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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D´Aurora

07.08.18 | Fer.Ribeiro

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  1. REGRAS DA VIDA.

 

Com um grito baixo, contido, deixou o pretume do café ainda quente escorrer pelo chão da cozinha e… olhou, por entre névoas d’água, para Zefa de Pitões, ainda estarrecida pelo que a boa ama acabara de confirmar. Abraçou a ama, súplice e desamparada – ai, minha boa Zefa, que hei de fazer de mim?

 

Estavam apenas ela e a barrosã, com a criada a preparar o desjejum da família, ao som matinal do crepitar da lenha, no imenso fogão de ferro da casa. – Ai que eu já desconfiava de tudo, menina Aurora, se não sou eu mesma que estou sempre a lavar os teus paninhos, naqueles dias em que estás com histórias! – A boa criada lhe disse, então, que já estava de muita sorte se pudesse esconder, ao menos por alguns meses mais, a sua desventura. A que não lhe descobrissem o segredo nas lavagens do enxoval da casa, especialmente a Mamã que, às vezes, dava-se aos cuidados de ver se as filhas estavam desreguladas, distúrbio comum a numerosas donzelas!

 

Já perto do tempo previsto para as próximas regras, Aurita poderia valer-se da carne de porco, de coelho ou de outro bicho qualquer e empapar, com o sangue do animal, os paninhos daqueles dias, peças de uso individual, onde sobressaíam os monogramas de cada uma das meninas da casa, bordados por elas mesmas. Agora, porém, já lá se aproximava o terceiro mês e o terror lhe sacudia a alma e o ventre. Zefa, então, foi perentória – Ai, minha menina, se tens que contar aos teus pais, anda logo a falar com eles, antes que o tempo se venha a minguar! Mas conta primeiro à senhora dona Flor, que o coração de mãe sempre escuta melhor e, quem sabe... ai Jesus, perdoa mais depressa!

 

Nesse instante, Florinda ouviu aqueles sons de infelicidade provindos do borralho e veio até à cozinha, onde se deparou com uma cena de ópera. – Que tragédias são essas que estou a ver nesta cozinha, como se cá fosse um palco de teatro? – Não, nada se havia de ribalta, era a vida real que, em silêncios de soprano e suspiros de contralto, estava a se encenar sobre aquele tablado, por duas atrizes amadoras. Ditas assim porque ambas, cada uma ao seu modo, já haviam conhecido o Amor.

 

Sem esperar pela resposta – Porque estão a chorar, ó raparigas? Que está a se passar por cá? Ainda que eu não saiba de quê, já estou a perceber que se trata de algo muito sério. Mas o que pode estar a se passar assim, de tão sério, a uma menina como tu, minha Aurita? – e Mamã já se perguntava, então, que mal fizera o mundo à sua querida filha. Aurora enxugou os olhos, sentiu o ar lhe faltar por uns segundos, mas respondeu baixinho – Mamã, uma desgraça! – o que levou Florinda a sentir algo apertar-se entre os seios, forte e dolorido como os punhais cravados ao coração de Maria, nas representações da Mater Dolorosa – Ai meu bom Jesus! Diz-me logo o que tens, pois já estou a desesperar!

 

Aurora, após alguns segundos de hesitação – Eu... eu tenho uma coisa muito grave pra vos dizer, mas sem que vos faça sangrar o peito, nem que me deixeis, em nome de Deus, de perdoar. – então Mamã tremeu em cada uma de suas células, nutridas pelas hemácias da preocupação e os leucócitos do pressentimento – Vem cá, ó menina, vem ter comigo então à sala de estar. Se tiveres algo de ruim a dizer, que o digas logo, antes que volte a casa o senhor teu pai.

 

Encaminharam-se à sala aconchegante, onde, a uma parede, sobressaíam os azulejos pintados por um artista de Sintra e, nas outras, os tapetes com cenas bucólicas, trazidos de Madrid. Lá estavam também a máquina de costura (agora a White, “maravilha do século XX, em solidez e velocidade”, segundo os reclamos) e todos os demais instrumentos necessários para as artes e prendas que, às meninas de boa família, era de bom-tom aprender. A um canto, em destaque, o belo piano em que Aurora tocava as árias preferidas do patriarca, para o deleite deste e de todos os seus.

 

A mãe fez a filha sentar-se diante de si, ambas nessas cadeiras de embalo de cana-da-índia, com assentos almofadados, em padrão xadrez da Escócia. Estendeu-lhe as mãos ternas e pôs sobre a rapariga os plácidos olhos azuis, a um olhar que os azulados de Aurora não ousavam retribuir – Diz-me, filha, o que te dói? Sei que andas com o estômago aos frangalhos. Fala! O que há de tão grave a te afligir?

 

Dona Coragem chegou perto da rapariga, deu um adeusinho e se foi. Aurita pôs-se a passear os olhos pelo recinto, até pousá-los sobre um pequeno baú de madeira, desses embutidos de Mafra, com desenhos e arabescos na tampa, recamada com filetes de prata. Ali se guardavam as linhas de coser, os novelos para crochê, os círculos de encaixe para os panos a bordar, as agulhas de fazer tricô, os dedais e os ovos de madeira para cerzir as peúgas.

 

Respondeu, afinal – Não sei lá o que seja, Mamã, não estou boa. Parece que andei a comer alguma coisa que não me soube bem – Ora, minha filha, isso não há de ser nada. Até pareces a Adelaide, a fazer dramas. Mas não, não chores! Com essas coisas de saúde, nunca se brinca. Vou falar com o teu Papá, a ver se o bom doutor Fagundes vem te examinar.

 

Aurora suplicou, quase a gritar – Não, não, ele não! Quer dizer... faz-me um chá de camomila. Não precisa chamar o doutor Fagundes! – Mas que é isso, filha? Há que chamá-lo, sim, estás a ver! – e logo saiu a pensar em como mandar recado ao velho médico, amigo da família, o único a quem o Papá se deixava confiar, para que visse e, se necessário, tocasse o corpo das filhas e de sua Flor, ainda que ao nível da ginecologia da época.

 

Pobre Aurita! O caldo da vida, que já não era verde e até madurava, com amargos jilós ao invés de batatas, estava prestes a entornar.

 

(continua)

 

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