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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Nov18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PUNIÇÃO.

 

Há tempos não tão distantes, iriam fazer Aurita expiar seus pecados, em companhia de outras jovens mulheres: as que deixavam de ser donzelas, sem casar; as adúlteras; as meninas que se davam a práticas íntimas com outras meninas e que, nem aos murmúrios mais privados, poder-se-iam nominar; ou, ainda, as filhas simplesmente rebeldes e sem qualquer controlo possível do poder patriarcal. Enfim, todo tipo de mulheres que o contexto social considerasse moralmente perdidas, tal como agora a ela, Aurora Bernardes, estava a acontecer.

 

Papá a mandaria ao convento de Santa Clara, em Coimbra, na outra margem do Mondego. Ali a irmã faria os votos e se deixaria enclausurar, passando a integrar o harém das esposas de Cristo, tão logo viesse a entregar, à roda de algum outro mosteiro, o fruto de seu amor proibido. Atualmente, porém, eram os anos Vinte. Mesmo em Portugal, ainda preso a arraigadas crenças e tradições, os tempos eram outros. Vivesse ela nessa mesma Chaves, ao tempo do convento que havia entre as colinas do Castelo e a Pedisqueira, onde, anos depois, viria a funcionar o atual Liceu!

 

Esse mosteiro fora construído, a meados do século XVII, por um fidalgo de Chaves, Francisco de Castro Moraes, a fim de enclausurar suas duas filhas em uma comunidade religiosa. Nesse convento de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecido como o Convento das Freiras, o silêncio era absoluto. Sequer havia rótulas no locutório. Na portaria, de onde ninguém passava para o interior, senão para nele isolar-se do exterior mundano, havia a roda monástica tradicional que era, como descreve um cronista anónimo, “um cilindro oco de madeira, encaixado em estreito postigo que, abrindo, girando no seu eixo e tornando a fechar, deixava passar mantimentos ou outros objetos que as regras da Ordem permitiam ser introduzidos ou retirados do convento”.

Talvez nesse mosteiro de Chaves, como em vários outros claustros, também ocorresse o facto de muitos citadinos irem deixar à roda, tão logo acabassem de nascer, os filhos enjeitados. Era também por esse rústico artefacto que algumas freiras, as mais privilegiadas, podiam conversar com algumas senhoras da vila, sob a permanente vigilância de uma madre-rodeira. Esta tinha a rígida função de, como sentinela, jamais permitir que algum homem ousasse aproximar-se das religiosas, nem que essas irmãs e as damas de fora ficassem a cavaquear sobre assuntos profanos. Sabe-se lá se, com alguns mimos ou discreto suborno, não se trocassem mexericos sobre pessoas da vila, recadinhos amorosos de esperançosos pretendentes, mensagens de amantes ansiosos pela libertação da amada... Talvez algumas dessas “senhoras” do lado de fora da roda fossem, até mesmo, cavalheiros travestidos para os fins colimados.

 

Como tantos outros d’antanho, o convento surgira e continuara a ser, por muito tempo, uma casa de recolhimento para meninas que se rebelavam contra o jugo paterno e que, com um vultoso dote, embolsado pelas freiras, eram envia das para o claustro a fim de se confirmar o seu adeus ao mundo, onde ficariam para sempre enclausuradas em uma daquelas celas com janelas estreitas, que pareciam o óbvio: grades de uma prisão. Enterradas vivas, sobreviviam entre preces e penitências, sem que, muitas vezes, nem mesmo a família viesse a saber se a sua freira já tinha morrido.

 

Assistiam à Missa no Coro com um espesso véu ao rosto, sob iluminação fraquíssima de velas e, como diz o referido cronista, ficavam “separadas dos fiéis por estreitíssimas rótulas duplas, de modo que as pessoas de fora só viam confusas sombras, sendo impossível identificar qualquer uma delas. Quem passasse perto do convento, a algumas horas do dia, podia ouvir a salmodia diária, um cantochão monótono e fanhoso, que encobria o frescor da voz das noviças e das freiras ainda jovens, a fim de que os profanos, nem de ouvido, pudessem reconhecê-las. Se alguma esquecia de cantar pelo nariz e soltava a sua voz argentina, ao natural, as outras monjas estremeciam de pavor e a madre abadessa, na mesma melopeia do cantochão, cheia de severidade, remuneava para a insolente, num tom pseudocaridoso, o imperativo aviso: ´fanhe, minha irmã, fanhe, pois isso que estais a fazer não é da nossa regra’ ”. (Ou seja, não estava em conformidade com as regras dessa ordem monástica).

 

Ainda bem que, ao menos para as duas filhas de Castro Moraes, houve um final feliz. Não ficaram muito tempo enclausuradas e saíram para casar com os bem-amados, ainda que tal fosse contra a vontade do pai. Tantas e tantas outras jovens, porém...

 

 

A tais citações de Aldenora, Mamã exclamou horrorizada – Mas o que estás a contar, minha filha? Isso lá são coisas que se diga?! Nem mesmo a pensar! – e pouco depois, mais calma, Nonô virou-se para Florinda e lhe disse, bem firme – Segredo, Mamã! Temos que guardar tudo isso no maior segredo, antes, durante e depois que essa criança venha ao mundo.

 

Ao fazer menção, porém, de se encaminhar aos aposentos de Aurora que, a partir dessa noite, passaram a ser de uso apenas da filha desonrada, Florinda impediu-a – Deixá-la em paz, menina! Ela já sofre em demasia. Arrependida já está, por certo e assim há de ficar, por muito tempo – arrematou então, com a máxima severidade – Não somos Deus nem juiz para punir ninguém!

 

(continua)

 

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