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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D´Aurora

08.05.18 | Fer.Ribeiro

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  1. NOITES DE SUSTO.

 

Uma chuva forte com raios, relâmpagos e trovões pegou certa vez os namorados de surpresa, a certa hora da madrugada, quando os dois mal acabavam de se encontrar. Decerto que não era um temporal repentino. Apenas os jovens, em sua ânsia de paixão, não haviam notado os sinais que prenunciavam a tempestade. Aurora só teve tempo de fechar o portão para Hernando e correr a casa. Estava com as vestes e o corpo encharcados pelas nuvens que ora se desfaziam sobre a terra. Pior mesmo era perguntar, a si própria, de que forma haveria de explicar, na manhã seguinte, porque, como e onde, em que aguaçal ela se deixara ensopar.

 

Assim que tornou ao andar de cima, viu que o Papá movia-se por toda parte a verificar e, se fosse o caso, fechar algumas janelas. Aurita mal teve tempo de lhe fugir à vista e se encostar a um vão do corredor, com o tiquetaque do coração a virar um verdadeiro tuquetuque. Se a ocasião faz o ladrão, também faz o espertalhão. A um breve lapso de tempo e longas palpitações ao peito, já lá estava a rapariga a se esgueirar pelas paredes até um janelão qualquer, abrindo-o e quase a se ver atirada bem longe, para depois tentar fechá-lo de novo. Enquanto lutava de verdade contra a ventania, dizia alguns – Ai, Santíssimo! – audíveis o bastante para chamar a atenção do pai.

 

Papá lhe veio em socorro e, assim que cerrou o janelão, preocupou-se com a saúde dela – Que estás a fazer, menina Aurora? Essas coisas, deixá-las comigo! E se eu cá não estivesse, deixasse-as com os teus irmãos! Vai, corre para teu quarto e veste logo outra camisa de dormir, bem sequinha.

 

Era, certamente, a um outro tipo de vestuário que ele se referia, pois a pouca iluminação do recinto não lhe ensejava perceber que a filha estava em trajos de sair à rua, não de se entrar aos lençóis. Em seus aposentos, Aurita mal teve tempo de se desfazer das vestes molhadas, pois já lá viu chegar a boa Mamã, com uma xícara de chá bem quentinha e uma bacia de água quente, para o benfazejo escalda-pés.

 

 

Em outra noite do tão secreto namoro, a jovem estava de volta ao casarão quando ouviu o trote de um cavalo e, logo a seguir, abriu-se de novo o portão dos fundos, que ela mal acabara de fechar. O cavaleiro pôs-se adentro, apeou e foi guardar o animal. Com medo de ser descoberta ao entrar no porão, Aurora ocultou-se sob os degraus da escada externa. Na pressa, esbarrou em um vasilhame qualquer de metal, que fez um pequeno barulho, o suficiente para que se escutasse a voz de Alfredo – Quem está lá? – O rapaz esperou um pouco e repetiu, com sua voz a bater nuvem contra nuvem, até criar uma forte trovoada, no vasto silêncio da veiga – Quem é? Quem está lá?

 

A rapariga ficaria menos aterrada se visse um frade santo a lhe botar a língua fora, como um deles o fizera à mulher do organista da igreja Matriz. Entretanto, a voz do irmão acordou a velha perdigueira. Esta correu a fazer festas a quem, de todos da quinta, era, em vice-versa, (perdão pela blasfémia) o seu “ai-jesus” – Mas ora, pois, então és tu, minha Patusca? Queres acordar a todos os mais da casa e me deixar em palpos d’ aranha?! – e, com a cadela a se enroscar entre as pernas, logo tratou Alfredo de retirar do Azeviche as selas e os arreios.

 

Aurita aproveitou-se desse breve tempo e, à laia de uma osga muito arisca, correu aos seus aposentos. Lá em cima, porém, outros perigos e maçadas! Teve que se deter atrás de uma porta, porque Mamã estava a passear da cozinha para a sala e vai e volta, na maternal e aflitiva espera pelo mais travesso dos filhos. A uma das idas da mãe, antes que a vinda sobreviesse, Aurora alcançou o quarto. Só então se deu conta de estar com os lençóis e cobertores entre as mãos. Colocou-os em baixo da cama, a pensar de que modo iria fazer, no dia seguinte, para levá-los de volta ao porão.

 

 

O facto se repetiu em outra ocasião, no pomar, embora com algumas variantes. Dessa vez, a rapariga quase foi vista por Alfredo, que estava a chegar meio allegro ma non troppo. Trôpego, deveras. Vinha a pé, mas o rapazola não vira o cigano se evadir, decerto por estar a sentir no corpo os efeitos do vinho e da noitada de pândegas, atos bastante precoces para um garoto de apenas dezasseis anos. Felizmente a essa altura, para ele e, mais ainda, para a irmã, Florinda já estava a dormir na mais plena paz materna, a desconhecer o que dois de seus filhos faziam pela noite afora.

 

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