Chaves D´Aurora
Romance

- PERDIDO!
Graças à perda do monopólio da borracha, a Amazónia era agora uma região de economia em decadência, que só viria a se reerguer várias décadas após. Bastava-lhe dedicar-se a alguns ramos de negócios inoportunos ou que não os conhecesse bem; viesse ele a confiar e ser vítima de sócios corruptos, inescrupulosos, velhacos, que lhes roubassem toda a parcela de seu capital; e, mesmo sujeito a esses e outros riscos da atividade comercial, ainda permanecesse no quadro constante de depressão e melancolia que trouxera de Chaves, enrolado em seus neurónios de papelão; enfim e assim, o desenho de sua penúria estaria finalmente esboçado.
Montava-se, dessa forma, o piorio de seu completo desastre pessoal e financeiro. Na mais cruel miséria, sem um migalho de património a mais para solapar e ante à inevitável falência, teria que bater com os seus, famintos e esfarrapados, à porta de algum parente remediado.
Pior ainda se o fosse à casa do marido de sua Arminda (o que iria consumar-se de facto no Brasil, como tudo ou mais que o atemorizava, conforme relatos posteriores). Que flagelo moral para ele, João Reis, o provedor de suas meninas, inclusive de Flor, que mal sabia se prover sozinha e da pobre miúda, que de nada e nenhuns, nem de si mesma, ainda estava a saber!
Sozinho, ali no convés, diante da imensidão do mar escuro que se revelava aos olhos do patriarca, como se todo o navio fosse apenas ele só, um imenso couraçado João Reis, agora sem blindagem e à deriva, eis que o pranto retido naqueles últimos anos chegou-lhe em rajada, como lufadas a emanar de seu furacão interior. O mui digno flaviense, lusitano e brasileiro João Reis Bernardes chorou. Um pranto forte, viril, aliviado, a desfazer, um por um, os nós imediatos de sua garganta. Pois que outros nódulos – íntimos, invisíveis, imateriais – eram impossíveis de desatar.
- LUVA.
Lá em baixo, os estivadores estavam, enfim, a acabar sua faina. Restavam agora poucos volumes a carregar para o navio. Ao último apito do paquete alemão, deu-se um aperto enorme no coração de Aurora...
(continua na próxima terça-feira)



