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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Set18

A Pertinácia da Informação

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Assim são os porcos, assim somos nós!

 

 

Os arbustos secaram e pressinto que o outono deve estar a chegar. Talvez.

 

Mas, a forma como o tempo e o movimento das coisas acontece mudou. Talvez seja outono, mas algumas árvores não deram fruto e não há uvas nas videiras.

 

Entendo que algumas coisas vão mudar, mas não compreendo a pressa. Posso ser eu que estou a entender mal. Estou fora do mundo ou o mundo fora de mim, ultimamente tenho essa sensação.

 

Era suposto o que está certo, o que é injusto tivesse voz… e que essa voz fosse a dos próprios injustiçados… Mas, possivelmente só sentirá o grito no dia do dilúvio, ou quando as margens se aproximarem até as águas desaparecerem, e então será tarde.

 

Coloquei-me solidaria com ele, admiti que não era justo ter tão pouco tempo para cada tarefa. Não deu tempo que me alongasse, respondeu: “Que havemos de fazer? Não somos nós que mandamos!”

 

Claro que não somos nós que mandamos, somos nós que obedecemos… e um dia podíamos não obedecer.

 

Os arbustos secaram e a desordem da natureza que não sabe se chegou ou outono ou se ainda vem a primavera, deixa-me angustiada.

 

A angústia é um sentimento estranho. Eu diria que é quase como um pedacinho de látex que ficou esquecido dentro de nós. Porquê esta comparação? Pois bem, é por causa de uma peripécia que uma amiga próxima me contou. A peripécia, aconteceu com uma amiga de outra amiga dela, que por sua vez lhe pediu encarecidamente segredo. O estranho caso trata-se de um fragmento de luva que ficou dentro do corpo dessa amiga da amiga, aquando de um exame médico íntimo, a partes íntimas da paciente, que era amiga da amiga. Não sei, mas imagino, que essa amiga da amiga da minha amiga, se tivesse sentido como o estranho local de trabalho onde alguém esqueceu a ferramenta. Imagino que se tenha sentido como o contentor amarelo… ou seja, qualquer coisa que não fosse ela mesma, para não sentir a estranheza de ter uma coisa estranha na sua entranha. A angústia é isso: uma sensação provocada por uma coisa fora do sítio, fazendo-nos sentir impróprios, apertados dentro de nós mesmos. Neste caso só se resolveria se passássemos a ser o contentor amarelo, ou nos adequássemos à condição própria de local de trabalho, ou ainda qualquer outra condição que nos seja imposta e nos seja estranha.

 

 

Que havemos de fazer? Ficou-me a fazer eco no cérebro, no momento em que mandei o cérebro embora porque o acontecimento poderia ser chocante para a sua compreensão. Estava ainda a ponderar os eu regresso e vejo de a notícia: “Trabalhadores da corticeira acusada de “castigar” funcionária estão solidários com a empresa.” Reli, de certeza que era um lapso do jornal, ultimamente há erros fortuitamente, em qualquer lado, até aqui! Será pela quantidade de textos que se produz, pela velocidade com que mudam os assuntos e pela necessidade de inundarmos o Mundo com tanta informação pertinente. Escrevesse como quem faz alheiras numa produção em serie… (Nem quero imaginar o que vai lá para dentro!).

 

Mas, não me enganei. O título, desta vez, não tinha gralhas, pelo menos de sentido, embora para mim não fizesse sentido nenhum!

 

No entanto, não era nada que eu não conhecesse. Esta perversão das situações é tão antiga como a caça às bruxas. “Que podemos fazer nós?” pois, nós obedecemos e somos uma corja fraca, escumalha de gente que adequa à condição de escravo. A nossa preguiça, desmazelo, lerdeza faz-nos ser ignóbeis, asquerosos porcos a chafurdar na lama porque não nos valemos nem para defecar fora da gamela onde comemos. Aos porcos não lhes interessa o que comem, onde comem, nem quem lhe dá de comer, vivem no estrume, chafurdam na lama…  é lhes indiferente a solidariedade ou dignidade. Assim, são os porcos. Assim somos nós, que quando uma colega, funcionário da mesma empresa, é reintegrada por ordem do tribunal, depois de ter sido despedida ilegalmente, acedemos em participar numa espécie mobbing, não lhe dirigindo a palavra, sendo coniventes com “castigos” que implicam usar espaços menos adequados como WC, ou ficar encarregada de carregar e descarregar a mesma palete várias vezes.

 

Não vale a pena esperar que nos salvem, porque não vai chegar nenhum Messias! Se chegar, o Messias não é um ser magicamente poderoso que atira bolas de fogo pelas mãos aos maus. Não vale a pena falar de criminalização do assédio no local de trabalho, na verdade, o assédio moral em contexto laboral pode subsumir-se à aplicação do n.º 1 do artigo 154.º-A do Código Penal, aditado pela lei n.º 83/2015, de 05 de Agosto, que tipifica o crime de “Perseguição”, o qual, nos termos gerais, pode integrar condutas que enformam a definição de “assédio moral” contemplada no Código do Trabalho. Como diz Joana Neto, o assédio moral no local de trabalho já é crime.

 

As soluções, para estas práticas contra a dignidade da pessoa humana, não residem apenas na sua criminalização, mas antes na quebra do silêncio e na vontade de deixarmos de ser como os porcos.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

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