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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Jan20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. REALEJO.

 

 

O verão chegou radiante, às margens do Tâmega e, aos domingos, senhoras passeavam com seus guarda-sóis, circundados por franjas e brocados. Rapazes e raparigas circulavam pelas orlas com as suas bicicletas. Os miúdos punham-se a brincar de jogos ao ar livre, ou arrebitar, até às nuvens, seus papagaios de papel. Os pescadores dominicais, com roupas coloridas e leves da estação, pareciam de longe um conjunto de manchas ou borrões multicores, como a um quadro de pintor pontilhista.

 

À exceção de Aurora, marginalizada em casa e a cuidar da Quinta, as irmãs foram com Mamã, Alice e a sobrinha gozar as delícias da estação. Postaram-se à margem esquerda do rio, próximo ao Jardim Público, onde estenderam sobre a relva uma toalha de xadrez encarnado e branco e algumas outras maiores, sobre as quais podiam deitar e repousar.

 

Não muito distante dali, um velho tocava realejo, a fim de chamar a atenção dos passantes para o seu adestrado Periquito da Sorte. A avezinha tirava com o bico uns papeluchos, nos quais se lia a buena dicha dos interessados. Aldenora foi até ao realejo e lhe saiu a seguinte quadra, que a levou a refletir sobre o mundo, por muitas e muitas vezes mais, além da ocasião:

 

          Goza a vida todo tempo

          que o tempo não volta atrás

          Quem hoje dá gargalhadas

          amanhã, já não ri mais!

 

Ao acabar de ler o papelucho, ergueu os olhos e viu, diante de si, um rapaz que a fitava intensamente. Há meses que ele não a via e ela, agora sem a máscara de carnaval, estava cada vez mais bela. O rapaz a mirava enlevado, como se diante de uma joia preciosa que lamentara perder, muito mais do que ao valioso cachucho atirado ao Tâmega. Mal ele começou a gaguejar qualquer coisa, porém, Aldenora devolveu o olhar por uns breves segundos, virou-lhe as costas e tornou para junto dos seus.

 

Disseram-lhe, então, que Sidónio atravessou a ponte, margeou o lado direito do rio e seguiu seu caminho, sempre a olhar para a bela flor que ele, com a sua covardia, deixara a correnteza levar para sempre.

 

Ao voltarem todos a casa, Nonô olhou para a outra margem do Tâmega, qual se esta fosse um outro mundo. Mundo dos fidalgos e damas da elite flaviense, ao qual ela talvez nunca mais tornasse a pertencer. Se é que algum dia o frequentara, senão por alguns belos e fugazes momentos.

 

Quando um dia pranteara esse amor contrariado e as deceções que o noivo lhe trouxera, Aldenora vira também escoar-se, da Galinheira à Pedra da Bicuda, o último ensejo para que ela, Lilinha e Arminda viessem a frequentar, com mais assiduidade, os ambientes elegantes dessa chamada elite. Se dela tivesse participado mais um pouco, talvez tivesse tido a possibilidade de encontrar outro pretendente mais firme e corajoso em seus propósitos e sentimentos… ou será que toda essa nata, melhor diria, toda essa malta, da qual Sidónio fazia parte, também estaria agora a lhe virar as costas?

 

Cada vida é uma vida, cada ser um ser. Compreendia, agora, que muitas coisas poderiam ter sido diferentes, para ela e as irmãs, se, mesmo antes dos insucessos de Aurora, o Papá não tivesse sido sempre aquele homem austero, quase um misantropo, arredio ao convívio social com as outras famílias de Chaves, a forçar as filhas, mesmo as emancipadas, a uma entediante clausura.

 

 

  1. BONS ARES.

 

Alfredo decidiu partir com Alice para Buenos Aires, onde um amigo galego, ex-companheiro de pândegas a Verín, estava a...

 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

 

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