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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Jan17

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ADELAIDE.

 

Das visitas que Florinda mais apreciava e das mais divertidas, também, ainda que ao dono da casa fossem as de menor agrado, por certo que estavam as de Tia Adelaide. Era uma açoriana bonitona, cheia de carnes e algumas gordurinhas bem distribuídas, mas sem excesso, a beirar os cinquenta. Viera ter um dia a Chaves com o marido flaviense, aparentado de Reis, do qual enviuvara (devido a alguns excessos conjugais, assim dizia-se, à boca pequena, por cá, por lá e acolá).

 

Estava a conviver agora sob o mesmo teto com Luís Miguel, um musculoso rapagão de quase dois metros de altura, mas de pouca idade e que a todos dizia ser um dileto afilhado. Ao que ela acrescentava, à sua amiga Flor – Não bem assim, como os miúdos que se levam à pia batismal, porém… outros batismos, percebes? – e sorria de modo malicioso, pelo que muitos andavam a comentar que, além de cocheiro, o jovem Miguelão lhe servia em tudo o mais que fosse necessário. Um verdadeiro pau para toda colher (com trocadilho, se quiserem).

 

Era ele, portanto, que a conduzia na Carochinha. Esta era uma pequena caleche com assentos e espaldares acolchoados, coberta por um toldo bordeado por franjas e borlas, conversível, podendo pois abrir ou fechar nos dias de sol. As laterais eram cor de barro escuro, com florezinhas brancas, similares aos utensílios de cozinha da cerâmica de Alcobaça. O visual dessa caleche, apesar de alguns na vila considerarem bastante original, fazia troçar a maioria dos passantes e alguns até se perguntavam, a mangar em voz alta – Mas ora, ô pá, a quem se vai cozinhar lá dentro? – e outros mais queriam saber, em tons de caçoada, onde se estava a levar o show de fantochadas que a Carochinha parecia anunciar, como se fora uma carroça de circo ambulante, ainda mais pelas borlas e guizos ruidosos, no veículo e nos cavalos.

 

O exotismo, espalhafato e excentricidade não se restringiam à caleche. Toda ela, Dedé era uma grande atração, mormente nas maneiras de ser e de vestir, com trajos vistosos e coloridos, a usar capachinhos louros, castanhos ou pretos, de acordo com o trajo da ocasião. Isso tudo a uma altura em que as pessoas da região, mais ainda as mulheres e, sobretudo, as viúvas (Menos eu! – dizia a rir) vestiam roupas escuras, pesadas, funerais. De negro bem fechado, trajavam-se até as enviuvadas de homens vivos, os que iam para Além-mar e nunca mais davam notícia. As donzelas também se vestiam com poucos tons coloridos, sendo de uso geral o preto e branco, no máximo um cinza, um azul ou um verde, da mais escura tonalidade.

 

Dedé, como os íntimos a chamavam, ria-se por tudo e por nada, com o seu gargalhar escarolado. Nunca teve filhos. Era uma das poucas tristezas suas, o que às vezes tentava superar com o bom humor caraterístico – Como sabem, sou maninha. Igual a certas vacas – e soltava um riso debochado.

 

Morava à Rua do Bispo Idácio, uma via bastante antiga, onde algumas construções originais datam do século XVII e várias residências foram assentadas sobre a antiga muralha medieval. Habitava um prédio de dois andares, em cujos fundos havia uma escada que descia até a Rua Santo António. Era por tal acesso que, logo depois que enviuvara, um ou outro moço estava a subir às ocultas, para (assim dizia a viúva), não mais do que apenas jogar cartas com a anfitriã. Tais jogos, na verdade, poderiam se estender pela noite afora, sem vencedor nem vencido, mas com ambos os parceiros extenuados, após tanto embaralharem as cartas...

 

Sobre tais rapazes, dizia Adelaide, à meia voz – De facto, jogam-se as cartas lá em casa. Antes ou depois dos outros jogos... os de dama e valete, percebes? – e soltava mais uma de suas escandalosas risadas, seguidas de outras confidências – Agora, por esses degraus, só me sobe o Miguelão. Após, é claro, guardar-me a Carochinha na parte de baixo – ao que Mamã sorria constrangida, a oscilar entre a excitação dessas cavaqueiras indiscretas e o pudor de sua condição de esposa e mãe recatada.

 

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