Quinta-feira, 12 de Abril de 2018

A Pertinácia da Informação

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 “Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

Há uma necessidade tremenda de continuar, a todo o custo, há que que continuar.

 

Sabem aquele momento em que as forças já se foram, mas ainda temos a tarefa por concluir? Pois, é nesse momento que é preciso continuar.

 

É preciso ver as pedrinhas bonitas no caminho e reparar nos pormenores. Não há truques absolutamente nenhuns, não há fantasias, não há ilusões, alegorias ou metáforas. Apenas certezas. O que é, é mesmo, o que tem que ser, tem mesmo de ser.

 

Eu gosto de alimentar as pessoas e gosto de ser alimentada com algo nutritivo para a alma e para a mente. Algo novo, algo que ainda não sei. Gosto como se pronuncia alimentar em inglês, gosto do som “feed”. Há sentimentos que se exprimem melhor noutras línguas… às vezes vêm-me à mente palavras para dizer o que penso e não sei de onde vêm. Outras vezes, há palavras que servem para nos libertar e exprimirmos o que pensamos, sem realmente se dizer algo. Então fazemos poesia.

 

Claro que não me podia deitar sem antes dizer o que sinto ou o que penso, que quase acaba por ser o mesmo.

 

Há muitos tipos de exercícios e tarefas que fazemos ao longo da vida, cada qual com o seu grau de exigência, com as suas normas... mas nós não somos feitos apenas de um desses mundos, somos o seu conjunto e devemos evoluir no sentido de termos em nós todo o cosmos e sermos todo o cosmos naquilo que fazemos, ou seja, a nossa experiência terá que ser cada vez mas abrangente para que a vivência na terra seja plena e para que tenhamos atingido o um elevado grau da compreensão das coisas e de nós mesmos… ou então não.

 

Seja como for, a minha vida monocromática, seria uma autêntica porcaria. Estas experiências que me têm acompanhado não cabem apenas num punhado de folhas com análises e quadros. Nem a minha vivência destes momentos se pode a resumir apenas a dois ou três aspetos delas – seria muito redutor.

 

O Mundo, tem mundos, e é preciso entender de várias matérias para se compreender a relação entre todos eles.

 

Vejo nas suas caras um pouco de tudo. A imagem acompanha-me e lembro-a ao final do dia e no momento do duche, penso: “Todas as mulheres deviam amar os seus corpos antes que as doenças e a idade lhos leve. Todas devíamos ter uma foto nuas… um desses nus bonitos, um quadro pintado de nós mesmas por inteiro e com amor, um quadro que tivesse todos aspetos da nossa vida para lá dos nossos seios redondos que um dia o cancro nos pode levar.”

 

Antes que seja tarde, será melhor sorrir, mas sorrir com vontade. Nunca fui capaz de dizer ou fazer nada por fazer.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O que é a orientação? Que bussola melhor que uma boa consciência, daquela cheia de vigor e consistência?

 

“A senhora é bonita! Ela não acredita. Provavelmente qualquer pessoa diria o que fosse preciso afim de conseguir o que pretende. Eu percebo esse pensamento e agora, calmamente, porque ao fim de algum tempo acabamos por amadurecer e aprender a respirar, a esperar e a dizer com toda a frontalidade aquilo que realmente é verdade: “A senhora é mesmo bonita!”

 

Então ela percebeu que estou a ser sincera e responde: “Quando era nova sim, era bonita!”

 

“Quem é bonita é sempre bonita.” – retorqui.  Era verdade o que eu dizia. Acabou por me contar dos companheiros, do marido… mas contou outras coisas que disse e outras que não disse. A senhora era realmente daquelas pessoas bonitas, com quem estamos bem.

 

 

