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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D´Aurora

12.06.18 | Fer.Ribeiro

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  1. TRAVESSIA.

 

Percorreram alguns metros do túnel, ele à frente, ela atrás, durante um tempo que lhe parecia eternidade. Havia muito musgo entre as pedras e, entre frestas, dormitavam alguns bichos cujos olhos, ao lume, pareciam enormes lampiões. Viram então lampiões de verdade, mas de luz fraca, ao entremeio de vozes masculinas cada vez mais perto, em direção oposta à deles. Hernando mandou que Aurora se ocultasse atrás de si. Sacou de sua faca e a pôs em riste.

 

O coração da rapariga parecia esticar-se dentro da pele, saltar para fora do tórax, retornar ao lugar e voltar a fazer esse mesmo movimento. – Ai Jesus do Céu! E se for o Alfredinho com os colegas?! – mas logo lembrou que, entre outras precauções, certificara-se de que o irmão já estava a dormir de facto e a bom sono. Os homens eram da Galiza e vinham quase no breu, com fardos às costas e a se valerem de cajados, como os peregrinos no Caminho de São Tiago.

 

Só ao chegarem mais perto é que o cigano distinguiu neles uns conhecidos de Ourense. – Boas noites, como estás, Manoel? E tu, aí, Bertoldo, há quantas não te vejo! – e então indicou-lhes Aurita – Estamos a andar até Verín, eu e este meu amigo, o Joaquim, de Valpaços – ao que os galegos lhes falaram que haviam de ter cuidado, pois os homens da Lei estavam a andar pelas cercanias; era melhor que o cigano apagasse os lampiões ou os deixasse, como os deles, com o lume bem fraquinho.

 

De facto, mais adiante, a tatear no escuro, tiveram a certeza de que eram dois guardas a vir em sua direção. Eram também da Galiza e, porventura, estavam à caça dos contrabandistas que acabaram de passar. Aurora ficou aterrada – Ai meu bom Deus, agora sim, estamos perdidos! – Hernando, porém, acalmou-a. Deitaram-se no chão, cada um bem rente à parede do túnel e ele cobriu, a si e à sua assustada companheira, com umas enxergas tingidas de preto, que, já de previdência, havia trazido.

 

Prenderam a respiração. À rapariga, naquele silêncio de polo boreal, acudia-lhe o medo de tais policiais escutarem as mínimas batidas de seu acelerado coração. Pelo que conversavam entre si, no entanto, percebia-se que eram, na verdade, dois ladrões, fugitivos de alguma cadeia galega. Felizmente - e põe sorte nisso! - passaram sem olhar para o chão. Assim que já se os viam bem longe, os namorados prosseguiram em sua tumultuada viagem.

 

Logo se viram a outro descampado, já em solo galego, onde, apenas com muito esforço, podia se ver ao longe uma luzinha qualquer, como a dizer “por cá mora alguém”. Afastaram-se uns bons metros da boca do túnel, a buscar um sítio discreto e isolado, de modo que, fossem os da Lei, fossem contrabandistas ou até mesmo alguns pândegos, ninguém os pudesse, afinal, localizar.

 

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