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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 31

 

Depois de algumas passagens dos Diários de Torga (que continuarão a passar por aqui), de uma breve abordagem aos Poemas Ibéricos, é tempo de começar a deixar por aqui alguns contos. Iniciamos pelos “Novos Contos da Montanha”, que datam de 1944 e foram “germinados e medrados na Montanha”, tal como o autor nos conta na segunda edição dos contos - "Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medraram as raízes deste livro". Os “Novos Contos da Montanha” surgem na continuidade dos “Contos da Montanha”, também do autor, e não são mais que contos comuns de histórias acontecidas com gente comum, num espaço tão querido a Torga, o espaço da sua infância o do tal “Reino Maravilhoso”, feito de gente pobre que vivia de um quotidiano de fome, ignorância e desespero. Gente pobre mas eticamente muito rica que Torgã tão bem soube descrever em “O Reino Maravilhoso” – “(...)Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças. E põem naqueles pêlos da cara uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar. Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê-se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologais porque Deus não quer. Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:

— Entre quem é! (...)"

 

Mais que contos são uma homenagem à sua gente transmontana “heróis montanheses, revoltadamente livres e trágicos na sua solidão”

 

Um pouco ao acaso iniciamos com o conto Névoa. Em novas oportunidades outros contos surgirão.

 


 

Névoa

 

Já nos tempos de rapariguinha, quando as outras, da mesma idade, esguedelhadas e de nariz sujo, brincavam aos casados, ela se punha de lado, toda penteada e limpa. Esbelta e airosa, loira, branca e rosada, nem parecia criada ali.

 

- Muito bonita é a tua Celestina! A pobre Joana desfazia no elogio, com medo de qualquer castigo de Deus, e continuava a não compreender como pudera sair de si, tão feia, tão mísera e tão infeliz, uma criatura assim, bafejada da natureza. Giesta agarrada à ponta do fraguedo da sorte, que nenhum vendaval poupara, olhava com olhos incrédulos o milagre daquela flor de que fora mãe.

 

Sempre doente, desafortunada no casamento, desgraçada pela vida fora, morrera-lhe o homem quando andava grávida da filha.

 

- Não chego a ver a menina... - lamentava-se ele, logo ao terceiro mês, já com a sentença lavrada.

 

- Valha-te Nossa Senhora! Se isso são coisas que se digam!

 

- Tenho a certeza. Sofria de asma. Permanentemente a arfar, a erguer e a abaixar o peito num desesperado vaivém de náufrago a afogar-se, a inquietação contínua que criava à volta, às duas por três, transformava-se em pânico. Ao vê-lo assim esganado, até se tinha remorsos de respirar normalmente.

 

- E gostava tanto! - insistia, no fim do acesso.

 

Naquela vida sem ar e sem esperança, a cavar à sobreposse e a fumegar-se de pós da Abissínia, o sonho da filha representava um lavado horizonte de calma respiração e confiança.

 

- Há-de ser linda, que to digo eu! Sempre que falava nela, perdia-se, a descrever-lhe a beleza. Alta, branca, loira... Parecia tê-la diante dos olhos.

 

Ao lado de uma tal imaginação, a Joana, sem fantasia, pecava por míngua. Quer antes, quer depois da mortalha do homem, nunca passou de uma tímida certeza, onde cabia apenas uma rapariga ou um rapaz, e qualquer deles nem feio nem bonito, um justo fruto do seu ventre natural e terroso.

 

Mas chegou a hora do parto e, uma por uma, todas as profecias do vidente se realizaram no corpo da criança. Olhos azuis, cabelos loiros, linda...

 

- Só me admiro é como ele adivinhou isto! - dizia a Joana, a ver a filha crescer-lhe no colo.

 

- Beri-berá... - respondia a pequenita, com uma luz de resplendor à volta da inocência.

 

O retrato do Lourenço, tirado na feira dos nove, era o de um camponês de traços grosseiros.

 

Contudo, mal começou a ter tino do mundo, a cachopita ficava-se tempo esquecido a olhá-lo, numa ternura e numa admiração que a princípio comoviam a mãe. A coisa, porém, de tal modo passou as marcas, que foi preciso atirar uma palavra de desaprovação ao êxtase contemplativo.

 

Ó mulher, nem tanto! medida que os anos corriam, a saudade do homem esfumava-se no coração de Joana. A lembrança do marido sumia-se pouco a pouco, e ficava da passada vida em comum uma certeza sem nitidez, baça, que esbatia as feições do morto. A fotografia dele lá estava sobre a cómoda, numa tentativa de sobrevivência teimosa. Mas bastava-lhe fechar a porta de casa para a imagem perder os contornos. Só recordando certos factos, ou obrigando a memória a concentrar-se, conseguia que de uma nuvem esfarrapada se gerasse a figura antiga. Direcção inteiramente oposta à de Celestina que, partindo praticamente do nada, ia modelando a realidade do defunto, tirando, pondo, corrigindo, na febre de o ressuscitar em corpo inteiro.

