Chaves D´Aurora
romance

- IRREVERÊNCIA, ADEUS!
O motorista atual de Dedé era um rapaz mais baixo, mais franzino e até alguns anos mais velho do que os valetes anteriores. Bicanço, bexigoso, era também aquilo que não se podia negar em dizer – um feio.
Florinda custou a perguntar, mas não resistiu – E o Manozé? – Anda a Lisboa, casadinho com uma pretinha da Guiné Bissau – Ele era bem mais simpático do que esse, agora, não é? – Ora, pois, era e é. – ao que, maliciosa – Também tinha muito mais jeito para os outros afazeres do que esse aí, percebes, mas... esse aí também tem seus predicados. – Mamã não conseguiu disfarçar a indiscrição – Esse rapaz, nas funções da casa… serve-te bem? – ao que Dedé, a entender o alcance da curiosidade da amiga – Para os precisos dele do dia a dia, sim e até para as minhas urgências, que agora são cada vez mais raras, porque a idade me chega e já não me atiro de caixão à cova, como antigamente. Sabes como é… agora estou igual a muitas esposas flavienses: é mais servir a ele do que ele a mim, percebes?
Tapou a boca de lado, com uma das mãos e baixou, o mais que pôde, o tom de voz – Esse aí, apesar dessa cara feia e da falta de jeito, é de uma fúria insaciável, abana e refresca os meus calores como se fosse um vendaval, um ciclone, um furacão – sussurrou – Pena que ainda não aprendeu a ser menos rapidinho e, portanto, só na terceira viagem é que eu deixo de ficar a ver navios em pleno Tâmega! Apressado come cru, percebes, mas se o rapaz se satisfaz, assim... – tornou-se séria, de repente – Esta vida é só dois dias. Bebe-se a água conforme o pote. – e logo voltou sua alegria – Ah, minha Flor, nem te conto: o Manozé vai ser pai! E já ficas sabendo o resto: vou ser madrinha do miúdo. Desta vez, no papel e na pia de verdade. Que o pequerrucho, até chegar a se pôr… já vou eu estar sentadinha e a fazer crochê, numa cadeira de vovó – então soltou uma risada escandaleira, como era de seu feitio.
Florinda sorriu, a experimentar um de seus raros momentos de descontração, embora a fingir que não percebia os olhares de reprovação que, a todo momento, lançava-lhe o marido. A certa altura, porém, levou aos olhos o lencinho de cambraia. – Essas pessoas queridas, cá na estação, e mais tu, Adelaide – Voltou-se para a cunhada, um pouco adiante – E tu também, Comadre Hortênsia! Ah, isso fala à gente! Obrigadinho, a todos vós! Ainda mais depois de… de tantas agruras que me souberam mal!
Adelaide ponderou então, comovida – Melhor, minha Flor, que o vento nos leve o chapéu, mas nos deixe a cabeça! Coisas de ontem, curam-se amanhã. Estejas bem, minha boa Flor! – e disse, então, as palavras que, em seguida, todos estavam igualmente a proferir e que mais pareciam as frases de um réquiem – Vão com Deus, meus entes tão queridos, para todo o sempre lembrados. Cá ficamos.

- TRÁS-OS-MONTES, ADEUS!
Após os últimos beijos e abraços, João Reis e os seus partiram rumo ao Porto. Assentada à cabine do comboio, Florinda...
(continua na próxima terça-feira)