Mas as conversas devem ter continuidade. “As pessoas desacreditam, se não dermos continuidade.” Esta é uma daquelas verdades de La Palisse que os inexperientes e os papagaios repetem incessantemente, sem na verdade perceberem absolutamente nada sobre pessoas. Não há nada pior que Papagaios-perus-pavões... se há algo que me apaixona nas pessoas é facto delas serem grandes,  eu sou assim exigente, só me dou com gente realmente grande e só são realmente grandes quando lhes percebo a modéstia e a humildade, mas intolerante me confesso: é me insuportável a falta de humildade, mesmo que até, por ventura, haja algumas qualidades... o exibicionismo, o pseudo-narcisismo, deitam tudo por terra. Pior que génios arrogantes, são os Pavões-secos, sem nada para dar, considerando-se a eles mesmos a última batata do universo. Nesse caso o efeito é apocalíptico. Com certeza que têm direito às suas vidas e fazem parte da deliciosa diversidade do ser humano... mas, a mim causam uma certa intolerância. Lamento. Ultimamente descobri que provavelmente sou, literalmente, intolerante a diversas substâncias. A doutora explicou que “às vezes o nosso organismo vai-se tornando cada vez mais intolerante a determinados princípios, com o decorrer do contacto prolongado.” Isto é, em silêncio o nosso organismo vai aguentando, por exemplo, as carradas e carradas de lactose que vamos ingerindo ao longo da vida sem saber que nos faz mal, até que há um momento que basta uma pequena dose e o efeito é catastrófico. Se não é assim, é algo do género e pode-se aplicar a diversas situações, caso não esteja clara a metáfora.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

No dia anterior tínhamos ido àquela aldeia. É sempre assim, difícil, quando não levo referencias, e sou apenas uma pessoa a fazer um trabalho qualquer. Acabo por ter que contar mais eu sobre mim, do que eles sobre eles mesmos. Acho bem e perfeitamente adequado, o mundo não é seguro. “Ao que foi preciso chegar! Velhos e fracos e sós...” Não era suposto haver gente tão cruel, capaz de enganar, roubar... Não era suposto haver gente que não reconhece nos mais velhos esse estatuto que lhes confere respeito… sinto isso nas caras, e nas escassas palavras. Vai falando comigo, vai olhando para fora de casa, estica-se da varanda para ver se vem alguém mais comigo. Explico, volto a explicar, mostro as provas: declarações, documentos, inquéritos... isso não lhe importa, não sabe ler nem escrever, e não lhe interessa. Não, certamente que não lhe interessa e tem toda a razão! Para que raios lhe interessa, afinal para que raios faço isto? Ainda que no final do processo chegue a um grupo de ideias bem consistentes, ainda que consiga fundamentar de alguma forma algo que tenho vindo a sugerir, ainda que eu possa vir a sugerir a algo que de algum modo possa vir a melhorar essas vidas... já não vou a tempo!

 

No dia seguinte, havia um cão preso junto às escadas. Estou certa que alguém a aconselhou a isso. Eu sei do que a casa gasta. Oh se sei. Mas isso que raios importa!?

 

“Agora também já não vale muito a pena pensar nisso, claro que fiz o que devia na minha vida, claro que tenho que estar satisfeito.” Diz-me com bonomia.

 

Sinto-me sempre envergonhada. Malditos académicos! -  Penso. - Não percebem nada das pessoas. Claro que eu percebi que certamente se ele pudesse recomeçar a sua vida, algo faria diferente. Mas está ali tudo tão arrumadinho... e depois, já não há tempo, talvez. Eu pondero e avalio a resposta como deve ser – valha-me a sensibilidade e o bom-senso.

 

  O pior de tudo é ir embora com coisas importantes por fazer. E vão ficar muitas: os filhos com as suas vidas por arranjar. Quando se é um verdadeiro ser humano e pai, os filhos preocupam. Nunca se percebe a importância de se estar vivo ou não até se ter filhos. Uma coisa é estar-se vivo para vivermos por nós e para nós, pelos nossos sonhos, desejos, ambições... outra é estar pelos que precisam realmente da nossa ajuda para vingarem, para crescerem… para sobreviverem. Olho para eles, vejo a profundidade do seu ser nos olhos, sob pálpebras enrugadas pelas intempéries e pelo tempo, como os velhos troncos dos castanheiros, e da cor das eternas fragas dos montes. No seu âmago vejo a angústia causada pela preocupação causada porque os filhos não estão bem.

 

O que é “estar bem”?  É ter emprego: “Se ao menos houvesse alguma fábrica…” A ideia, eu diria, é alegadamente do Fordismo.

 

Temos que fazer por estar bem, e resolver aquilo que já não é da sua incumbência. Temos que explicar que vamos construir um mundo novo, que será diferente do que projetaram para nós, pois esse já não existe e não nos serve no contexto atual. Mas, vamos encontrar um em que vamos ficar bem... e oxalá eles tenham envelhecido e crescido em amor e generosidade para perceberem que precisamos ser felizes e que os padrões do que é certo e do que errado não encaixa bem naquilo que lhes ensinaram. Talvez não estejamos dispostos a aguentar o mesmo que eles e elas, não porque somos fracos, mas porque estamos a lutar por algo melhor... Ou seja, estamos indiretamente a dizer que o que eles tiveram foi mau e não serve para nós. Começam a pensar que no fundo temos vergonha deles e eles próprios se envergonham e se põem em causa. Não querer o mesmo modo de vida delas, é dizer-lhes e recordar-lhes que elas se anularam desde que nasceram, que viveram para servir o pai, os irmãos e os maridos...

