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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

18

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

Os dois prisioneiros

 

A noticia correu veloz pela primeira linha. Um maqueiro tinha aprisionado dois alemães.

 

Acabado o meu quarto, enfiei pela primeira trincheira de comunicação e corri ao abrigo do comandante, a saber do caso.

 

A' porta do abrigo, no meio dum pequeno grupo, estavam os dois alemães.

 

Era proibido interrogar os prisioneiros. Tinham de ser remetidos imediatamente para o comando do batalhão e daqui para o quarrtel general, onde sofreriam o necessário interrogatório.

 

Mas os dois homens estavam visivelmente a morrer de fome, e por minha conta e risco, valendo-me da consideração que por mim tinha o comandante da companhia, dei-lhes do que havia — pão, queijo, marmelada e café.

 

Um deles falava bem o francês. Tinha sido caixeiro viajante duma casa alemã, em Paris. Disse-me que era brigadas. O outro era um soldado, sua ordenança.

 

Comiam avidamente, pegando no pão com as mãos ambas, engolindo os bocados quasi inteiros, com os olhos dilatados e uma expressão de quasi ferocidade no rosto. Emquanto comiam, o maqueiro ia-me contando como tinha dado com eles, metidos num abrigo abandonado, atraz da Garden Trench. Quando desembocava da Juntion Street tinha sentido um rumor abafado de palavras. Espreitára e vira dois vultos acocorados ao canto, com as cabeças voltadas para a parede. Puxára da pistola e intimára-os a sair. Um deles desenhou ainda um gesto de resistência, mas logo se converteram á realidade e marcharam, de cabeça baixa, deante dele, pela Garden Trench, até ao abrigo, onde os entregara ao comandante.

 

Só então reparei que os dois prisioneiros traziam dois chapéos de lona, a que tinham dado uma forma semelhante aos nossos chapéos metálicos, segurando as copas, por dentro, com duas tiras de lata. Teriam fugido dalgum campo de concentração de prisioneiros, á nossa rectaguarda, e procurariam alcançar os primeiros postos alemães ou teriam vindo fazer o reconhecimento do nosso sector?

 

O brigadas tinha acabado de tomar o café e sorria, agradecendo. Perguntei-lhe o que tinham vindo fazer.

 

Andavam ha seis dias pelo nosso sector. Estavam cheios de fome, de sôno e de sêde. Tinham conseguido fugir dum campo de concentração, perto de Calais, e depois de se livrarem vinte vezes da morte tinham podido, ha uns oito dias, ganhar um posto alemão, em frente das nossas trincheiras. Deram-lhes dois dias para descançar e mandaram-nos logo fazer o reconhecimento do sector.

 

Parecia despreocupado. Cofiava o bigode loiro e inspeccionava a farda cheia de lama. Vendo que lhe tinha caído um botão do dolman, tapou a casa com o braço, como quem esconde uma falta vergonhosa. Erecto, firme, sorridente, parecia encarar o destino com absoluta confiança.

 

A ordenança estendera a cabeça, num movimento que fazia lembrar o duma ave de rapina pousada, perscrutando hostilmente o espaço, e olhava a linha de abrigos das guarnições dos morteiros. Quando o brigadas acabou de falar voltou-se e fez-lhe qualquer pergunta, levantando de repente a cabeça. O brigadas respondeu secamente:

 

Nein !

 

E dirigindo-se para mim, creio que no receio de que eu tivesse percebido a pergunta da ordenança:

 

— Nous somes prisioniers. Nous somes cer[1]tains de la loyauté portugaise...

 

E enterrou os olhos nos meus, interrogativamente. Eu tinha ouvido falar, havia uns dias, do fuzilamento de dois espiões alemães que, tendo fugido dum campo de concentração, haviam voltado ás linhas alemãs e se tinham prestado a fazer o reconhecimento dum sector inglês. Mas não quiz deixar a esses homens, que falavam da lealdade portuguesa, uma falsa ideia sobre a sua situação. Disse-lhes que, conforme as instruções recebidas, seriam mandados ao quartel general, e aí entregues aos ingleses.

 

Os olhos do brigadas tornaram-se primeiro côr de cinza. Nas corneas passou depois uma sombra, emquanto as iris assumiam um fulgor estranho, como dois traços fuforescentes emergindo de duas ondas de treva. Fechou os olhos e desviou a cara. Vi-o trocar um olhar de inteligência com a ordenança. Este encolheu os hombros resignadamente.

 

Só me lembro de ter sentido uma impressão semelhante á que me produziram os olhos desse homem, uma vez que vi morrer dum tétano um meu visinho.

