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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Açude e Fronteira de Vila Verde da Raia - Chaves

02.07.16 | Fer.Ribeiro

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Imagem de arquivo

Na minha memória, e penso que na memória de todos os flavienses da minha geração, existe uma pasta com o nome de Açude guardada num armário que por fora tem uma etiqueta onde diz: “Boas recordações de sempre”. Os mais novos nascidos após anos 70/80 do século passado pela certa que não entenderão o porquê desta memória porque nunca viveram a magia do Açude, mas a rapaziada do meu tempo entender-me-á na perfeição.

 

Férias de verão, dias de calor com a cidade a ser pouco mais que o centro histórico, as avenidas novas e os bairros periféricos, ainda sem computadores, sem telemóveis e outras coisas tais. Como a sombra da esplanada do Sport não chegava para todos nem interessava a todos, o rio e as sombras dos amieiros convidavam naturalmente ao convício entre os jovens. A mítica galinheira, o tronco e outros locais idênticos rio acima ou rio abaixo, iam sendo preenchidos pelo pessoal do costume da proximidade, com os outro, a grande maioria, a optar pelo açude de Vila Verde da Raia, mesmo em cima da fronteira com a Galiza. Era para aí que rumavam de bicicleta, motorizadas, de carro, à boleia ou de carreira as largas dezenas e às vezes centenas de flavienses, principalmente os mais jovens.

 

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 Imagem de arquivo (as árvores já não existem)

Sem qualquer infraestrutura de apoio, a água do açude (então ainda decente para banhos), um pequeno areal na base do açude, muita sombra e um pequeno relvado lá para os fundos onde se davam uns toque de futebol, eram tudo e não era pouco. Bebidas e qualquer coisa para comer, quando havia dinheiro, atravessava-se clandestinamente o rigueiro que servia de fronteira entre Portugal e a Galiza e ia-se a Feces de Baixo, alguns de propósito para beber coca-cola, isto no tempo em que ainda não a havia em Portugal. Ao fim da tarde, o regresso fazia-se à cidade com o desejo de voltar no dia seguinte. E foi assim durante muitos anos e os da minha juventude.

 

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Imagem de arquivo

 

Aí por finais dos anos oitenta, num verão em que já eu trabalhava e sem férias grandes de verão para gozar, numa passagem qualquer a caminho da Galiza, lembrei-me dos meus tempos de açude e fui lá deitar uma vista de olhos. Desilusão total – nem alma viva havia por lá. Nos anos noventa a autarquia lembrou-se de reinventar o local, dotando-o de um parque de merendas, um parque infantil, instalações sanitárias e alguns grelhadores, coisas que tanta falta faziam quando então íamos por lá, mas que depois de existirem ninguém lá levou. O açude estava morto e não ressuscitou. Para agravar a coisa, após a construção do tal parque de merendas ou de lazer, o Ministério do Ambiente colocou lá uma placa que dizia: “Zona de recreio e lazer – É desaconselhada a prática balnear neste lugar”. Tudo isto faz-me lembrar um pouco o que se passou com as nossas aldeias, ou seja, quando eram povoadas por muita gente, ainda com crianças e jovens, a grande maioria não tinha rede de água pública, nem saneamento básico e muitas delas sem acessos pavimentados, incluindo as próprias ruas das aldeias. Quando o pessoal começou a abandonar as aldeias, canalizaram-lhes a água, fizeram-lhes o saneamento básico e pavimentaram-lhes os acessos. Quando terminaram, a maioria das aldeias já não tinham crianças, nem jovens e a maioria dos casais tinha partido.

 

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Voltando ao açude, ou ao lado, e já que estamos a falar de abandonos, a duas ou três centenas de metros de distância, onde antes de Portugal entrar para União Europeia havia a fronteira oficial entre Portugal e Espanha, com instalações da Guarda-Fiscal e Alfandega, rodeadas de casas de habitação de apoio aos guardas-fiscais que aí faziam serviço. Pois abertas as fronteiras, a Guarda-Fiscal e a Alfandega retirou-se do local e fecharam as instalações. Instalações fruto da arquitetura oficial do Estado Novo, por sinal das poucas coisas de jeito que se fizeram nesse período e que na maioria são belíssimos edifícios com obras-primas de cantaria, como no caso, que eram pertença do estado, que deveriam ser preservados e neles mantidos serviços públicos de apoio à população, mas em vez disso, foram simplesmente abandonados e vandalizadas, e neste caso dando uma triste imagem para quem entra em Portugal, ou entrava, pois agora a maioria passa ao lado.