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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Jun19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CHAVES DA VIDA.

 

Chegou setembro. Além de tudo que lhe doía n´alma, outras dores vieram fazer Aurita sofrer bastante, ainda que por uma causa prevista e natural. Começaram a lhe apertar as contrações do parto e, como era usual em toda a Chaves, chamaram uma parteira experiente, com muitos cordões umbilicais já cortados, em seu currículo de melhor profissional do Concelho. Era a senhora Maria dos Anjos, cujo nome não condizia lá muito bem com as suas funções, mas era excelente parteira e, em todos os seus anos de aparadora de bebés, poucos anjinhos mandara ao Campo Santo.

 

Apesar de entregarem, a essa vivida porteira do Mundo, as chaves de uma tão preciosa vida a desabrochar, os da casa puseram-se a rezar preocupados, inclusive o Papá que, em silêncio, dizia palavras de súplica ao Bom Jesus de Matosinhos. Ao frigir dos ovos, até Aldenora e Lilinha se desfizeram em lágrimas e esqueceram todos os infortúnios que a conceção desse bebé causara a todo o clã. Desmediam-se agora em preces por ele e pela própria e desatinada irmã, para que tudo viesse a bom termo, na santa paz de Deus e a felicidade geral daquele lar.

 

Lá pelas tantas, o parto complicou-se e a dos Anjos disse a Florinda que estava a perder a mãe. Quanto à criança, nem poderia saber se ela, a parteira, não acabaria naquela noite a fazer jus ao seu nome, até então não condizente. Visivelmente nervoso, Reis instou a Maria de Tourém que corresse à casa do cocheiro e este voasse com o landó, a buscar o doutor Abel Fagundes. Enquanto isso, discretamente, a boa Zefa, conforme aprendera ainda mocinha, punha-se a defumar a parturiente por baixo da cama, com penas de perdizes e a murmurar uma oração, que trazia de cor desde sua aldeia – “Nossa Senhora a m’ ouvir, abra a porta a quem quer sair!

 

Apesar de suas vivências, ciências e experiências, o médico não se furtou algumas vezes, durante os procedimentos, a trocar ideias e a confabular com a velha parteira. Chegaram felizmente a bom termo, concedendo à parturiente o milagre pelo qual Nossa Senhora do Bom Parto, a grande dama invocada, já estava devidamente habilitada a realizar, graças aos incessantes e incómodos apelos que, diante do oratório, faziam arder com cera quente os seus delicados ouvidos.

 

Ao profundo silêncio daquelas paragens, um choro de bebé marcou sua presença em Chaves, anunciando as primeiras emoções de uma criança em sua chegada ao mundo. Espalhou-se pelo casarão, pelo pomar, pelo Raio X e por toda aquela parte da veiga já povoada.

 

Maria de Fátima, com seus encantos infantis, vinha trazer ao buraco negro do atual universo da quinta, as únicas alegrias consteladas que aquele inferno astral não poderia tragar.

 

 

 

  1. SENSAÇÕES PESSOAIS.

 

 

Mareado, em consequência de umas pândegas na véspera, Hernando acordou por alguns instantes e começou a sentir um princípio de ternura por aquela criaturinha que acabava de vir ao mundo. Logo espantou de sua mente, todavia, tais insetos sentimentais. Preocupou-se apenas em juntar o polegar ao indicador e expulsar, com um piparote, o incómodo mosquito que, a essa altura e de verdade, girava em torno de suas orelhas. Tornou a dormir, não vindo mais a se lembrar do que escutara, sonolento, ao meio da madrugada.

 

Dona Mariazita, porém, sentiu-se comover com aquele serzinho, que ela sabia ser mais um dos netos e o primeiro filho de seu amado Hernando. Desgostava-lhe que os factos fossem assim e assim tivessem de ser, de sorte (ou azar) que essa criança gajina, sangue de seu próprio sangue, não viesse a ter, de acordo com os ritos próprios, um batizado ao feitio de seu povo. Cristão sim, mas bem mais alegre, pois à moda cigana.

 

Gostava também que essa criança, ao receber a primeira mamada e por ser a mãe gajina, coubesse a ela, Mariazita, conforme a tradição, dizer ao ouvido do bebé o seu nome secreto, em Caló. Individual e único, ela nunca iria revelar essa alcunha, nem mesmo ao neto quando crescesse, nem a ninguém, mas sempre o repetiria para si mesma, quando estivesse a rezar por aquilo a que fora dado: proteger a criança dos maus-olhados e de outras adversidades.

 

Enquanto isso, na Grão Pará, todos se enterneciam em volta da recém-nascida, exceto Papá. Embora estivesse a morrer por dentro de emoção e curiosidade, não pediu que lhe viessem mostrar a neta, nem foi ter ao quarto de Aurora, ao menos para perguntar quão bem ou quão mal a filha estava. Após Florinda mandar Zefa levar um caldinho quente à recém-parida e Maria servir um bem consistente repasto à parteira e ao médico, Reis agradeceu a estes dois e os remunerou regiamente. Dava assim por cumpridos, enfim, os seus deveres de patriarca. Recolheu-se ao leito, sem ao menos esperar por sua Flor.

 

Escondeu, entre os lençóis, a alegria de tudo ter corrido bem, sob as bênçãos e os cuidados do bom Deus e também dele, o verdadeiro deus que estava ali, a administrar com pulso forte as suas lojas, seus bens e a vida de todos os seus. Isso tudo deveria ser, para os mais, algo digno de admiração e elogios, mas os outros não pensavam assim. Sobre tanto e a quanto disso, nada e ninguém se expressava. Todos achavam que ele estava apenas a cumprir com o seu dever e eram muitas as bocas que, ao menor deslize seu ou de algum dos seus, como ocorrera à infeliz Aurita, logo estariam prestes a repreendê-lo, classificando-o como um péssimo chefe de família.

 

 

  1. “DOZE PALAVRAS”.

 

Algo símile a uma depressão pós-parto, e tudo o mais de que Aurora se afligia, acabaram por levá-la a ...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

 

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