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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D´Aurora

10.07.18 | Fer.Ribeiro

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  1. DESPERTAR.

 

Tão logo Aurora ergueu-se do leito, de manhã, foi ao jardim e, para expressar o que sentia, ao lembrar-se da noite do túnel (e a pensar apenas com o coração, certamente), pôs-se a plantar seus amores-perfeitos, de um tom bem vivo e colorido.

 

Encarnados.

 

À tarde desse mesmo dia, Zefa foi até ao quarto de Aurita, toda cheia de segredos, o que deixou a rapariga mais preocupada do que haveria de estar – Ai, que alguém por cá me tenha visto! Nem a Zefa! – e a barrosã disse, então, que tinha uma coisa muito grave para lhe falar. Aurora se pôs mais nervosa ainda. – Está bem. Que a boa ama diga logo tudo que sabe e tanto mais do que me tem a contar! A fiel criada, cheia de dedos e mistérios – É que ontem à noite... – A rapariga se pôs a empalidecer, mais e mais – Ontem à noite, o quê? Que aconteceu, minha boa Zefa? – a ama, enfim, desembuchou – O Alfredinho! Ontem à noite, ele esteve a dar mais uma de suas marotas escapadas.

 

Aurita continuava nervosa – Porque dizes tal coisa, minha boa Zefa? – Ora, pois, as roupas do menino, que ele pôs a lavar... então não vês que eu… pois quando fui separar o rol para a Manuela levar a São Lourenço, vi logo que elas estavam a um cantinho do chão, todas sujas de capim e molhadinhas do sereno. Além de algumas manchas de sangue... a ver que ele... ai meu bom Deus, será que o menino caiu e se magoou nos espinhos?! – Ora, pois, que, então... Aurora sorriu, aliviada. Ou quase. O que não lhe tirou todo o alívio, todavia, foi a enorme angústia que veio bordar pontos em cruz ao seu peito, nos dias posteriores à inesquecível aventura.

 

Advieram, então, as desventuras. Hernando não a procurou mais. Nenhuma mensagem em código, por obra e graça das alcovitarias de Manuela; nenhuma passagem do amante a cavalo, pelas janelas de sua alma; nenhum bilhete sob as pedras do jardim, o que fazia com que, a essa altura, Aurora falasse de suas mágoas aos ombros de Zefa e lhe contasse algumas coisas, por certo as menos segredáveis. Ficava, também, a se valer da boa ama para saber notícias do amado. Do pouco mais que pôde haver, no entanto, foi que ele andava agora a levar cavalos à Espanha e que, de lá, há muitos e muitos dias não havia retornado.

 

 Aurora, então, refletia – Ah Hernando, deitei-me contigo entre amores-perfeitos e, agora... em que leito de malmequeres me estás a jogar?!

 

 

  1. CRIME DE (DES) HONRA.

 

“CRIME MISTERIOSO EM VILELA SECA” – a nota do jornal “A Região Flaviense”, que Mamã estava a ler para Zefa, naquele agosto de 1923, logo chamou a atenção de Aurita:

 

“O assassinado casou com a noiva só no civil. Como mandam os costumes, deveriam esperar o casamento religioso para consumar o matrimónio. Certa noite, quando falava com ela, a parecer que ainda eram dois namorados, ela à janela da casa e ele do lado de fora, o moço foi atingido por vários tiros de pistola. Só algumas semanas depois, após eficientes diligências da Polícia local, descobriu-se que o assassino era um criado da noiva, a mando dela própria, com o qual ela já mantinha, há algum tempo, relações íntimas.”

 

 Flor exclamou – Ai que tonta, essa rapariga! – e, mais a ler:

 

“O noivo tinha sido avisado disso já depois do casamento civil e queria que a noiva fizesse um exame médico para provar sua virgindade. Era disso que, provavelmente, tratavam à porta da casa dela, à altura em que se deu o ato criminoso. Ela concedeu em dar ao noivo a prova de sua castidade, mas, ao saber que ia se dar mal, concertou com o amante o crime nefando.”

 

Essa notícia, que fez Zefa benzer-se – Credo em cruz! Santo nome de Jesus! – deixou Aurora, por vários dias, a andar com a cabeça em água.

 

(continua)

 

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