 

Arrependi-me da minha brutalidade. Um soldado entregou-me os jornais. Perguntei ao brigadas se queria ler.

 

—Mais, oui...

 

Os seus olhos tinham readquirido o verde metálico e todo o seu ser aparentava uma esplendida e impressionante serenidade.

 

Pegou no Matin e correu os títulos que encabeçavam os telegramas da guerra. Os franceses e ingleses tinham desencadeado uma ofensiva fulminante no Yzer. Eram enormes as cifras dos prisioneiros e do material apreendido.

 

— Oh! vous serez vaincus!

 

O brigadas pareceu estranhar o tom de sinceridade das minhas palavras. Fitou-me um instante em silencio e entregou-me o jornal sorrindo desdenhosamente. Esse sorriso era alguma coisa de formidável. Afrontava como uma bofetada, vexava como um escarro, indignava como a cinica apologia duma iniquidade. O sorriso desse homem era uma verdadeira arma ofensiva. Revelava um tal orgulho da raça, uma tal certeza do triunfo final, que acendia de raiva o sangue do adversário.

 

Veiu a ordem do comando do batalhão para os dois prisioneiros seguirem imediatamente.

 

Percebendo do que se tratava, perfilaram-se e esperaram o sinal de marcha.

 

— Si vous voulez, du café encore...

 

Agradeceram, emborcaram as ultimas goladas e perfilaram-se novamente.

 

Os olhos do brigadas tornaram a fazer-se da côr da cinza. Pareciam dois carvões apagando-se. A ordenança olhava agora indife[1]rentemente para tudo, repetindo automatica[1]mente os movimentos do brigadas.

 

Partiram, entre dois soldados. Atravessaram a passadeira lançada á guiza de ponte sobre a linha de agua que corria em frente do abrigo e sumiram-se na Lansdowne Street, a trincheira que ia ter ao comando do batalhão.

 

Seriam fuzilados provavelmente no dia seguinte, encostados ao muro de um cemitério ou aos troncos de duas arvores, depois de verificada a identidade e de se averiguar que tinham fugido dum campo de concentração e fornecido indicações das nossas posições ao inimigo.

 

Éramos nós, os portugueses, que os entregávamos á morte, visto que os nossos costumes não nos permitiam fuzilal-os com a serena firmeza com que o faziam os pelotões ingleses.

 

E mais do que o sorriso desdenhoso daquela boca boche, vexou-me a condição de inferioridade em que estávamos em relação ao comando geral. Aqueles prisioneiros eram nossos. Aquelas vidas pertenciam-nos. Nós é que devíamos dispor delas. Sujava-me a alma a ideia de que, não tendo a coragem de os eliminar, tomados de cobardia perante a responsabilidade de matar inimigos inermes, fazíamos o papel de os mandar para o açougue, desviando os olhos.

 

Porque não os fuzilavamos nós? Não mereciam eles a morte?

 

Se porventura esses dois ignobeis espiões tivessem escapado ás vistas dos nossos e conseguissem voltar para as suas trincheiras, com as nossas posições referenciadas, com os nossos abrigos marcados, não seriamos nós todos assassinados friamente pela artilharia alemã? Não era justo que esses homens pagassem essa tentativa de assassinio em massa?

 

Os ingleses tinham razão. A guerra tinha de ser conduzida em obediência á necessidade de vencer. Os espiões não mereciam quartel. Era preciso defender-nos — e essa defeza exigia o sangue desses inimigos que se haviam aproveitado da circuntancia de lhes haverem poupado uma primeira vez a vidà para promoverem a nossa morte e o nosso aniquilamento.

 

A guerra não podia compadecer-se com sentimentalismos de meninas românticas ou com doutrinas doentias de filosofos faceis. Era preciso vencer e todos os obstaculos tinham de ser eliminados implacavelmente. — Pois não era isto?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Sentei-me no banco de sacos de terra que se tinha feito junto da boca do abrigo, encostado á parede. Uma esquadrilha de caça fugia das linhas inimigas perseguida por outra esquadrilha de caça alemã. Um dos nossos aviões foi cercado pelos aviões inimigos, e, para se salvar, fez o loop the looping verticalmente sobre a segunda linha, escapando-se depois rente ás arvores.

 

Todos esses pensamentos de morte e de vingança não seriam, dentro de mim, o resíduo da raiva que me fizera acender nas veias o sorriso desdenhoso do prisioneiro alemão?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Os aviões boches, ao avistarem no horisonte outra esquadrilha inglesa, retiraram sobre as suas linhas e descreviam agora grandes círculos a enormes alturas, como aves de rapina que haviam deixado fugir a presa e desafogavam a cólera indireitando para o céo, numa ameaça, as meninges agressivas.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

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