Chaves D´Aurora
Romance

- PERDAS, PERDAS, PERDAS!
Ao retornar à cabine, Reis balançou a cabeça para a sua Menina Flor – Levou-a, o patife! – e Mamã, após dar um longo suspiro, abraçou-o e deu vazão ao pranto, como se fora uma ave que acaba de perder um filhote para os predadores da Vida. Ajoelhou-se e se pôs a orar pelo destino da filha desatremada. Ao mesmo tempo, rezou contrita por aquele doce pingo de gente ao seu lado, inocente de tudo à volta de si, a dormir tão plácida sob os cobertores de lã, entre os alvos lençóis, com apliques artesanais de panos coloridos, a formarem bichinhos, florezinhas, estrelinhas e que tais.
Ao ver o marido repor as luvas, o chapéu e o sobretudo – Para onde estás a sair de novo? Aonde vais, a essa altura, meu bom Reis? – mas ele tranquilizou-a – Vou só um pouquinho lá fora, pegar um ar fresco ao convés do navio. Gostava de fumar um pouco (e esse pouco seriam muitos e muitos cigarros, um atrás do outro). Talvez o frio que faz lá fora me esfrie cá essa caixa de fósforos na cabeça, que está aos raios de me acender todos os lumes e os ver explodir de uma só vez, como aos fogos de São João!
Ao passear pelo deque do Hildebrandt, o patriarca andou até perto da proa, encostou-se à amurada e se pôs a tentar distinguir o mar por onde, logo mais, ele haveria de singrar o seu destino. Certo e tão incerto, como os pélagos vorazes, em todas as suas comparações! A paisagem que agora se apresentava, todavia, aos olhos de João Reis, era apenas turvação, neblina, nenhum horizonte à vista, escuridão.
– Perdas! Perdas! Perdas! – explodiu para si mesmo. Vieram-lhe então à lembrança as palavras de Totonha, na estação dos comboios em Chaves. – Oh, céus! As profecias da velha sibila! Mas em que foi que eu errei na vida?! O que de menos ou demais eu fiz ou deixei de fazer, ao tempo certo?!
Ah, esse incómodo, importuno, impertinente companheiro de viagem, o medo! Não da morte prenunciada para algum migalho de tempo a mais, pois todos nós iremos um dia, afinal, cair nos braços desse Morfeu eterno e mergulhar no sono fatal. Seu maior temor era da miséria, sobretudo para os seus. Levava joias de ouro e prata da mulher e das filhas; óleos de bons pintores, enrolados em canudos de papelão e alguns outros bens vendíveis; papéis com valor cambial, além de muitas libras esterlinas a serem trocadas no Banco do Brasil. Para as filiais de casas bancárias portuguesas no Pará, já havia transferido quase todo o património financeiro que amealhara, graças à alienação de seus bens em Chaves.
Tinha condições, portanto, de reconstituir suas posses e reconstruir no Brasil, com segurança e conforto, sua vida e a de toda a família. O que temia, então, senão as incertezas do mundo? – Totonha de Murça... aquela velha é um opróbrio ambulante! – cismou e, de raro, sorriu. Logo o riso se desfez, ao pensar que ele já não era mais o mesmo, aquele que, no século anterior, partira ao Além-mar e, graças ao seu tino comercial e perseverança, fizera por lá ótimos negócios. Hoje, entretanto, era um homem sem ânimo para lutar contra as suas próprias fraquezas, todas estas pelas quais se via dominado. As adversidades da vida o abatiam como a um pássaro migratório que se perdeu da revoada e ficou a voar sem direção.
- PERDIDO!
Graças à perda do monopólio da borracha, a Amazónia era agora uma região de economia em decadência, que só viria a se reerguer várias décadas após. Bastava-lhe dedicar-se a ...
(continua na próxima terça-feira)



