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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Jul18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FEITOS & FACTOS.

 

Na sala de estar, pela porta ora aberta que dava ao gabinete de Papá, ela podia vê-lo a escrever entre os tinteiros, o pisa-papéis e o mata-borrão. Lá estava o patriarca dos Bernardes, diante da sua escrivaninha de pés torneados, com duas gavetas, quatro escaninhos e uma tampa circular de ripas de madeira, que se embutia e sumia, ao abrir o móvel.

 

Aurora sabia o que todo pai, naqueles tempos e naquele cabo do mundo almejava. O homem que lhe viesse buscar a filha devia levá-la limpa até ao altar. Essa expressão, por si mesma, já estigmatizava como suja qualquer rapariga que fosse desvirginada antes dos esponsais e trazia à rapariga um pesado sentimento de culpa judaico-cristã. Limpa, sim, para isso Aurora deveria guardar-se e colocar, entre si e o amado, como fazia Aldenora, o medievo cinto de castidade de couro sem chaves, costurado com agulhas e linhas grossas por milhares de freiras, padres e beatas, em quase dois mil séculos seculorum de eclesiástica lavagem cerebral. Tudo isso, como diria o primo Rodrigo, baseado em preceitos de uma bíblica, sacrossanta e dogmática doutrina de santificação, tida como inquestionável e na qual ela, Aurita, ainda acreditava piamente, envolvida pelos mistérios da fé e devoção.

 

Guardar-se para que noivo, todavia? Afiançada para quem ou para o qual?! Diante do “jamais” e do “nossos pais” que o próprio Hernando, certa vez, já lhe fizera lembrar, agora perguntava a si mesma, com suas próprias palavras, algo que, ao modo metafórico, assim se poderia traduzir: já que os pais de ambos não haveriam de querer lhes conceder o genuflexório, a fim de que ela e o cigano se ajoelhassem diante de Deus no ato sacramental, porque não haveria de ser o cigano, realmente, o único de tão amado entre os homens, a abrir com sua máscula chave o tabernáculo de seu corpo?

 

Logo se via, porém, a despedaçar na realidade – Ai, Hernando, Hernandito, o que será de mim?! – e, ao estilo poético da mexicana Sóror Juana Inés de La Cruz, completava – “Que ardo de amor por ti”?! – pois o outono já estava a passar no descampado de seus sonhos, sem que, todavia, Hernando viesse ajudá-la, de novo, a colher folhas ao luar. Bem (ou mal!) lhe parecia que, agora, estava a se cumprir o dito do povo – Laranja espremida, bagaço fora!

 

(continua)

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