 

- O pai era baixo, não era?

 

- Era.

 

- Eu já calculava... - Como é que calculavas?

 

- Não sei, calculava...

 

- Valha-te Deus. Um mal-estar indizível, uma zanga sem raiva, começou a apoderar-se de Joana sempre que via a cachopa absorta diante do retrato. Não conseguia resolver no espírito aquela estranha contradição: ela a distanciar-se progressivamente do marido e a filha a aproximar-se dele cada vez mais.

 

- O pai gostava muito de si, não gostava?

 

- Olha que conversa! Mulher feita, e cada vez mais bonita, a rapariga parecia não ter outro destino no mundo senão recriar um passado que não vivera. Os rapazes rondavam-lhe a porta, escreviam-lhe ou falavam-lhe, e ela mantinha-se insensível a todas as solicitações do presente.

 

- Tu não te queres casar? - perguntou-lhe a mãe a certa altura.

 

- Para quê? - Essa agora! Então para que há-de ser? Houve um silêncio penoso entre as duas, que uma resposta insólita e violenta quebrou.

 

- Para depois esquecer o homem, como a mãe fez ao seu...

 

A pobre e velha Joana sentiu estalar qualquer coisa dentro do coração. Foi uma suspeita esticada, tensa, que a brutalidade da agressão rompeu. Mas só confusamente conseguiu compreender o que se passava. A filha pareceu-lhe de repente outra mulher, e a estranheza dessa sensação perturbava qualquer análise esclarecedora. Por isso emudeceu e afastou-se devagar como se fugisse de um inimigo.

 

- O retrato? - perguntou dias depois, ao ver que sobre a cómoda já não estava o morto emoldurado no seu caixilho de arame entrançado.

 

- Não sei dele. Olhou fixamente a filha. - Então se tu não sabes, quem é que sabe?

 

A rapariga, sem pestanejar, enfrentou-a.

 

- Já lhe disse que não sei. Voluntariosa, Celestina sempre lhe metera medo. Mas agora temia-a doutra maneira. Depois da última conversa, nenhuma palavra ou intenção da filha lhe davam garantias. O clamor cada vez mais vivo da alma injustamente magoada mandava-a recuar ao primeiro sinal de perigo.

 

- Guardaste-o, é o que foi - rematou, a fugir ao embate. - Podias ter dito logo...

 

Cheia de vida, cada vez mais loira e mais formosa, a rapariga parecia um sol imerecido a iluminar a terra.

 

- É sua filha? - perguntou um feirante de longe, na altura em que lhes vendia um leitão.

 

- É. - Abençoado pai que a fez! Os olhos de uma fulguraram de alegria; os da outra nublaram-se de tristeza.

 

- Pois olhe que a boniteza dele... - desabafou a velha, quase sem querer.

 

- É você mais engraçada! - replicou Celestina, como se lhe tivessem mordido.

 

- Amiga dele é ela!... - comentou o outro.

 

- E nem o conheceu... - Mas gabo-me de o ter vivo no coração, como vossemecê nunca foi capaz!

 

O dia morreu assim azedo e os que vieram a seguir foram ainda mais amargos. Até que o verão se aproximou do fim e aquele drama também.

 

Foi em Setembro e passavam ranchos de vindimadores para a ribeira. O harmónio da rusga polvilhava a terra de uma melodia antiga, melancólica e sem préstimo. Celestina fora à costureira e a desgraçada Joana, sentada na soleira da porta, acompanhava com os últimos resquícios da coragem aquele fim de tarde desalentado. Como as uvas que iam ser cortadas, estava também madura para o lagar da morte. Apenas a prendia à vida a dolorosa lembrança de um caminho brumoso, desconsolado, com muita chuva, muito frio e algum sol que, em vez de a aquecer, a queimara. O homem fora no seu amor uma aflição constante; a filha trouxera-lhe uma angústia mais profunda ainda. Que fazia ela no mundo?

 

Que gosto poderia ter numa existência que lhe roía a velhice e matava no coração da rapariga a mocidade?

 

Sem ânimo para continuar a arder naquele inferno de lume apagado, todo de sombras e absurdos, ergueu-se, foi à cozinha, pegou na faca e na cesta, e correu pelo atalho dos Barrocos ao encontro do último rancho.

 

- Vossemecê quer mais uma mulher na roga? - perguntou, desesperada, ao maioral.

 

- Quero, quero! Mas é preciso que ela ainda distinga os bagos das folhas...

 

A velha Joana sorriu com brandura. Depois, humildemente, disse:

 

- Distingo. Mas, se me enganar, dê-me um empurrão e atire-me aos boleirões ao Doiro. É um favor que me faz.

 

Miguel Torga, In Novos Contos da Montanha

 

 

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