Chaves D'Aurora

3 - PÉRIPLO
Com um grito contido, Aurora deixou o pretume do café ainda quente escorrer pelo chão da cozinha. Transformaram-se em cacos de pétalas as flores de uma bela chávena, perfeito exemplar das porcelanas de Vista Alegre, que a tia Hortênsia trouxera de presente para Mamã, em algum Dia de Reis. Olhou por entre névoas d’água para os olhos de Zefa de Pitões, a ama querida, ainda estarrecida pelo que a pobre menina acabara de confessar – Que hei de fazer, minha boa Zefa, que hei de fazer?! – e, sem dizer mais um ai, desceu correndo a pequena escada e galgou o pomar.
Zefa ainda esboçou um gesto para detê-la, a oferecer o avental que lhe enxugasse as lágrimas, como tantas vezes fizera quando a sua menina era miúda. Sabia, porém, que ela agora já se fizera mulher. Sabia, também, que o peso desta condição, desde os tempos que se perderam nos idos da Humanidade, caía sobre a jovem como um volumoso e cruel fardo de perdas e danos.
Qual Mater Dolorosa de um messias que apenas se anunciava, mas já se o percebia agarrado à mãe, como se fosse à cruz, a rapariga apoiou-se no frondoso chorão, atravessou por entre as macieiras e pés de laranja, chegou até ao portão dos fundos, deu a volta e, encostando-se ao muro externo da propriedade paterna, a Quinta Grão Pará, deteve-se na primeira estação de sua pessoal via crucis – Pelo bom Deus, que a tudo há de perdoar... o que fizeste, Aurora, o que fizeste?! Não obraste sozinha, por certo, mas... – Considerava, em sua mente confusa e abalada, diante dos escarpados alicerces de sua formação judaico-cristã, cair para si mesma a maior parte da culpa, esta angustiante sensação de sujeira íntima e cuja expiação acompanha os pretensos pecadores por todo o porvir.

Caneiro - Ribeira do Caneiro
Nuvens prenunciavam uma tormenta prestes a desabar, mas nenhum raio enviado por Thor, ou algum outro deus dos celtas, alanos, suevos, godos e visigodos, impropriamente chamados de Bárbaros e aqui habitantes, por algum ou por muito tempo, seria mais implacável do que os tormentos que lhe iam n’ alma. Apressou os passos, quase a correr pela Rua (então Estrada) do Raio X, assim chamada por fazer um X com a Avenida D. João I, sem nem dizer bom-dia aos poucos transeuntes amanhecidos. A seguir, tomou essa Avenida e, diante da pequena ponte sobre o Ribeiro do Caneiro, com suas águas a chilrear por entre os pedregulhos, parou para cumprir a sua segunda estação de suspiros e ais:
– Que tens na cabeça, Aurora, que sejam bem mais do que esses fios de ovos dourados, que te não fazem toucinhos- do-céu nem barrigas-de-freira? Que estranhas lêndeas se depositaram em teus miolos enovelados e te enchem de preocupações? Que factos são esses que amargam a saliva de tua boca silente, como nozes colhidas bem verdinhas ou vísceras de fel em uma sardinha mal estripada?! – Comparou, então, os pingos de tristeza que lhe desciam à face com o singelo fio d’água no ribeiro. Este ia dar ao Tâmega. Os fios de seus olhos, no entanto, a que rio e a que mares iriam desaguar? Em que turbilhão de ondas impossíveis de serem desfeitas iriam se desfiar?
(continua)



