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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Cartas ao Comendador

12.04.17 | Fer.Ribeiro

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (20)

 

Ainda não lhe disse, faço-o agora, mas comecei a publicar e, desde essa altura, tenho recebido as críticas mais improváveis que possa imaginar! Erros científicos, erros literários, erros de concordância, em plural e género, incoerência nos raciocínios, falta de lógica e razoabilidade…

 

Falam-me em assegurar o lado terapêutico da escrita, como se eu fosse médico, farmacêutico, curandeiro que seja! Julgam-me padeiro, que tem uma receita; mecânico, que tem um objectivo; alfaiate, que faz fatos por medida; canalizador, que desentope ou purga! Nessas profissões deve haver, ao menos suponho eu, uma intenção, mas não o afirmo porque não é a minha área nem eu as domino para poder falar delas!

 

Perguntam-me porque não penso em conter um pouco a inspiração, de forma a poder arrumá-la antes de a utilizar ou de me servir dela! Sugerem-me que vale a pena ir aprendendo a parar um pouco para refrear alguma desarrumação que não potencia um resultado tão bom quanto afinal podia de facto ser!

 

Que uma vez por outra, volte atrás e pense se tudo está desenhado de acordo com a intenção inicial ou se, estando arrumado, está de acordo com intenções que posteriormente tenham surgido; se a ligação merece ser melhorada ou se vale a pena fazer um pequeno desvio de algum tipo e que devo interagir com o texto assertivamente! Construção civil, tijolo sobre tijolo!

 

Sugerem-me que pense dez segundos antes de começar a escrever, não sei se são os mesmos dez que devemos contar para nos acalmar, não vejo relação nisto, mas pode ser obra do diabo que ele tece-as; ou até, veja, porque não corrijo no fim as ideias que se desviaram do propósito inicial, como se houvesse na escrita algum propósito! Referem-se a ela como se se tratasse de um trabalho, ao invés de um acto criativo!

 

Dão-me conselhos, o senhor acredita nisto? Pois é verdade!

 

 

Mas não se preocupe comigo, tenho a coisa controlada! Mostro-lhe como: aqui há uns meses publiquei uma crónica de uma ironia, sarcasmo ou cinismo, não direi invulgar posto que em mim é o corrente, também não digo que a coisa fosse transparente que não era, porque também isso em mim não é vulgar, mas pareceu-me clara, embora não directamente óbvia, digamos que era facilmente entendível! Pois não foi, nem minimamente! Uma das críticas foi que o texto tinha uma leveza tão grande que dispôs bem as pessoas! Pensei: ai valha-me Deus! Mas não comentei, sorri em vez disso!

 

Ou seja, o impacto que estas críticas têm em mim é que eu, por curiosidade, vou ler aquilo a que se referem, agora já com esta informação adicional, e sabe que não encontro, onde os outros lêem o que lêem e onde para os outros é fundamentada a crítica, qualquer lógica no que dizem! Pergunto-me sobre isso, se estarei a perder a lucidez ou até mesmo a enlouquecer, pois que não vejo no suposto evidente nada de verdade!

 

A maioria das pessoas não entende o acto de criação e não serve de muito explicá-lo. Primeiro porque nunca se entende uma coisa que se não tem nem sente, e não estou a fazer juízos de valor, o senhor sabe que eu não gosto disso; depois porque nunca o criador saberá explicar por que motivo faz uma coisa que lhe é inevitável!

 

Mas não posso, mais uma vez, falar em nome dos outros porque eu não estou sob a sua pele! Digo-lhe isto apenas em tom de desabafo porque me parece simplesmente que não faz nenhum sentido dizer a um escrivão que há erros no depoimento e sei que o senhor me compreende, o que me é, por agora, o bastante e o suficiente. Não aspiro, neste momento, a mais do que isso.

 

Não sei se concorda comigo, mas o que me parece não estar claro para quem lê, é o pressuposto de que é o autor que escreve quando nas mais das vezes é um pseudónimo, heterónimo ou o que lhe queiram chamar!

 

Mesmo que ao escrever eu me sentisse tentado, que não sinto, a mudar ou a acrescentar alguma coisa, nunca o faria, não fosse eu, com esse acto de pura leviandade, distorcer algum sentido que para o seu verdadeiro autor é o fundamental! Deus nos livre, era preferível roubar!

 

E o que me preocupa mais é, não vai acreditar, não o que dizem a esse respeito, mas o facto de eu me não importar com isso! É como se estivessem a falar de alguém, o que é verdade, que eu conheço, mas que não sou eu, e vejo por isso a crítica com isenção, e toda a minha defesa vai no sentido de respeitar a opinião de quem escreve e pensar que se fosse eu a não entender o que está escrito concluiria, antes de fazer uma consideração a esse respeito, que tinha talvez uma qualquer limitação que me não permitia chegar ou acompanhar o raciocínio do autor, mas nunca passaria pela minha cabeça que ele se tivesse enganado! E o que faço, então, é ler mais uma vez, à espera de que se me faça luz cá dentro porque, teimoso como sou, penso sempre: algum sentido isto deve ter! E não demoro a encontrá-lo, talvez não ao pensamento de quem escreveu, mas a um que me satisfaça! Não é este o trabalho de um leitor? É honesto, querermos embrulhar uma prenda num papel mais pequeno que ela?

 

Mas, já percebeu que o meu problema não é minimamente este! É verdade, começo a pensar se terei sido eu sempre fiel na tradução e que talvez me aconteça num caso ou noutro não ter percebido bem a caligrafia e acabar por escrever coisas, ter colocado lá palavras, que não eram as originais! Instala-se a dúvida de ter copiado bem ou mal, que neste caso são sinónimos!

 

Pois não sei, humildemente lhe confesso que não tenho solução para isto, mas também não me parece grave o facto, pois que se quando em alguém que escreve, houvesse nele o receio da discórdia, escrevia não talvez com palavras, mas com números! Porque a matemática, dizem, é exacta e não susceptível de interpretação!

 

Com o abraço do seu

José Francisco

 

 

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