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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Dez19

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

  1. BATINAS RASGADAS.

 

Certa manhã de sábado, Afonso e os companheiros partiram até às margens do Mondego, onde já todos se viam com suas batinas, a cantarem canções alegres pelas estreitas ruas de Coimbra. Levavam, como principal bagagem, muitos quilos de esperança. Poucos dias depois, já estavam de volta. Dessa vez, porém, sem ao menos poderem cantar um triste fado. É que, dentre os rapazes dessa equipa de estudos, apenas o Tomazinho Varapau, filho do dono de uma farmácia em Chaves, é que se houvera bem nos exames, e estava a ganhar, assim, a aptidão para, daqui a alguns anos, queimar as fitas e se tornar um novo bacharel flaviense.

 

Tanto o rapaz vitorioso, quanto os demais colegas de Afonso, todos disseram lamentar muito por ele, que sempre estivera a parecer muito bem preparado para os exames. Alguém, no entanto, cogitou que os insucessos da família talvez perturbassem o rapaz de tal sorte que, ao chegar o tão ansiado momento, um misto de insegurança e impotência o abateu.

 

Ao ver João Reis a esperá-lo na Estação, Afonso atirou-se aos braços de Papá e chorou, copiosamente, sem ao menos pensar nos que estavam ao redor. Era a primeira vez que chorava em público, em toda a sua vida. Reis que, de ordinário, não era dado a demonstrar qualquer carinho para com os filhos, passou os braços de modo canhestro pelos ombros do rapaz e lhe afagou a cabeça. – Deixa estar... deixa estar... hás de tentar de novo.

 

 

Algumas semanas após esse facto, o rapaz procurou o pai ao escritório da Rua Santo António, a lhe dizer que não pretendia mais qualquer tentativa de ser admitido a uma universidade, fosse a de Coimbra, do Porto, Braga ou Lisboa, pois estava a querer mesmo era trabalhar no armazém da Rua das Couraças e juntar dinheiro para emigrar ao Brasil.

 

Pelas cartas do Pará que chegavam até Afonso, João Reis e Florinda já andavam desconfiados de algo que, finalmente, agora lhes era dado conhecer. O segundo da prole estava apaixonado por correspondência (similar ao que, no século XXI viria a ocorrer entre usuários da Internet, mas, àquela altura, sem a rapidez e outras características virtuais de hoje).

 

A correspondente era a prima Inezita, filha da Tia Nazica, parenta de Mamã por parte de pai, o aveirense das famosas bengaladas. A menina, pois, nascera e habitava com os seus em Belém do Pará. As cartas trocadas pelos primos, às quais se anexavam fotos de um ao outro, com belas dedicatórias, cartões postais de lá e de cá, folhas ou flores secas e perfumadas, demoravam quase dois meses a cair nas mãos dos destinatários (e se gastavam outros tantos mais, para chegarem as respostas). Era, pois, com uma disfarçada, mas percetível ansiedade, que Afonsito esperava a chegada do comboio que lhe trazia tal correspondência, com as sempre bem-vindas palavras da amada de Além-mar, em pacotes nos quais se incluíam também, por vezes, alguns doces de compota de frutas tropicais (“feitos por mim”, dizia Inezita).

 

 

  1. SENHOR CAZARRÉ.

 

De Além-mar também chegou a Chaves, na Primavera, um velho conhecido e freguês de Reis, lá no Pará. Era o senhor...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

 

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