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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Jun20

Chaves D´Aurora

Romance


1600-chavesdaurora

 

 

  1. EMBARQUE.

 

 

As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar aos carregadores do cais e despachar as bagagens na aduana, encaminharam-se todos ao andar da primeira classe, onde ficavam os camarotes reservados aos Bernardes.

 

A miúda ficaria junto com os avós, enquanto as quatro filhas iriam em outro camarote exclusivo. Quanto a Afonso, coube alojar-se em uma cabine, onde três rapazes brasileiros seriam seus companheiros de viagem. Estes se punham a manifestar, o tempo todo, a alegria própria dos jovens e logo fizeram Afonso desanuviar-se de qualquer má lembrança, exceto por uma: ironia das ironias, seus temporários convivas, daí a duas semanas, estariam voltando a Belém e a São Luís do Maranhão, com os diplomas de bacharéis oriundos de... Coimbra.

 

Ao ver esses moços, ainda com suas capas e batinas coimbrãs, Aldenora lembrou-se de António Sidónio. Recitou então, para si mesma, alguns versos do poeta João de Deus:

 

 

“Adeus, meu amor perfeito,

Adeus tesoiro escondido

E de guardado, perdido

No mais íntimo do peito.

 

(…)

 

No mesmo arbusto onde o ninho

Teceu a ave inocente

Se volta à quadra inclemente

 Acha abrigo o passarinho;

 

 

Mas eu nesta soledade

Quando em meus sonhos te estreito

Rosto a rosto, peito a peito

Acordo e acho a saudade!”

 

 

Como Aurora estivesse a passar perto de Nonô, àquela altura, acometeu, a esta, uma pequena maldade. Ficou a sussurrar, bem ao pé dos ouvidos da irmã, aqueles mesmos versos. Fazia isso agora, porém, a um modo áspero, irritante, desprovido de qualquer lirismo. Aurora, porém, como lhe era habitual, apenas baixou os olhos e se deteve imóvel, prisioneira de sua humilde expiação. Ao mesmo tempo, sorriu para consigo mesma, ao se dar conta de que, daí a algumas horas, estaria bem longe dos tormentos maldosos da irmã e de tudo o mais.

 

Tão logo percebeu que as irmãs já estavam a dormir, pois o paquete alemão só partiria ao amanhecer, deixou sob a nécessaire de Arminda três cartas: uma para os pais, outra para os irmãos e, por fim, uma bem especial para a pequena Fátima. Agasalhou-se o mais que pôde e colocou, em uma pequena sacola de couro, apenas o que viesse a precisar de imediato. Ia ao Sabe Onde e ao Sabe Deus, sem sequer abraçar sua miúda pela última vez, a medo de que a espada de Salomão cortasse ao meio, não a criança, mas ela própria, impedindo-a de tomar o caminho da felicidade incerta a que se propusera tomar. Ao passar, porém, pelo camarote dos pais, ouviu o chorinho da pequena Fátima. Para acalmá-la, Mamã cantarolava uma canção de ninar, com esses belos versos anónimos que o povo cria:

 

“Dorme, dorme, pequenina

que a mãezinha logo vem

Foi lavar os teus paninhos

à lapinha de Belém.”

 

Isso chamou-a aos cuidados de mãe. Escondeu a sacola, bateu levemente à porta e tomou a filha ao colo. Ao lhe oferecer o peito que Fátima, com os seus dois aninhos, ainda sugava com avidez, a miúda logo adormeceu. Aurora atirou-se então aos braços de Florinda, a chorar copiosamente – Perdão, Mamã, perdão por tudo! Perdão para sempre! – e a pensar que a rapariga lhe falasse apenas dos males sucedidos e que já não se podiam reparar, Flor disse apenas – Está bem, minha Aurita, deixa estar! Deixa estar, que tudo já lá se foi!

 

A menina ajoelhou-se junto ao pai, que lhe dera as costas e fingia olhar as águas pela escotilha – Pelo amor de Deus e da Santa Virgem, me perdoa, Papá, me perdoa! – Este, porém, calado estava, calado ficou. Aurora ergueu-se, fechou a porta da cabine, pegou a sacola que deixara ao corredor e tomou o rumo do convés. A aurora já se fazia evidente. O Sol estava prestes a se barbear, fazer suas abluções, vestir o fato, o colete e o sobretudo e logo sair de sua casa estelar para mais uma de suas radiantes jornadas, ainda que, na atual estação, menos aquecedora.

 

 

  1. ESPERANÇA.

 

Dentre os passageiros de qualquer classe do navio, Aurita era a única a enfrentar, àquela hora da madrugada e ao convés do vapor, o intenso frio de inverno europeu. Os tripulantes...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

fim-de-post

 

 

 

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