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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

1024-antonio granjo

 

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

10

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

1024-terra de ninguem-1.jpg

 

A primeira patrulha

 

 

Marcaram-me as 24 horas para fazer a minha primeira patrulha. Tinha como objectivo patrulhar a Terra de Ninguém e inspecionar a rêde de arame inimiga. Alguns minutos antes da hora marcada os meus homens estavam prontos e reunidos no ponto de saída — na trincheira morta, entre um posto de granadeiros e um posto de fuzileiros. Faço cruzar dois foguetes sobre a linha do itenerario e um pouco depois salto o parapeito e desço até á nossa rêde de arame.

 

A nossa primeira linha formava neste ponto um angulo reintrante, e a massa irregular do parapeito fechava-se, para dentro desse angulo, num profundo poço de sombra. Pistola na mão, fico uns instantes deitado sobre os lábios duma cratera, devassando a noite. Não se ouve o menor ruido. Por entre a herva crescida espontam as cabeças dos «longs-piquets» da nossa rêde. Um cavalo de frisa, atirado para o lado, com uma cantoneira partida e o fio de ferro bambo, dá a ideia dum cadaver abandonado.

 

Faço sinal aos meus homens para que desçam. Primeiro vem o sargento, depois os outros, em fila, escorregando pela rampa suave do talude exterior do parapeito. Um foguete despedido da primeira linha inimiga abre a sua rosa de luz, que se vai desfolhando lentamente sobre os ramos despedaçados duma linha de arvores. Os homens ficam imóveis. Um deles deixou-se ficar, agachado, sobre o pequeno fosso que acompanha o talude, e faz-me lembrar uma fera preparando o salto. O ultimo foi surpreendido mesmo em cima do parapeito, e estaca, levemente curvado para a frente, com a espingarda na mão. O colete de granadeiro reveste-lhe o arcaboiço como uma couraça, o capacete rebrilha um instante como uma escama. Passa-me pela imaginação a imagem dum guerreiro antigo, guardando uma barbacã e inclinando-se para

a frente a ouvir na noite um rumor suspeito.

 

Todos os homens se alapardam nas crateras. Dos postos, algumas cabeças estendem-se para seguirem os nossos vultos. Da linha inimiga sobem agora mais frequentemente os foguetes. Como na nossa frente não se atiram «very-lights», o inimigo presume que lançámos uma patrulha e ilumina o campo.

 

Deixo passar alguns minutos, para os meus homens se familiarizarem com a situação e para não nos denunciarmos ao inimigo. Uma brisa fresca faz ondular as gramíneas que espontaneamente nasceram nesta tira de terra fartamente adubada. Para o sector da esquerda rebentaram granadas e morteiros ligeiros. Uma rajada de metralhadoras passa alta. As estrelas parecem baixar do ceu.

 

A patrulha segue. Até ao meio da nossa rede caminhamos de gatas. Depois temos de ir de rastos. A mascara dificulta os movimentos. De vez em quando um arame solto prende-se-nos às pernas. Atravessamos o ultimo sistema da nossa rede e estamos na verdadeira Terra de Ninguém — a facha, dalguns dez metros, entre as duas redes de arame.

 

1024-terra de ninguem-2.jpg

 

Deixaram de se ouvir as explosões das granadas e dos morteiros. Um silencio inquietante pesa sobre nós como uma barra de chumbo.

 

A nossa linha perde-se como uma vaga tinta na escuridão. O arame inimigo emaranha-se espesso e baixo, traiçoeiramente, entre as hervas. A linha inimiga, quasi enterrada na minha frente, eleva-se para a direita, onde se adivinham alguns cestões.

 

Ouvimos, na linha inimiga, o disparo de um  foguete. Os homens cingem-se à terra. O foguete ergue-se rapidamente no ar, fica suspenso um segundo e cai com uma lentidão desesperante. Num posto inimigo, viu-se uma cabeça erguer-se, inspecionar a Terra de Ninguém e baixar-se atrás do parapeito.

