano, que ia enfileirar-se entre os outros trapos humanos no pequeno largo saibroso, em frente do posto de socorros do batalhão, destinado á macabra formatura dos cadáveres.

 

Como se celebrou o funeral do tenente Grilo? Onde está enterrado o seu cadaver? Não sei ao certo. E' provável que ninguém saiba.

 

Ouvi dizer que tinha sido sepultado num cemitério inglez, na estrada conhecida pelo nome de Rue de Bois. Ao menos, a bandeira nacional teria coberto a maca rodada em que foram transportados os seus restos mortaes.

 

Nem discursos, nem flores, nem lagrimas. Nem um cântico religioso, nem uma palavra de despedida. Mãos indiferentes abriram o coval e, emquanto o canhão continuamente troava, os braços de alguns soldados deixaram cahir o cadaver embrulhado numa tira de lona, cobrindo-o depois daquela terra barrenta e pegajosa, apressadamente, atarefadamente, como quem se quer desembaraçar de um serviço incomodo. Na cabeceira do coval porão os inglezes uma cruz, com o nome, o posto, o numero do batalhão e a menção honorifica: Killed in action.

 

Esta miserável e pequenina grande guerra tirou toda a grandeza épica ás lutas humanas.

 

Até que, finda a guerra, aqueles que tombaram no campo de batalha possam ser trasladados para a Patria, nem as honras oficiais poderão ser-lhes prestadas. As descargas da ordenança revelariam ao inimigo a presença de tropas, e o boche não deixaria também de prestar as suas honras, desencadeando sobre o local uma tempestade de metralha.

 

Esta miserável e pequienina grande guerra!

 

Este episodio foi publicado no Diário de Noticias de 30 de janeiro de 1918. No mesmo jornal, em 12 de fevereiro do mesmo ano, veiu publicada uma carta anónima, que dá alguns informes sobre o bombardeamento da noite de Santo Antonio e diz a forma por que se fez o enterro do tenente Grilo. Publicamol-a a seguir porque dá alguns detalhes para a historia da campanha da Flandres. Diz a Carta:

 

«Ecoam ainda nos meus ouvidos os sons dos rebentamentos das granadas de todos os calibres, com que os alemães brindaram durante toda a noite de Santo Antonio de 1917 as posições de artilharia 2 e as trincheiras ocupadas por infantaria 22 e 7. No local onde me encontrava durante o bombardeamento, passaram-se horas aflitivas e as mais angustiosas da minha vida.

 

A oficialidade passeia nervosa na casa onde tomava a refeição, que ficou em meio; o telefone a cada instante transmitia-nos o que se passava na frente: «Os alemães atacam violentamente a 1.ª linha! Pedimos auxilio á artilharia! Alguns soldados que conseguiram salvar-se da 1.ª linha estão na 2.ª! Acudam-nos! Os alemães estão a atacar a nossa 2.ª linha! Pedimos auxilio á artilharia!»

 

A artilharia portuguesa estava calada! Nem um tiro! Os bravos soldados de artilharia 2, que horas antes tinham resistido ao violento bombardeamento, estavam de braços cruzados! Os valentes soldados de artilharia 7 estavam encostados ás peças sem que das mesmas saissem as granadas que iriam animar e defender a infantaria, que nas trincheiras sofria o embate inimigo! Felizmente para esses soldados, aos seus ouvidos não chegavam os gritos que eu sentia! Não sabiam o que se passava lá no fundo das trincheiras, onde soldados portuguezes pediam auxilio aos camara[1]das. Os oficiais estão como petrificados! Vêem morrer portugueses e não lhes podem valer. O meu major chora como uma criança; desgrenhado atravessa a passos largos a sala; parece-me que vai cair. Só lhe oiço estas exclamações: «E não lhes podemos valer!» Vejo-o aproximar-se do telefone e dizer: «Dêem-me a minha demissão! Não posso ver morrer camaradas e soldados portuguezes sem lhes poder acudir!»

 

A resposta!... A resposta não a direi agora. Deixemos terminara guerra. Não se fala, não se troca uma palavra. São duas da manhã e nas trincheiras apenas se ouve de tempos a tempos o rebentar de algum morteiro.

 

São três horas. Pelas estradas ha um movimento enorme de camions, automóveis, carros de munições, tudo quanto sirva para transportar metralha. Avisinha-se a alvorada e eu corro para o commando do 22. Chego antes do nascer do sol, quando começavam a chegar os mortos e os feridos. A nossa artilharia rompera o fogo já eu seguia o meu destino. Tenho ouvido falar no belo horrível e eu creio que presenceei esse belo horrível. O silvo de milhares de granadas, cruzando-se com o troar do canhão, obrigava-me a curvar a cabeça, num movimento de defeza, pois me parecia que as mesmas cortavam o espaço a um ou dois metros do solo, que tremia obrigando-me a vacilar. Os alemães raro respondiam a esse tempo. Deviam estar a descançar.

