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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jun20

Chaves D´Aurora

romance


1600-chavesdaurora

 

 

  1. ADEUS, PORTUGAL!

 

 

No Porto, ainda teriam que ficar, por uma noite e um dia inteiro, em um hotel de luxo perto da estação de São Bento, na qual todos se viram extasiados com o átrio, revestido pelos belos murais azulejados de Jorge Colaço. Ao providenciar uma estadia de lords e ladies a um hotel de alta classe, enquanto aguardava o embarque no Hildebrandt, o patriarca anuviou-se de repente ao lembrar as profecias de Totonha e os seus próprios pesadelos. Um frio lhe desceu goela abaixo. Seriam talvez, àquela altura, os últimos e raros momentos dos três erres - riqueza, requinte e regalia - que, a si mesmo e aos seus, ele ainda poderia proporcionar?

 

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Estação de S. Bento - Porto

Aurora, que dissera a Hernando o nome desse hotel, sentava-se por horas a fio na luxuosa sala de estar, contígua à receção, a fingir que folheava revistas e jornais, mas com os olhos a se dirigirem, com frequência, à rua em frente. Punha-se vigilante, com os olhos a atravessarem o vidro pelo qual se via o exterior, ou diante dos imensos espelhos verticais de cristal do recinto, nos quais também se refletia a sua ansiedade.

 

Tal ânsia, porém, ao menos àquela altura, teve de ser contida pelas circunstâncias. Foi obrigada a se retirar do salão e a se recolher ao quarto, tão logo viu o Papá adentrar o recinto, a fim de ler os jornais do dia.

 

O assunto em maior evidência era o novo governo a se instalar no país, com a insurreição militar golpista que fizera triunfar, finalmente, o conjunto de forças reacionárias contrárias à República e ao progresso social. Unidas em torno de um objetivo comum reacionário, compunha-se de várias correntes, bem diversas: militância da Igreja Católica, nos púlpitos e fora dos templos, em sua constante cruzada contra o governo republicano; alguns setores monárquicos remanescentes; uma significativa parcela do exército português, que aspirava a um governo militarizado e à instituição da ditadura; republicanos da direita, que a tudo isso apoiavam. Toda essa malta conseguira, afinal, alcançar os seus objetivos políticos e civis, aos 28 de maio de 1926 e, infelizmente, devido ao contexto histórico e, sobretudo, económico, obter o apoio da maioria do povo, religioso e conservador.

 

Deixara de vigorar a constituição de 1911 e foram suprimidas as instituições parlamentares e liberais da república democrática. Em 1928, assumiria a presidência do país o general Fragoso Carmona, cargo no qual ficaria por muitas décadas, até sua morte (1951). As mãos de ferro sobre Portugal seriam, de facto, as do verdadeiro detentor do poder central, o senhor doutor António de Oliveira Salazar (1889-1970), que interpretava os fundamentos do catolicismo a um modo bem pessoal, tão beato, reacionário e fascista quanto o do Cardeal Cerejeiras. Esse alto dignitário da Igreja em Portugal aclamava Salazar, tal como o povo em geral, por ele ter implantado importantes diretrizes na economia do país. Inicialmente bem vistas, por seus acertos emergenciais, estas vieram a se tornar depois, no entanto, bastante questionáveis, quer pelos falhanços na ampliação e exclusão das camadas mais pobres, quer pela estagnação da produtividade em geral.

 

Diante de tudo isso, João Reis lembrou-se da proclamação da República no Brasil, um evento golpista e ditatorial. Murmurou então, para si mesmo – É, Reis, estás a ver que essas políticas, no fundo, tem suas nuanças, mas são como um cardume de sardinhas. Tudo igual.

 

  1. EMBARQUE.

 

As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar...

 

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Cais da Ribeira - Porto - Fotografia de Carlos Relvas

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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