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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D' Aurora

04.07.17 | Fer.Ribeiro

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  1. FESTA DOS MOÇOS.

 

A “Festa dos Moços” é uma tradição folclórica de Sant’Aninha de Monforte e de outras aldeias da região. Trata-se, possivelmente, de uma herança de ritos ancestrais que tiveram suas origens nos rituais pagãos de inverno, quando os romanos ou, talvez, outros povos d’antanho, celebravam um novo ciclo da produção agrícola. Em consonância com isso, a Festa significava também um rito de passagem dos moços para a idade adulta.

 

Durante dois dias, os jovens solteiros se tornam os senhores da vida na aldeia. A festa começa ainda bem cedo, com o gaiteiro e sua gaita-de-foles a acordar os aldeães. Surgem

 

então os “caretos”, criaturas estranhas, de trajos bizarros, a exibirem caras diabólicas e a fazerem barulho com chocalhos, pendentes de fitas coloridas. Dançam, pulam, rodopiam

 

e fazem grande algazarra. Quase tudo lhes é permitido e, sem poderem ser identificados, por causa das máscaras, cometem de tudo o que lhes der na veneta. Invadem as casas sem qualquer cerimónia e se põem a roubar vinhos, pães, chouriços, morcelas, presuntos e o que mais encontrarem de aproveitável para o seu festejo juvenil.

 

Foi a uma dessas intrusões domésticas, que alguns moços festeiros viram-se diante do tal acontecimento, trágico e inesperado.

 

 

  1. MOÇOS E FACTOS.

 

Há algum tempo que toda a gente se perguntava – Mas ó pá, em que chão há de ser que a Rosa Manteigueira e o filho dela andam a gastar os tamancos? Ai, que ninguém mais os viu arrastar os seus socos por aí, nem se despedir de ninguém. Será que ela foi ao Brasil, para se encontrar com o marido, que nunca mais deu as novas por cá e, se calhar, o maroto já deve estar às voltas, por lá, com outro cobertor quentinho ao pé da orelha?

 

A velha Rosa morava em um fim de rua, já ao termo da aldeia, no extremo oposto ao da quinta de João Reis. Era mais uma dessas viúvas de marido vivo, como se dizia em Monforte. O filho era um moço mirrado, de ar doentio, mas que sempre estava a ir e vir de Chaves, a vender as manteigas e queijos que a mãe fazia.

 

Sempre na radiante alegria que lhes é própria, os moços da Festa resolveram invadir a casa da manteigueira, com o propósito de verem se esta, ao se ausentar com o filho, sabe-se lá para onde, não teria deixado alguns queijos, vinhos e conservas. Ao entrarem, todavia, depararam-se com um quadro de peste medieval. Um rapaz que, à primeira vista, os festeiros pensaram tratar-se de um africano, por enegrecido que lhe fora o rosto, jazia morto ao lado do catre de Rosa. A esta, igualmente, os deuses não favoreceram melhores condições.

 

A fatídica Pneumónica chegara, enfim, a Sant’Aninha de Monforte. Desnorteados pelo pavor, os jovens puseram-se, de imediato, a fazer uma outra festa, a do Fogo. Reduziram a cinzas tudo o que, lá, cheirava a morte.

 

Naquele janeiro de 1919, a Festa dos Moços envelheceu ali mesmo.

 

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