 

sousa lopes -.JPG

 

Portugal na Grande Guerra, uma sepultura portuguesa na terra de ninguém, c. 1918, água forte, 210 x 292 mm

 

Chegam agora os mortos que são colocados numa pequena trincheira de comunicação entre dois abrigos de oficiais. Vou contemplá-los. Lá encontro um cabo cujo cadaver enregelado tinha a posição em que o surpreendeu a morte. Na tarde anterior esse cabo praticara um acto heroico. Uma patrulha alemã, chegando ás nossas linhas, roubara-lhe o chapéu de ferro, o cinturão e o cantil. Exasperado, esse cabo jurou vingar-se. Mesmo de dia salta o parapeito das trincheiras e rastejando atinge as linhas alemãs. Penetra nas mesmas e encontrados objectos que lhe tinham roubado! Encontra mais um cinturão alemão e umas granadas de mão e, radiante, alcança novamente as nossas linhas. E' recebido com abraços, prometendo nunca mais largar o cinto, usando-o por cima do seu. Poucas horas o usou porque nessa noite, ao disparar a sua metralhadora, não querendo abandonar o posto que lhe estava confiado, uma bala inimiga, atingindo-o na testa, deu-lhe morte instantânea. Rigido, conservando a sua posição de atirador, foi encontrado nas trincheiras. Parecia vivo, tal era a sua posição. Olhos abertos, perna direita um pouco curvada, braços como se estivessem ainda com a metralhadora, assim o retiraram do local onde morreu, assim o conduziram para a séde do comando e assim foi sepultado. A rigidez do cadaver não deixou que os membros tomassem outra posição. Fui eu que lhe tirei o cinto que encontrei a um oficial e fui também eu que pedi a um soldado que lhe desabotoasse a farda e tirasse qualquer documento. Tinha uma linda recordação na carteira: era o retrato duma filhinha que ele na vespera cobrira de beijos antes de ir ás linhas alemãs. Era de Castelo de Vide este cabo, se não me engano.

 

Estão amontoados mais soldados mortos e entre eles vejo um oficial muito loiro, barbeado de fresco, com a cutis da cara tão branca, que se vêm as artérias esverdeadas. Está com a farda cheia de barro. Quem era? O tenente Grilo! Peço para lhe retirarem uma pequena aliança de oiro do dedo e um botão de camisa. Nada mais trazia comsigo. Estendo-lhe por cima um cobertor até que chegue a vez de ser conduzido A sepultura, distante uns dois quilómetros.

 

Veem chegando homens atacados de gazes e é necessário activar o movimento de saida dos feridos. Corro ao posto de socorros inglês onde... os nossos soldados aguardavam transporte para a ambulancia hoje n.º 3.

 

O que se passou neste posto não é para agora; deixemos terminar a guerra.

 

Eram duas da tarde quando mandei retirar de cima de dois cadáveres dos nossos soldados a bandeira inglesa que os cobria. Até esse dia os cadáveres dos soldados portugueses, foram cobertos com a bandeira da nossa aliada; depois dêsse dia os cadáveres dos soldados portugueses foram cobertos com a bandeira portuguesa, por pedido e para não dizer imposição dos poucos capelães portugueses. O tenente Grilo deve ter sido coberto com a bandeira da nossa aliada. O seu cadaver foi aspergido, bem como o coval onde repousa, por um padre português, que, tendo-se inutilizado no front, regressou a Portugal não lhe dando o Estado nem a residência, nem o registo paroquial de que se apossara quando êle partira como capelão e onde protestara contra o facto de os cadáveres dos soldados portugueses serem cobertos com uma bandeira estrangeira!

 

O cadaver do tenente Grilo está sepultado no cemitério inglês, e hoje português, da «Rue du Bois», uma das estradas mais lindas de França.

 

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Cemitério da «Rue du Bois»

 

Os encarregados do cemitério teem-lhe a sepultura plantada de miosótis e rosas, e varias vezes lá encontrei ramos de flores, ofertados pelas mãos piedosas dos que visitam as sepulturas dos camaradas. Eu também lá deixei em todos os cemitérios o incenso das minhas orações e o orvalho das minhas lágrimas de saudade pelos que lá ficaram sepultados.

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

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