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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Abr18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRIMEIRA NOITE.

 

Seria, para o resto da vida de Aurora, a primeira noite de fortuna ou infortúnios. Apesar de toda a ansiedade, a lhe fazer o coração quase saltar por entre os seios, procurou ter calma e esperar que todos dormissem. A primeira a se entregar aos seus sonhos de adolescente fora, de pronto, a sua companheirinha de quarto. Por algum tempo, todavia, Aurora teve de aguardar até que, finalmente, Morfeu se aproximasse de todos os que, nos demais aposentos da casa, ainda estivessem a conversar. Ainda que o fizessem em tons baixos e sussurros, estes eram bastantes para magoar os delicados ouvidos das flores, no absoluto silêncio da veiga. Uma a uma, porém, as bocas foram se calando e, para já, um simples zumbido de insetos se transformava em algo mais barulhento do que um coro de miúdos, à hora do recreio, no pátio de uma escola.

 

Ao ouvir o primeiro assobio, conforme haviam concertado, a rapariga terminou de passar nas faces e no pescoço o pó “Rainha da Hungria”, agasalhou-se para o frio da noite, calçou suas pantufas ultra silenciosas e se deixou ficar, indecisa, diante da porta do quarto.

 

O coração, este palpitava como se quisesse largar-se de si mesmo e partir logo, acelerado e sozinho, ao encontro do amado.

 

Ao segundo assobio, decidiu tomar o caminho da cozinha e da aventura. Deteve-se, porém, ao ouvir alguns passos e, logo a seguir, o ruidoso despejar da urina de Papá, na sentina da casa. Não, não era o Papá, talvez Afonso. Esperou o irmão voltar ao leito, atravessou a cozinha e desceu, lenta e cautelosamente, pela escada que dava ao porão. Uma vez mais parou, entre os pulsos do coração e os impulsos da mente descontrolada. Não era medo de acordar as criadas, pois estas já deveriam estar a dormir o sono dos anjos (e até a sonhar com alguns arcanjos, rústicos e musculosos). Quanto ao cocheiro, este habitava com os seus a uma casita não muito longe, na estrada que vai dar a Bragança.

 

Era medo de si mesma, do passo que estava prestes a dar.

 

O terceiro assobio a fez correr pelas árvores do pomar, até ao portão. Ia abrir um portal e, a outros, fechá-los para sempre. Não apenas os da Quinta, mas outros, muitos outros portais de toda uma existência.

 

 

Sentados sobre uma pedra, lá fora, a falarem de assuntos triviais, logo estava o gajo, de novo, a encantar a menina com suas andanças pelo mundo. Ora, pois, que não iria falar de outras raparigas, mas se Aurora lhe perguntasse sobre as sevilhanas, bretãs, toscanas, tais e mais, dizia-lhe que, em certas coisas, as mulheres são sempre iguais por toda parte (e isso o fazia sorrir, malicioso). Afirmava, porém – Mas cuida-te, minha brasilita, que nenhuma... ai que nenhumazinha, mesmo, pode se comparar à tua beleza, à tua meiguice, a todos os teus predicados!

 

Pois que estivesse a chegar o frescor da madrugada, Hernando aconchegou-a em seus braços. A isto, Aurora deixou-se levar ternamente, sem qualquer resistência. Quando o cigano tentou roubar-lhe um beijo à boca, todavia, a rapariga falou – São horas de voltar a casa, olha que o Papá ou alguém mais pode acordar e dar por falta de mim – e correu a fechar o portão, não sem antes ouvir do rapaz a tão esperada pergunta – Quando te vejo de novo, minha bela? – ao que, ela – Deus há de concertar isso, pois é Ele quem tudo vê – e enfatizou – tudo vê, tudo ouve, tudo sabe.

 

  1. OUTRAS NOITES.

 

O Camacho não quis esperar por Deus nem por Sara Cigana, uma das santas secretárias do senhor Jeová. Sabia que ao entardecer, quando fosse com seus primos ao pasto livre da veiga, para buscar os cavalos do clã e os recolher ao estábulo, certamente Aurita estaria a uma das janelas, na ânsia de vê-lo passar, vaidoso qual sempre, garboso como um oficial da Polícia Montada do Canadá, pelo menos igual ao que ela vira, em um dos muitos filmes no Cineteatro Flávia.

