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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. JOANA DA AZENHA.

 

O meio mais próximo de transporte para o éden podia ser concertado com a velha Joana da Azenha, que morava com sua filha a uma casita de pedra, na estrada que vai dar à Galiza, perto da capela de São Bento. A casa, se hoje ainda a vemos de pé, em abandono e bastante maltratada pelo tempo, não menos estava do que isso, àquela altura.

 

A Azenha nada falou, nem boa-tarde. Apenas mandou, com um mero gesto, as duas entrarem. As três mulheres ficaram em silêncio. Um rosto de rapariga jovem, mas feio e triste, apareceu por entre os panos desbotados de uma cortina, que servia de porta de acesso ao resto da casa. A um aceno da velha, a moça bexiguenta trouxe uma bacia de alumínio, uma chaleira de água fervendo e uns panos que, por sinal, pareciam bem lavados – Venham! – e as quatro mulheres passaram a um quarto mui pobremente mobilado, com uma cama a que faltava um dos pés, substituído por alguns tijolos. Aurora deitou-se sobre uns lençóis que, estes sim, não pareciam bem lavados há muito bom tempo. Expunham-se manchas antigas, de aspetos diversos e que as águas e os esporádicos sabões não conseguiram apagar.

 

Zefa dissera à sua dileta menina que esse ato seria bem mais seguro e cómodo, se o fosse fazer ao Porto, com algum médico dedicado a esse mister, ainda que, obviamente, de modo clandestino. Que motivos argumentar, porém, para fazer tal viagem, apenas em companhia da criada? Além dos seus alfinetes e de um pequeno empréstimo que a Zefa lhe concedera, a desfalcar de seus parcos guardados, o manhucinho de moedas só daria mesmo para cair nas mãos (ou garras) da Azenha. Não lhe restava, portanto, senão valer-se da suposta experiência dessa velha ex-parteira, que perdera o status profissional e já estivera hospedada na prisão de um concelho do Alentejo, por causa dessas mesmas práticas de agora. O que Aurita não sabia é que essas funções de Joana já eram benditas por umas e amaldiçoadas por outras, dentre várias mulheres casadas e solteiras de todo o concelho flaviense, que vieram render-se aos préstimos da mal encarada senhora. E mais: a um número bem maior do que se poderia supor.

 

A velha valeu-se de um caneco de louça barata, já meio desbeiçado, e lhe deu a tomar uma beberagem estranha, em que talvez se misturassem pernas de sapo das ilhas de São Tomé, filetes de cobra das matas de Angola e infusão de bichos peçonhentos de Moçambique. Do que seria mesmo certo compô-la, todavia, seria uma poderosa cachaça do Brasil. Colocou depois entre os dentes de Aurora um lençol retorcido, que a cliente deveria morder bem forte, o quanto fosse necessário. O golpe (quase) mortal adveio quando, já prestes a levar a pobre rapariga ao desmaio, Joana pediu a Zefa que lhe ajudasse a atar os pés e as mãos da embaraçada às quinas da cama. Para citar uma expressão da época, o piorio!

 

Aurita lembrou-se então da pobre Anabela, quando viu, com os olhos esbugalhados, aproximar-se de si a velha, com alguma coisa estranha nas mãos. Algo que lhe parecia enorme, tão apavorante quanto as espadas dos irmãos Garcia Lopes a executar os mouros, apesar de estes, como reza a lenda, pedirem clemência e rendição.

 

De repente, um choro de bebé ecoou dos fundos da casa, o que deteve a Azenha e esta foi até à porta do quarto resmungar – Ó raios cagados de mulher, anda logo a cuidar dessa criatura, antes que me faças aborrecer e te mostrar os meus coices! – e, por essa mesma porta entreaberta, Aurita viu passar a filha da velha, a tentar acalmar, com um biberão, um miúdo ainda tenro, com apenas alguns meses de nascido.

 

A um sus repentino, Aurora pediu a Zefa que a desamarrasse, levantou-se da cama, arrancou o lençol de entre os dentes, tirou da bolsinha uma parte do dinheiro que trazia e os pôs nas mãos da Azenha. Esta apenas balançou a cabeça, a dizer – Ora pois, portanto, tem que ser, tem que ser, se queres assim, pois assim está, tu é que sabes – enquanto Aurita agarrava as mãos de Zefa e saíam ambas a correr, celeremente, de volta à Estrada do Raio X.

 

 

(continua)

 

 

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