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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. REGRAS DO MACHO.

 

Como naquela despedida, aos quinze anos de idade, a rapariga pediu a Zefa que corresse até Hernando e o instasse a procurá-la. Havia de ser nessa mesma noite, ao sítio de sempre. Deixou aberto o portão dos fundos e, ao ver o moço, atirou-se lhe aos braços – Mas o que tens, brasilita? – e ela, direta – Estou prenha. Prenha de ti, ai que me socorras senão morro, eu e o ciganito que me puseste cá dentro. – ao que ele afastou-a de si, bruscamente – Ah, rapariga, não sei o que faria, se pudesse, para que essa asneira nunca tivesse acontecido! Portanto, que estás a querer que eu faça? – Fala ao meu Papá, caso-me contigo. – Mas casar-me agora, a essa altura da vida?! Estás a ver que nem contigo, nem com qualquer outra!

 

“Nem com qualquer outra”! – Isso lhe doeu mais do que a própria negativa, mas suplicou – Então foge comigo, vamos viver a Ourense, a Santiago de Compostela ou até mesmo, por Deus, junto aos teus parentes na Andaluzia! – Estás louca, mulher! Aqui é a minha vida, o Paulino está a noivar e já segue carreira na política do Concelho; a minha irmã tem o marido e os filhos para se haver com eles; só me resta a mim de filho para cuidar da mãe, da casa e ainda ajudar meu pai na loja e nos cavalos.

 

Essa resposta deixou-a mais desesperada – Então me diz o que hei de fazer, Hernando, que já nem sei de mim e a minha cabeça… – sua cabeça estava a ponto de estoirar, como se fossem as salvas de canhão do Forte de São Neutel. E eis então que o rapaz, de repente, embora ainda se mostrasse carrancudo e resmungão, concertou consigo que, na Sexta-feira Santa, haveriam de fugir durante a procissão do Senhor Morto. Depois haveriam de se acoitar em algum lugar seguro, onde não lhes soubessem de pronto, tanto os dela quanto os seus.

 

Abraçou-a bem forte e a beijou, como se o coração dele continuasse a arder, junto com o dela, ao crepitar da paixão. Isto a fez voltar a crer – Ainda me amas, não é? – ele acenou com a cabeça e desapareceu, por entre os chorões do terreiro vazio que margeava a Quinta, enquanto Aurora punha-se a lembrar a conversa que tivera com Adelaide, a uma das visitas da viúva, depois que esta retornara de Paris.

 

 

 

  1. REGRAS CIGANAS.

 

A ocultar milagres e a falar só do santo, a rapariga contou à açoriana de seu intenso amor pelo cigano e ela – Conheço esse tipo! – a omitir também que, por uma única vez, o gajo lhe adentrara a casa pelos fundos, para com ela jogar cartas, mas ela o pusera no rol daqueles que em nada a impressionaram. Apesar das tentativas em mostrar suas habilidades no carteado, o enfatuado rapaz saía-se melhor nos bluffs do pôquer, o quê, de resto, sabia fazer muito bem na vida e com as mulheres – É um bon vivant , não há de casar tão cedo. E de mais a mais, se o fizer, há de ser com uma rapariga da mesma tradição.

 

Adelaide explicou, então – As mulheres ciganas obedecem a rígidas normas de comportamento. Após as bodas, as recém-esposadas têm que passar pelo teste de virgindade, quando senhoras idosas do clã vão comprovar se há sangue nos lençóis ou na camisa de dormir da rapariga. Os casamentos são marcados para um tempo que coincida com o provável período fértil da noiva, pois a propagação de seu povo é fundamental. – Concluiu – Portanto, os pais dele jamais vão gostar de ver o filho casado com uma gajina. E sabes porquê? – ela própria respondeu – Terias muitas dificuldades para transmitir, aos miúdos, ao menos o essencial das tradições de sua gente. Ora, pois, que essas coisas... quem é que as transmite, afinal?

 

Aurita completou – As mães ciganas! – ao que Dedé vaticinou, solene e teatral – E ai de vós, minha menina, se puserdes o anel ao dedo antes que o padre benza as vossas mãos! Os rapazes ciganos são bem livres para se entreterem com as mulheres – e olhou incisiva para a rapariga – principalmente as não-ciganas. Eles podem “pôr a carroça adiante dos bois”, o quanto quiserem, mas quando uma rapariga de seu clã não conserva a virgindade até casar, ela perde toda a possibilidade desse casamento. E mais, perde todo o respeito da família.

 

Aurora argumentou – mas não é assim, também, entre nós, os não ciganos? – e Adelaide – Sim, estás a ver que sim, ao menos aqui em Chaves, neste cárcere de grades invisíveis em que vive a maior parte das mulheres. – Exaltou-se então, como nunca – A começar pela nossa Santa Madre Igreja: as mulheres são obrigadas a cobrir de véu a cabeça para ir à Missa, os homens, não; os homens celebram missa, podem ser bispos, papas, enquanto as mulheres... Os curas podem ter suas “comadres” e “afilhados”, mas saibas que mataram Joana, a única papisa da História, quando ela se revelou fêmea e deu à luz um bebé, em plena procissão no Vaticano!

 

A açoriana suspirou – Ah, os homens! São eles que fazem as leis, que fazem cumprir as leis, são eles que se consideram, enfim, os donos do mundo! – Chegou-se mais ao ouvido da rapariga – Embora eles sejam, em outras demandas, os nossos “ai-jesus”! Mas esse louvor, realmente, nós só podemos dar àqueles que aprenderam, desde cedo, de preferência com alguma de nós, mais velha e experiente, como se deve plantar e colher melhor, na horta de uma mulher! – E, a baixar ainda mais o tom, ao sentir Florinda aproximar-se – Em nossa sociedade, minha Aurita, as mulheres só são um pouco mais livres em algumas poucas condições: solteironas órfãs e sem família, a viverem do seu trabalho; viúvas sem peias e com algumas posses deixadas pelo marido; algumas atrizes e bailarinas, quando vivem restritas ao seu mundo de artistas; e as meretrizes, é claro. – o que fez Aurora enrubescer – Tia Dedé!!!

 

Adelaide concluiu – É a vida, menina! Digo-te mais, as meretrizes só são livres enquanto não aparecem os rufiões. E as solteironas e as viúvas, melhor ficarem sozinhas, como eu. Pelo menos aos olhos da sociedade. Na rua, tento sempre me comportar como manda o catecismo, mas assim que entro na minha casa, sou eu que dou a bênção para o meu rico lar. E sou eu que a mim mesma me abençoo – o que completou a rir, gostosamente – sob a santa proteção de um fradinho maroto, no pátio lá da entrada e sempre com um sacristãozinho de carne e osso, à disposição, para as minhas missas profanas... – frases que levaram Mamã a exclamar, chocada, pelo que acabara de ouvir – Dedé! Que sacrilégio!!!

 

(continua)

 

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