 

Deslizamos para a direita, seguindo o itenerario marcado. Deparamos com uma trincheira antiga, do tempo em que o campo esteve ocupado pelos alemães. Ficamos uns minutos à escuta. Um tvery-light» despedido dum saliente da nossa linha vem cair no meio de nós. Consulto o relogio. Tenho ainda uma hora deante de mim. Uma ordenança veio-me dizer que atrás dum pequeno morro, em frente, assomou um inimigo. Arrasto-me um pouco para a frente, até dentro da rede inimiga. E' um tronco despedaçado. Continuamos. Mando o sargento com dois soldados explorar a trincheira até à nossa rede e permanecer aí até retirarmos.

 

1024-terra de ninguem-3.JPG

 

Uma frescura matinal começa a acariciar a terra. Para a direita, no sector dos canadianos, ouve-se agora um fogo rolante; e para a esquerda, no sector dos ingleses, cinco ou ses projectores picam o ceu de feixes luminosos.

 

De repente, uma metralhadora inimiga rompe fogo contra nós. As balas cortam as hervas cerces. Uma ou outra bala, resvalando pelos fios de arame, acende algumas faiscas, que brilham na noite latejante como pequeninas fitas de fogo. Estamos descobertos. Recuamos, de rastos, a cabeça metida nas hervas, a mascara bamboleando ao lado para o peito se apoiar firmemente na terra e assim facilitarmos a marcha.

 

Junto da nossa rede de arame paramos. As rajadas de metralhadora continuam. Os foguetes cruzam-se. Alguns tiros soltos assobiam-nos aos ouvidos. Tomo as devidas medidas de segurança, instalo-me no funil duma granada e espero. As granadas de espingarda rebentam bastante à direita. O inimigo perdeu-nos a pista.

 

A impressão de segurança é absoluta. Deixamo-nos ficar, de bruços, os onvidos aplicados à terra, os olhos espreitando, entre as hastes tenras, a frente inimiga, penetrados do mistério da noite, moídos do imenso esforço daquela marcha de larvas. Um soldado vê reluzir qualquer coisa que lhe parece um capacete boche. Estende a mão e encontra um craneo com filamentos de carne podre.

 

A noite começa a adquirir a claridade leitosa da madrugada. Seguimos a nossa rede, procurando uma entrada. Numa volta, dou com o arame calcado e as estacas de ferro derrubadas. E' certamente um dos pontos por onde as patrulhas inimigas conseguem acercar-se da nossa linha.

 

Sinto o ruido dum corpo caindo na agua. E' um soldado que caiu ao poço duma antiga «ferme», da qual nenhum outro vestígio existe. Dois soldados pegam nas mãos do camarada, para o ajudarem a subir. Mas dentro do poço entrelaçam-se os fios de arame farpado e o pobre rapaz grita, porque as farpas enterram-se-lhe na carne. Com a bengala liberto do arame as pernas do soldado e os dois camaradas içam-no. Espalha-se um cheiro fétido. Aos pés do soldado vem agarrado um montão de farrapos.  A ponteira da bengala bate num osso. No poço apodrecia (ha quanto tempo?) tranquilamente um cadaver.

 

O pobre rapaz está horrivelmente pálido, e o fétido da água choca e da carne podre revolvida é insuportável.

 

1024-terra de ninguem-4.jpg

 

Procuro uma rampa para trepar ao parapeito.

 

Uma voz, como um murmurio, pergunta-me:

 

—Quem vem lá?

—Oficial português.

—Senha?

—Almeida.

 

Fico de pé, na base do talude, até que o ultimo dos meus homens entre. Depois, salto,

e fico um minuto sentado na banqueta, descançando.

 

Pergunto ao sargento:

 

— Falta alguém?

—Não falta ninguém, meu alferes.

 

Uma parpalhaça, a meio da Terra de Ninguém, canta. As estrelas, como o cadaver do poço, parece que apodrecem. O ceu ganha livores cadavéricos. Um pequeno nevoeiro começa a esconder as linhas inimigas. A brisa torna-se cada vez mais fresca.

 

O canto da parpalhaça eleva-se mais alto. Como nma voz de bom agoiro, esse canto acorda a atmosfera quieta, como um grito de vitória.

 

Sim, é necessário vencer!.

 

 

Continua na próxima quarta-feira.

 

 

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