Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Jun18

A Pertinácia da Informação

a pertinacia.png

 

A vida possível

 

A vida possível é aquela que resulta do somatório de forças entre a pressão do que é a nossa vontade subjetiva, a dos que nos rodeiam e a do coletivo. A nossa própria vontade subjetiva resulta, ela mesma, de outro somatório e de um jogo de forças internas.

 

 

A vida possível acaba por ser a forma como passamos os segundos, os minutos, as horas que se vão acumulando em dias e anos e anos.

 

A vida possível... Nem sempre é a que realmente queremos viver e aquela para a qual viemos viver. Para a maioria das pessoas já existe uma vida formada e atribuída ao momento da sua nascença, ou até antes. Já toda uma enorme multidão, de entidades e pessoas decidiram que vai ser um determinado cidadão.

 

A mãe decidiu que vai nascer e já delineou todas as etapas da sua vida, com os mesmos pormenores com que prepara o enxoval de bebé. Dependendo da mãe que lhe foi destinada a sua vida irá ter contornos diferentes. Uma mãe conservadora e iria imaginar que, se for menina, irá usar fitas no cabelo e vestidos até, pelo menos, à adolescência, por ventura irá vangloriar-se da sua beleza e da sua excelente educação e comportamentos – o seu sucesso será o da própria mãe, ainda que para isso não tenha feito nada. Certamente fará a primeira comunhão, se depender dela não faltarão fitas e adornos. Já na adolescência, depois da menarca, será melhor aprisionar a menina, é preciso guarda a sua pureza: a sua vergonha será a própria vergonha da mãe, ainda que, para isso, não tenha feito absolutamente nada. Certamente é preciso repreender a livre expressão, tapar os cabelos e disfarçar toda a sua sensualidade feminina. Todo o projeto da sua pessoa terá que chegar aquilo que é melhor para ela, e o melhor para ela é o que seria ideal para a mãe e, possivelmente, para a mãe o ideal dela é aquilo que parece ser o ideal para a sociedade – pois para ela mesma e para a sua própria vida nem sabe muito bem o que a faria feliz.

 

O pai... Não sabe muito bem qual o seu papel, e só vai perceber que é realmente pai na medida em que a existência desse novo ser vai interferir com a sua própria existência, com a sua liberdade e com a sua comodidade. Normalmente será a mãe a recordar-lhe que está ali um ser e intermediar essa existência e essas interferências. Há um ser que tem necessidades de conforto e sobrevivência. Há um ser que precisa de cuidados e atenção. Há um ser que vai competir com ela a atenção do mundo. Normalmente a intermediação da mãe envenena na raiz esta relação – para o bem e para o mal.

 

Dentro desta complexidade de pressões tudo pode acontecer. Se a mãe fosse dotada de um espírito livre ou racional, ela podia até decidir, inclusive, que nem sequer estava na hora desse ser existir.

 

Os pais podem decidir que a ajudarão a crescer dentro daquilo que é a sua própria vontade, as suas motivações e os seus talentos. Mas tudo dependerá da capacidade de interpretação dos sonhos do outro e de relativização dos nossos, da capacidade de discernir o certo e o errado.

 

Depois há toda uma enorme quantidade de entidades que vão decidir quem somos. Cada vez com maior pressão há uma enorme mão que nos vai empurrando para um certo caminho. Uma mão omnipresente que nos empurra diretamente ou através dos outros. Uma mão que já manipula os nossos pais, os nossos educadores, os nossos professores, a sociedade em geral. As nossas entidades patronais, os media... Mas a nossa natureza revela-se em nós mesmos e essa é a nossa força a nossa pulsão... Só a devemos reprimir se ela causar dano ao outro. Mas também aí essa contestação pode ser relativizada. Às vezes o outro sofre com a nossa existência: por que nos quer possuir, porque nos tem inveja, porque era preferível para sua própria felicidade que não existíssemos.

 

 

Às vezes o equilíbrio é muito difícil. Há os que decidem desistir deles mesmos. E passam a viver uma vida que não é a deles. Ausentam-se do seu corpo e deixam-se ser possuídos. Há os que se deixam possuir por momentos, julgo que esses são a maioria. Normalmente deixamo-nos ser possuídos por razões de sobrevivência: para podermos subsistir, ter alimentos e abrigo precisamos fazer o que não queremos.

 

Acordamos cedo, empurramos as nossas crias para centros de concentração de crias onde são todas formatas em conjunto para, no futuro, ocuparem o nosso lugar. Ausentamo-nos do corpo durante o horário de trabalho: quase nunca fazemos algo que dignifique o ser humano, nem mesmo quando fazemos aquilo para que estamos vocacionados, pois fazemo-lo em condições ou sob preceitos que não vão de acordo com os nossos princípios ou valores... Como os professores que são obrigados a elaborar um rol de tarefas burocráticas e obrigados a seguir por caminhos que não primam pelo desenvolvimento e crescimento do ser humano. Bem como médicos, enfermeiros, técnicos auxiliares, que são obrigados a trabalhar até à exaustão, sem materiais básicos e incapazes de concretizar o seu propósito de preservar o supremo bem, o humano, a vida.

 

Às vezes, vivemos duas vidas, por momentos ou em simultâneo. Às vezes superamos, superamo-nos... Outras vezes rebentamos.

 

Nos últimos tempos somos assolapados por uma infinidade de questões e decisões que dizem respeito à nossa própria vida. Questões não de mor importância, mas que, devido à avidez dos políticos, que como vendedores de causas que têm que cumprir objetivos atiram-nos para lá e para cá considerações, argumentos, opiniões de coisas que nos dizem respeito. Os media, as redes de comunicação moldam as opiniões, geram confusão e ruido... E a revolução acaba por nem surgir e o impacto acaba por ser efémero.

 

A pressa requer pseudo certezas imediatas. 

 

A pressão é tão forte que a capacidade de lutar com essas forças acaba por ceder e ausentamo-nos dos corpos.

 

Não tenho dúvidas que essa seria a maneira de encarar a morte quando tivesse uma vida que já não era a minha. Deixaria a alma sair do corpo e que fizessem com ele o que quisessem, porque eu já não estaria ali. Teria que ausentar-me para continuar a preservar-me com dignidade.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Boa noite! Alguém me sabe dizer quem foi o autor d...

    • Eduardo Camara

      Sou Eduardo neto de Maria Otilia portuguesa nascid...

    • Tudo Mesmo

      Tenho que ir a Chaves para o próximo ano.

    • Anónimo

      “OUTONICE”Porra! Porra! Porra!Como se já não me ba...

    • Tudo Mesmo

      Linda mesmo.