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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

06.06.17 | Fer.Ribeiro

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  1. PROMANAS & PRASNICOS.

 

A promana é um banquete onde se providenciam flores, frutas e a iguaria preferida do morto cigano. Dispõe-se à mesa um lugar com o prato, copo, talheres, comida e bebida para o falecido e tudo isso que lhe foi reservado permanece, evidentemente, intocado. Acende-se uma vela diante do retrato do ente querido e, ao lado deste, deixa-se uma garrafa de vinho fechada. O mais do ágape é servido a todos os circunstantes. Finda a cerimónia, toda essa parte dedicada ao morto é jogada fora.

 

Papá prosseguiu – Pois é, ela vem a ser mãe do gajo... aquele tipo... tu bem sabes a quem estou a me referir. Ele também já foi contaminado pela maldita… – palavra que fez Aurora tremer, da cabeça aos pés – É, dizem que o rapazito anda muito mal, lá na Santa Casa de Misericórdia, pois a maldita que lhe levou a avó também o soube pegar de jeito. É um moço forte, mas já está quase a deitar fora os pulmões. Sabe-se lá se escapa. A pobre mãe se desespera… A essa altura, deve estar a fazer aquela tal de prasnico, para o filho não morrer.

 

Consiste a prasnico em oferendas ao santo de cada dia do calendário votivo. Lamentava-se Mariazita, certamente, de ficarem esses ritos incompletos, pois deveriam ser parte de um ritual coletivo, mas que, durante a Pneumónica, tornava-se impossível de realizar. Consolava-se a rezar, em seu milenar idioma – Dat amarô cai san andô tchêri. Súnto si tirô anáv. Av aménde ando tirô rhaio. Ai te avêl pô tirô katê pe luma sar ando tchêri … (Pai-nosso que estais no Céu…) ou – Suntô Mariônê, pérdô san andô svêtô ô Del tu sai. Uusí san angla sá e juvliá uusôi ô fruktô kai arakádilas tutar Jesus. Suntô Marionê Del leski dei… (Ave-maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco…).

 

Aurita não pôde sufocar o gemido inoportuno que lhe escapou da garganta. – Quem está lá? – perguntou o pai, encaminhando-se até à porta que dava para os dormitórios. Passou ao corredor e abriu um por um dos quartos. Estavam todos a dormir. Ou quase. Aurora, que dividia com as irmãs um cómodo único, fingiu estar nos braços de Morfeu. Em verdade, em verdade vos digo, ela estava mesmo era a morder os lençóis entre os dentes, para não ressoar pelas calmarias da aldeia o seu angustiado pranto. Abraçava o travesseiro, a pensar dolorosamente em seu amado que, na cidade, estava a lutar contra os germes mortais. Pensava, também, muito dorida, no sofrimento daquela pobre mãe cigana.

 

A rapariga não pudera mais escutar a conversa dos pais e, por isso, deixou de saber o quanto eles ainda se preocupavam com ela – Pobre filha, já estive até a lhe dar alguns conselhos. Zefa me disse que ela nunca mais veio a ter nem um segundinho de cavaqueira com aquele rapaz, mas... ai, meu rico, sabes que um coração de mãe não se engana, acho que ela ainda está a pensar no cigano, todos os dias, todas as noites.

 

João Reis ponderou – Se apenas esse mero ato de pensar não privá-la da saúde do corpo e da mente... Mas eu temo é por qualquer outro mal que isso lhe possa causar. O ratinho que está de facto a me roer a cachola é que Aurita... ora, pois, tu bem sabes, Menina Flor, como são as raparigas de hoje em dia. – Como então que não estou cá a saber, meu marido?! Ora pois que elas vivem com o bestunto na lua! – e o patriarca – Daí que estou a achar, e bem achado, que a nossa menina ainda está de coração voltado para os truques de mágica do Camachito. Tens que ser doravante, para com a nossa filha, igual como os crocodilos d’ África: um olho a fingir que dorme e o outro a vigiar em volta. Porque estás a suspirar? – É que sempre me lembro da minha mãe, que já lá se foi: “filhos criados, trabalhos dobrados”. – Mas nossa Aurita ainda não se pôs de todo, ainda está a se criar... – Ora, pois, meu rico maridinho, por isso mesmo. Ainda vamos ter muito trabalho com a nossa menina!

 

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