 

“Se teria feito algo diferente? Eu acho que não… agora também já não vale a pena pensar-se nisso, ele não é verdade?!”

 

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

Troveja. Um relâmpago corta o céu. Há quem pense que os raios quebram as fragas.

 

Ás vezes é preciso ter coragem para eclodir das várias metamorfoses. Há quem o tenha feito ao logo das suas vidas e estão convictos que não poderia ter sido melhor, fizeram o tudo o puderam e melhor que conseguiram.

 

Ás vezes acho que os que vêm atrás de mim engolem demasiado depressa, sem mastigar e sem saborear... não sei... espero perceber em breve quem é a juventude, aqueles os que vieram depois de mim.

 

Dizia uma daquelas senhoras bonitas, numa outra terra dessas também cheia de paredes de granito e rajadas de vento e chuva: “ É uma pouca vergonha! Tem algum jeito? Olhe-me essas calças esburacadas… ” e ela, escutava a senhora bonita com paciência e dizia a sorrir, com carinho: “Bote-me aqui um remendo ti’Ana!” O que provocou na velhota um sorriso franco e uma mudança de tom: “Gosto muito desta menina.” Espero que um dia venha a ser uma senhora bonita, como essa sua vizinha que me apresentou.  Esta pelo menos eu pressinto que saberá tomar boas decisões, talvez porque tenha convivido com a ti’Ana... a ti’Ana era bonita e no seu tempo até era tramada com os rapazes... mas não fez disparates!

 

Eu adoro quando lhes vai saindo, com brilho nos olhos, essas deixas de que foram namoradeiras ou namoradeiros. Sou quase que catapultada para os tempos em que as vidas eram feitas de cantares nas eiras, muito trabalho… mas muitos enredos interessantes, afinal não era tudo assim tão austero e púdico! Ainda bem. Há os que contam histórias. Esses são os que foram e são mais felizes. Pressinto que tomaram boas decisões.

 

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O que são boas decisões? São as que nos fazem sentir bem, felizes. Um bem para sempre, mas sem estarmos sempre bem. São as que nos deixam em segurança... são as que não nos põem em perigo. São as que não nos fazem mal a nós nem aos outros, agora e amanhã. É esta coisa do imediato que me assusta neles, esta coisa de quererem experimentar tudo e já. De quererem tudo agora e bom... comerem sem mastigar e sem saborear... Que se aprende assim?

 

 

Para ter o seu primeiro carro, teve que “passar algum lingote”. Mas há outras histórias do género... não me são de todo estranhas.  O primeiro carro foi um 805... e eu atiro-me com esta: “Um Fiat?” - Por acaso saiu-me bem! Tenho que ir pesquisar sobre carros, tenho que saber sobre imensas coisas... ou que julgam? Não se pode conversar sobre coisas tão importantes se não soubermos escutar bem, mas também é preciso demonstrar que sabemos de que falam. Modéstia à parte, eu até sei do que falam, a maior parte das vezes. Quando não sei pergunto e eles gostam de me ensinar. Claro que algumas vezes, na sua ótica eu até devia saber bem mais, mas dado que eu até moro na cidade, às tantas não sei, e é me perdoado o facto de eu não saber.

 

Fica envergonhado, de certo modo, por não saber ler e escrever, mas eu tranquilizo-o, não com uma falsa compreensão ou com algum paternalismo, o que digo é por senti-lo assim: “Tomara eu ter a sua cabecinha! E saber também o que senhor sabe!”

 

E ele percebe que eu estou a dizer a verdade e anui, dizendo que, ainda tem um amigo, que sempre lhe disse que ele tinha boa cabecinha.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O GPS coloca-nos duvidas existênciais, quem diria!

 

Todos sabemos perfeitamente a onde queremos ir. Tudo tem a ver com a razão porque queremos chegar. Não há truques absolutamente nenhuns… é tudo uma questão de onde temos o coração e o que pretendemos amar.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
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