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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

11.07.17 | Fer.Ribeiro

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  1. BOLO-REI.

 

A fatal novidade foi bola de canhão sobre a fortaleza dos Bernardes. Nessa noite, quando foram comer o tradicional bolo-rei com a fava oculta, em que o parente que comer a fatia premiada fica obrigado a oferecer o bolo do próximo ano, coube a Florinda ser sorteada para “pagar as favas”. Começou a chorar, todavia – Que tens, Menina Flor? – Oh, Mamã, porque estás a chorar? – mas ela nada respondeu. Chorava com medo de, no próximo ano, já não estar mais viva para cuidar dos filhos e do marido. Ou, pior ainda, apenas ela sobreviver e estar a cuidar, sozinha, das campas de todos eles.

 

João Reis concertou com Manuel que este voltasse para Chaves, a cavalo e por lá ficasse, junto à esposa e aos filhos. Um moço corajoso da aldeia, que o Reis considerava menos um audaz e mais um temerário, já se oferecera a conduzir o landó com o Papá e a família, de volta à vila, quando se fizesse necessário.

 

Trancaram-se todos na quinta, inclusive Bobadela, a mulher e os miúdos. Valiam-se das limonadas de Florinda, ou dos três cálices de Porto que o patriarca distribuía, diariamente, até mesmo à Mindinha e aos miúdos de Crispina, pois diziam e, a alguns, até gostava comprovar, ser tal vinho uma panaceia para todas as imunidades. No mais, as pre e providências do Papá garantiriam, por um bom tempo, os complementos necessários à autossubsistência da quinta e, quando alguém batia ao portão – Ó de casa, pelo amor de Deus – respondia-se – O que quereis, faz favor? – mas atendiam ao suplicante a certa distância, deixando no jardim o que lhes fora pedido.

 

Felizmente, os ares perfumados daquela aldeia não agradaram ao grego barqueiro do Hades e, em Sant’Aninha de Monforte, apenas alguns aldeães adoeceram e uns dois ou três mais é que tiveram de enfrentar Cérbero, o cão que guarda o mitológico Inferno.

 

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