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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jul20

Chaves D´Aurora

Romance


1600-chavesdaurora

 

 

  1. LUVA.

 

Lá em baixo, os estivadores estavam, enfim, a acabar sua faina. Restavam agora poucos volumes a carregar para o navio. Ao último apito do paquete alemão, deu-se um aperto enorme no coração de Aurora Bernardes. Correu então pelo convés, até ficar acima e diante do sítio por onde entravam os passageiros retardatários da terceira classe. Estava a olhar, ansiosamente, para essa outra escada, prestes a ser também recolhida, quando percebeu, pelo canto dos olhos, achegar-se de si a luva de couro cor de morcela, cor do seu amado, adorado e mil vezes perdoado cigano.

 

Estremeceu.

 

O coração disparou.

 

Tocou-lhe afinal, ao ombro, a mão enluvada.

 

Sabia que finalmente, ao seu lado, estava agora outro homem, maduro, regenerado, pronto a fazê-la feliz em qualquer parte da Terra. Ali estava o homem que a fez, algumas vezes, tocar as cordas de sol; não obstante, em outras ocasiões, as teclas de dó; que levou a si a cantar lá seus fados como ré; e que, agora, em misericordiosa benesse, irá proporcionar-lhe o prazer de tocar todas as notas da escala de seu ser.

 

Estava ali a sua tábua de salvação, o bálsamo a curar feridas d’alma, o porto seguro onde atracar o seu destino. Não importa aonde ela vá com ele. Há que lhe dar as mãos e descerem correndo, antes que seja recolhida a última escada, antes que soe o último apito. Agora ela vai estar, para sempre, ao lado do homem que sempre amou e amará por toda a vida.

 

 

  1. FUGA.

 

Ao percorrer o deque do Hildebrandt, o patriarca dos Bernardes encaminhou-se até ao sítio bem acima de onde a última escada (a que dava às partes inferiores do navio), acabava de ser recolhida. Eis que, do ponto onde estava, divisou dois vultos de negro que desciam apressados os degraus, rumo ao cais.

 

Teve ímpetos de gritar – Aurita! Aurita! Não faças isso, volta, sua tresloucada! – mas antes que o desejo se concretizasse na garganta, os dois evadidos sumiram, entre as brumas da enevoada manhã.

 

 

  1. ENLUVADO.

 

A luva cor de morcela! Aurora está presa da mais plena emoção, nem ao menos consegue mover-se para contemplá-lo, mas sente, pressente: ali está o seu rico cigano. A mesma estatura, a mesma compleição física, o mesmo tipo de trajo… Ali está ele, enfim, a mirá-la, admirá-la, com um olhar de ternura que, em tempo algum, havia antes demonstrado. Ainda sem divisar o amado, sente que a mão direita deste, leve e gentilmente, acaba de lhe pousar sobre o ombro. Vira-se afinal para abraçá-lo, pronta para lhe dar, incondicionalmente, todo o profundo amor que tem a oferecer.

 

Um ricto de espanto, porém, desfigura o seu rosto. O sorriso e a alegria de Scarlett O’Hara, o vento levou para alguma Tara distante. As raras brisas da manhã estão a debochar de sua circunstância.

 

A luva é de um jovem campónio de Santo Estêvão, filho de um conhecido de seu pai e, agora, também emigrante. – Menina Bernardes! Que estás a fazer por cá, a essa altura da madrugada? Cuida que já passa, e de muito, a hora de se haver aos lençóis! – e em sofrida tentativa de resposta, ela balbucia ao companheiro de viagem – Obrigada, não te preocupes. Já estou a recolher – e o rapaz afasta-se dali, por entre as brumas, até seus aposentos da terceira classe.

 

 Ao olhar o porto que virava um ponto a se distanciar, cada vez mais, o corpo de Aurora balançou-se perigosamente sobre a amurada e, diante das águas escuras como um chocolate amargo, viu-se ela a cair na musse de espumas confeiçoada pelas ondas.

 

Seu corpo apareceria boiando, dias depois, em algum sítio do litoral.

 

 

  1. TREVAS.

 

Diante de João Reis Bernardes, as trevas eram metáforas de um outro Portugal, não mais aquele...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

 

fim-de-post

 

 

 

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