 

Lá estava ela de facto, à janela, a donzela toda bela! Ao vê-la, como previsto, Hernando adiantou-se como pôde dos outros gajos e, ao passar bem rente à casa dela, descobriu a cabeça. Dentro do chapéu estava um papelinho no qual se achava escrito, com letras graúdas, uma só pergunta – Hoje? – e, ao recolhê-lo, a resposta de Aurora veio com um aceno e um sorriso de fada.

 

 

Por muitas luas, assim continuaram os encontros marcados, embora com as marcas da prudência impostas por Aurita. Valiam-se dos mais variados estratagemas, para se comunicarem e combinar os encontros. Ora deixavam bilhetes sob as pedras do jardim da Quinta, ora usavam mensagens cifradas, transmitidas graças aos favores bem pagos de Manuela, a lavadeira comum às duas famílias, quando esta vinha trazer e buscar a rouparia dos Camacho e dos Bernardes, para lavar no regato de sua aldeia.

 

Nas fantasias eróticas de Hernando, essa lavagem de peças comuns parecia um ato de sensual promiscuidade. Isso fazia o rapaz ficar bastante excitado, só em pensar que, nas águas do riacho da aldeia de Manuela, as roupas dele e de sua amada se misturavam, fosse enquanto juntas, ao se ensaboarem, ou quando, lado a lado, ficassem dependuradas nas cordas estendidas por entre as árvores. As vestes de um e de outro estariam a realizar, a essa altura, o que os corpos respetivos ainda nem sonhavam desfrutar.

 

Em geral, punham-se os dois a concertar ali mesmo, no fundo do pomar, as próximas aventuras dessas noites adentro. Aurora sabia dos riscos, mas tentava caminhar sobre a corda bamba de um circo de incertezas, temerosa e oscilante entre o seu senso de pudor e o poder de sedução do namorado. Quando só podiam encontrar-se mais cedo, ao anoitecer, sempre restritos a pouco mais do que o mero palear, Aurita se aproveitava da carinhosa dedicação da ama que lhe ajudara a crescer e lhe pedia ajuda para se encontrar com o cigano – Não te apoquentes, minha boa Zefa. Entre mim e o Hernandito, por enquanto, não há nada de mal. Apenas uma grande amizade.

 

A barrosã retrucava – “Por enquanto”... já és tu mesma a dizer e é disso que tenho medo. Não estiques a corda demais, que ela sempre arrebenta pra cima de nós, as mulheres... e esse gajo, desculpa que eu te fale assim, ele não é só um cão, como os outros, atrás de fêmea na cainça; ele, sozinho, é uma verdadeira canzoada! Cuida lá do que estás a fazer, minha menina! – e Aurora – Não te preocupes, Zefa, já não sou mais uma boba nem tonta miúda. Sei me guardar.

 

Aos poucos, Aurita ganhava mais coragem em suas saídas noturnas, ao tempo que se tomava, também, dos maiores cuidados, para que tudo viesse a dar certo e ela pudesse desfrutar de bons momentos ao lado de seu gitano. Agora já costumava levar uma colcha velha, que jogava sobre a relva do pomar. Com o namorado a trazer vinho e ela, pão e queijo, deixavam-se gozar da penúltima ceia antes do Calvário, desejosos de que este ainda tardasse bastante a chegar, embora sabedores da maldição de Anás e Caifás a lhes rondar o Horto das Oliveiras.

 

Apesar de beber apenas alguns goles do tinto, a rapariga já se deixava levar pelos eflúvios do vinho e começava a permitir alguns carinhos mais ousados do rapaz. Sabia, no entanto, o momento certo em que seu galo interior deveria cantar as horas da paragem. Então, logo se punha a fechar o portão da quinta com um “até sempre” ao amado.

 

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