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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

A Pertinácia da Informação

10.05.18 | Fer.Ribeiro

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Maio: formigas, flores... e Deus.

 

 

Há já alguns dias seguidos que tem sido difícil vencer o cansaço. Sinto que adquirir capacidades ulteriores e consigo dormir sentada. Não encosto, não me debruço, nem tombo: durmo literalmente sentada e de coluna direita. Por momentos apaga-se o mundo e num silencioso vibrar do doce retinir do meu nariz, retorno a mim.

 

Devíamos ser ilimitados e poder crescer como as silvas ou as roseiras bravas. Eu cá preferia as silvas, sempre dão frutos doces a quem os sabe colher.

 

Da janela vejo uma nesga do centro da cidade: o Castelo, os telhados, as casas com história e estórias, e antes dos prédios sujos – ficava melhor o quadro se alguém se lembrasse de lhes dar uma “mão de tinta” – há ainda quintais que se conservaram e uma cascata de vegetação sob o sol de maio compõe harmoniosamente o quadro. Penso num ápice: “Bonito quadro. São bonitas vistas e o melhor é que isto é ecologicamente positivo… estas áreas verdes na cidade melhoram a qualidade do ar, aumentam a área de infiltração da água no subsolo… alguém se há de lembrar de certeza de dar cabo disto tudo!”

 

A primavera tem aquela capacidade de rebentar em qualquer lado de nascer de qualquer maneira. Sempre ouvi dizer que nasci bem. Depressa e decidida. Crescer, sinto que está a ser mais difícil. É como as arvores: ora são fustigadas pelas pragas, pelo temporal, pelas podas… o que importa é não murchar.

 

Consigo ver plantas em todos os lados: nas fendas dos passeios, nos muros, nas bermas… lembro-me que quando tinha seis, sete ou oito anos, era capaz de passar tempos infinitos a ver, a cheirar, a decompor e até a mastigar, os caules, os bolbos, as folhas, as sementes… por isso em Anatomia vegetal quase tudo era familiar. Os nomes que aí aprendi, agora mesmo, teria que os rever, embora se bem me recorde, até tive boas notas nessas cadeiras! Mas as cores, as texturas, o enquadramento da luz de um sol de primavera… ficam gravados eternamente na memória, ou até quando o Alzheimer deixar! Alguns dos sítios desapareceram, outros foram descaracterizados… não quero lá voltar, a alma foi-se-lhes embora. Não importa, podemos reconstruir a nossa casa e o nosso lugar em qualquer sítio, basta que tenhamos dentro de nós a certeza de quem somos. Basta não termos dúvidas da nossa coerência connosco mesmos. Basta sermos nós em toda amplitude ocupando com isso todo o espaço dentro de nós mesmos e então repararemos que não precisamos de ocupar o espaço dos outros e que temos o espaço que é nosso. Um espaço infinito onde a propriedade é nossa, legitimada à nascença. Não adianta fugirmos a esse destino, nem nos empurrarem para aqui ou para ali, há um pedaço de mundo que nos pertence inteiramente e como nos faz felizes. O mais incrível é que quando cada um de nós o ocupar todos estarão bem.

 

Mas, essa harmonia quantas vezes tem vindo a ser confundida com uma espécie de ordem universal ou princípio unificante, que todos procuram desesperadamente: a Verdade. Esperam que essa verdade, que talvez surja com uma epifania, lhes explique o que é o quê, onde fica cada coisa e que vem depois do que se vê.

 

A necessidade de explicar todas as coisas, fez com que o Homem criasse Deus. Quando o Homem despertou desse sono profundo, em que ele próprio se mergulhou, “matou” Deus e os Deuses. Apenas um Deus congregador em algo que deu um significado profundo à humanidade poderia sobreviver nos tempos de hoje. Possivelmente a espectativa de Jesus fosse essa: sobreviver na memória dos homens para que estes pudessem acreditar no Pai. A verdade é que a memória coletiva conserva a imagem da existência de um homem à cerca de 2000 anos, com aspeto simples e que falava para multidões, falando de um Deus que nos pedia: “Amai-vos uns aos outros”.

 

Se eu não fosse agnóstica teísta e precisasse de alguma crença, seria baseada nessa premissa, contudo essa já é minha lei sem que tenha que haver necessariamente um Deus que me mande fazê-lo.

 

É maio. As plantas nasceram em todos os lados. Com este pensamento nas coisas para lá das coisas, vêm-me à mente uma visão do interior da Sagrada Família de Gaudi, em Barcelona.

 

As formigas voltam a invadir a minha secretária… ou fui eu que invadi o seu espaço? Por mim até podemos coabitar, só é chato que soltem aquela exclamação com ar de asco: “Credo, formigas!”

 

Como se fossem moscas! É que se fossem moscas aí era diferente.

 

Por mim, as formigas ficam, desde que não me comam.  

 

Lúcia Pereira da Cunha