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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CERIMÓNIA DO CHÁ.

 

À noite desse mesmo dia, quando todos dormiam, Alfredinho esgueirou-se a bicos de pés para trás do biombo. Passou por um belo jardim, onde mulheres de quimono faziam a cerimónia do chá. Uma delas até sorriu, a lhe estender uma chávena de fina porcelana e ele agradeceu-lhe com um olhar maroto. Outras duas o conduziram a um ambiente ornado de lanternas e flores de cerejeira, onde o aguardava uma bela gueixa, a quem abraçou como um samurai sedento de carinhos, em uma cena de Nô ou Kabuki, porém mais picante do que os singelos roteiros originais.

 

Iniciou-se, então, uma cerimónia do chá, mas de tisanas bem outras, que se repetiria por muitas noites, pois “a gente se acostumando, já não quer senão daquilo”, até que… até que o médico da rapariguinha, pasmo em seus muitos anos de ofício, dissesse à mulher do Gomes que algo de muito milagroso estava a se passar com a cliente. Na verdade ela ficara, mui rápida e efetivamente, curada de um mal que ele sequer pudera diagnosticar – Talvez uma alergia, de causa desconhecida – pois ao clínico não alcançava ainda a existência de certos sintomas, cujos males sabemos ser, atualmente, de fundo psicossomático.

 

Quando partiu de volta a Vidago, Alice carregou na bagagem algo mais entre as suas carências de mulher. Saudades. Como Aurora, ela também mergulhava em um sentimento de amor por alguém que tinha o mesmo curso das águas do Tâmega, ou seja, uma só direção, pois quanto ao rapazote, este apenas se preocupava com o que faria o Gomes, o que diria seu pai e, enfim, que maçadas lhe trariam as consequências dessa atitude impensada. O menino dizia a si mesmo – Ora, Alfredo, só podias estar mesmo viradinho do miolo, a ponto de fazer o que não devias, te meteres nos assados com essa rapariguinha! Agora é que são elas! Mas… tinha que ser! Foi! Melhor, meu caro, é não te deixares ferver em pouca água. Espera e vê, com muito jeitinho, pra que rumo te vai soprar o vento.

 

O vento não demorou a soprar. Alfredo voltava do liceu, quando viu Papá à sua espera, ao pé da escada lateral. João Reis começou solene – Senhor Alfredo! Temos cá uns ís, para lhes pôr os pingos! – mas logo se desfez da formalidade – Ó pedaço de asno! Não achas que já estás bem crescidote para reloucares desse jeito, desonrar a casa onde vivem tua mãe e tuas irmãs, a ponto de levares à perdição uma rapariguinha que veio cá alojar-se, sob a nossa proteção e lhe dares “a esmola antes do padre-nosso”? Antes, porém, que João Reis lhe chegasse bordoadas às costas, tratou logo de dizer – Eu caso, Papá, eu caso! Oh, Papá, me perdoa, fui um tonto, eu sei, perdi a cabeça, mas pode mandar dizer ao senhor Gomes que me caso com ela, meu pai, está bem que me caso! – e para já correu até Mamã, a se refugiar no regaço da mater amorosa, mater compadecida e agora, mater inconsolada.

 

 

  1. CEIA SEM CHÁ.

 

À ceia, em silêncio, ouviam-se apenas alguns talheres a tocar nos pratos, uns de leve e intermitentes, outros nervosos e sem parança. Ao final, Papá disse baixinho, à Mamã, que logo se mandassem preparar os banhos na Madalena, convidassem somente os parentes mais chegados e, sobretudo, não se falassem em copo d’água. Tudo haveria de ser simples e rápido, apenas com os cumprimentos a se darem lá mesmo, à sacristia.

 

Antes de se recolher ao seu gabinete doméstico, Reis olhou para a filha e lhe bateu de leve nas mãos, a um gesto de carinho, tão inusitado quanto imprevisto – Ainda bem que és mulher, minha Aurora e não estás a sair por aí, atrás de uns rabos de saia e a me dar umas maçadas, como o teu irmão. Se bem que já estás à altura de arranjar um bom marido. Se não o fizeres, veremos nós o que fazer. A propósito, tua mãe m’o disse que não andas lá muito bem de saúde. Nosso querido doutor Fagundes está a voltar por esses dias a Chaves e vai examinar essa menina, a ver se já não está a chegar em breve algum outro Alfredinho por aí... Vamos pedir, ora pois, que te veja também e a todos de casa, para sabermos a quantas anda a saúde aqui na Quinta.

 

Aurita ficou imóvel, lívida, sem saber como disfarçar. Salvou-a, em boa hora, a intervenção de Arminda – Papá, Papá, olha cá, olha só que lindo mimo a Tia Adelaide me deu! – e mostrou um estojo com guarnições de prata na tampa e um forro aveludado no interior, contendo pentes e escovas de madrepérolas.

 

(continua)

 

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