Chaves D´Aurora
Romance

- EMBARQUE.
As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar aos carregadores do cais e despachar as bagagens na aduana, encaminharam-se todos ao andar da primeira classe, onde ficavam os camarotes reservados aos Bernardes.
A miúda ficaria junto com os avós, enquanto as quatro filhas iriam em outro camarote exclusivo. Quanto a Afonso, coube alojar-se em uma cabine, onde três rapazes brasileiros seriam seus companheiros de viagem. Estes se punham a manifestar, o tempo todo, a alegria própria dos jovens e logo fizeram Afonso desanuviar-se de qualquer má lembrança, exceto por uma: ironia das ironias, seus temporários convivas, daí a duas semanas, estariam voltando a Belém e a São Luís do Maranhão, com os diplomas de bacharéis oriundos de... Coimbra.
Ao ver esses moços, ainda com suas capas e batinas coimbrãs, Aldenora lembrou-se de António Sidónio. Recitou então, para si mesma, alguns versos do poeta João de Deus:
“Adeus, meu amor perfeito,
Adeus tesoiro escondido
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.
(…)
No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente
Se volta à quadra inclemente
Acha abrigo o passarinho;
Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito
Acordo e acho a saudade!”
Como Aurora estivesse a passar perto de Nonô, àquela altura, acometeu, a esta, uma pequena maldade. Ficou a sussurrar, bem ao pé dos ouvidos da irmã, aqueles mesmos versos. Fazia isso agora, porém, a um modo áspero, irritante, desprovido de qualquer lirismo. Aurora, porém, como lhe era habitual, apenas baixou os olhos e se deteve imóvel, prisioneira de sua humilde expiação. Ao mesmo tempo, sorriu para consigo mesma, ao se dar conta de que, daí a algumas horas, estaria bem longe dos tormentos maldosos da irmã e de tudo o mais.
Tão logo percebeu que as irmãs já estavam a dormir, pois o paquete alemão só partiria ao amanhecer, deixou sob a nécessaire de Arminda três cartas: uma para os pais, outra para os irmãos e, por fim, uma bem especial para a pequena Fátima. Agasalhou-se o mais que pôde e colocou, em uma pequena sacola de couro, apenas o que viesse a precisar de imediato. Ia ao Sabe Onde e ao Sabe Deus, sem sequer abraçar sua miúda pela última vez, a medo de que a espada de Salomão cortasse ao meio, não a criança, mas ela própria, impedindo-a de tomar o caminho da felicidade incerta a que se propusera tomar. Ao passar, porém, pelo camarote dos pais, ouviu o chorinho da pequena Fátima. Para acalmá-la, Mamã cantarolava uma canção de ninar, com esses belos versos anónimos que o povo cria:
“Dorme, dorme, pequenina
que a mãezinha logo vem
Foi lavar os teus paninhos
à lapinha de Belém.”
Isso chamou-a aos cuidados de mãe. Escondeu a sacola, bateu levemente à porta e tomou a filha ao colo. Ao lhe oferecer o peito que Fátima, com os seus dois aninhos, ainda sugava com avidez, a miúda logo adormeceu. Aurora atirou-se então aos braços de Florinda, a chorar copiosamente – Perdão, Mamã, perdão por tudo! Perdão para sempre! – e a pensar que a rapariga lhe falasse apenas dos males sucedidos e que já não se podiam reparar, Flor disse apenas – Está bem, minha Aurita, deixa estar! Deixa estar, que tudo já lá se foi!
A menina ajoelhou-se junto ao pai, que lhe dera as costas e fingia olhar as águas pela escotilha – Pelo amor de Deus e da Santa Virgem, me perdoa, Papá, me perdoa! – Este, porém, calado estava, calado ficou. Aurora ergueu-se, fechou a porta da cabine, pegou a sacola que deixara ao corredor e tomou o rumo do convés. A aurora já se fazia evidente. O Sol estava prestes a se barbear, fazer suas abluções, vestir o fato, o colete e o sobretudo e logo sair de sua casa estelar para mais uma de suas radiantes jornadas, ainda que, na atual estação, menos aquecedora.
- ESPERANÇA.
Dentre os passageiros de qualquer classe do navio, Aurita era a única a enfrentar, àquela hora da madrugada e ao convés do vapor, o intenso frio de inverno europeu. Os tripulantes...
(continua na próxima terça-feira)



