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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

A Pertinácia da Informação

14.06.18 | Fer.Ribeiro

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A extinção e a Inteligência artificial

 

No outro dia fomos ver a exposição "EXTINÇÃO - O FIM OU O INÍCIO?", na Alfandega do Porto. Acabou por não ser tão impactante como estava à espera, talvez a culpa fosse minha por mor das minhas expectativas. Não sei explicar, talvez tenha adquirido a síndrome da oposição e desafio... Sim, quando ouvi, pela primeira vez, confesso que me deu uma certa vontade de rir, embora na verdade as circunstâncias fossem muito más – para mim pessoalmente. Então, entra-se numa espiral de desespero e precisamos ser muito hábeis e muito fortes para não nos deixarmos engolir por ela. Claro que batalhar é que nos põe em perigo, deixar-nos ir é sempre menos doloroso. Afinal, há disfunções para tudo? Então será que todos temos disfunções? Ou será que temos a necessidade de “empacotar” rotular, classificar tudo aquilo que se desvia do que convém? E o que é o que convém? Afinal o que convém é o conveniente para quem?

 

Fiquei a pensar que tal como o comentário “o senhor parece um atirador sniper” seria igualmente infeliz dizer “o senhor mais parece que padece de disfunção de oposição”.

 

Será que lutar contra a corrente é inglório? Estaremos predestinados a extinguirmo-nos ou a extinguirem-nos ou a extinção? Se à coisa que a exposição faz é provocar-nos que essa dúvida. Eu já tinha escutado há algum tempo a uma colega que tinha visitado o Museu de História Natural em Londres com os alunos precisamente isso, mas, entretanto, esqueci-me e confesso que me causou uma certa desilusão, angustia… esta reflexão numa perspetiva, digamos que pragmática, das coisas: “a extinção faz parte da evolução”, “Será que devemos evitar a extinção de todas espécies? E os Vírus?”

 

Eu não tenho dúvidas que devemos procurar viver em equilíbrio e que o respeito pelo espaço de cada espécie devia ser recíproco. Mas será que sim?

 

Cabem todos na Arca de Noé?

 

Quem decide quem se salva?

 

Os Jeovás dizem que eu não vou entrar lá na Plataforma que vem buscar os escolhidos… eh pá fico um bocadinho assim para o aborrecido, confesso que isto de não sermos “escolhidos”, deixa-nos sempre um niquinho para o chateado. Mas olha, sempre posso pensar que sou dos escolhidos para ficar! Mas é precisamente por isso que nunca gostei cá de grupos e elites. Eu tenho autoconhecimento, sei quem sou, sei o que valho e estou de bem. E às tantas “vou-me extinguir”.

 

Esta parte de quando nos toca a nós é sempre a pior e mais indigesto. Enquanto é longe quase parece ficção… Mas quando o fogo é à porta… ou há inundação… aí já é diferente: dói.

 

Eu salvaria os pandas? E os pombos que serviram de alimento aos colonos na América? E os seres humanos? E toda a humanidade?

 

Que irão pensar as Lolas do futuro, ou outros robôs com I.A. (inteligência artificial)?

 

As máquinas irão ter não só inteligência, como esta vai evoluir através da aprendizagem. Como vai evoluir e até onde?  Se evolui sem limites… que irão pensar da humanidade? Como será que esses “seres”, que irão ser inevitavelmente mais inteligentes que nós, vão reagir sob o nosso comando? Vamos criar algo que quase de certeza nos vai superar… Estamos a pensar em robôs para nos substituir em tarefas, que a meu ver devíamos ser nós a fazer: interagir com os outros seres humanos, educar e cuidar. Ás tantas vamos acabar por ser substituídos na integra e seria caso para dizer: Estamos a pedi-las.

 

E se as máquinas acharem a humanidade perigosa? Quem vai ensinar as máquinas a amar?

 

Volto aquele estado que procurei descrever no inicio. O estado em que nos deixa a Exposição do Museu de História Natural, ao nos convidar a refletir sobre o fenómeno da extinção numa outra perspetiva que está subjacente à frase: o fim ou o inicio? É uma perspetiva que de certa forma nos causa desconforto, nos choca e nos perturba. No fundo, atira-nos, não só com a habitual culpa de que consumindo destruímos o planeta e que o principal móbil é o capitalismo, mas ao mesmo tempo confronta-nos com uma culpa mais íntima, mais próxima: no nosso próprio jardim! Quem deve sobreviver nós e os nossos filhos ou as outras espécies? Porque devemos preservar as espécies? E os vírus, e os maus? Sob que autoridade decidimos quem fica ou quem vai? Faz sentido “salvar” todos?

 

Se pensarmos bem, saímos um pouco humilhados, envergonhados, embaraçados… no mínimo desconfortáveis, seria o termo.

 

Lúcia Pereira da Cunha