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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

18.07.17 | Fer.Ribeiro

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  1. SOBREVIVENTES.

 

João Reis nunca mais aludira ao nome do gajo da casa em frente à Grão Pará. Segregada de tudo, Aurora passava dias e noites em profunda ansiedade. Algumas vezes, por vias indiretas, tentava extrair de sua boa mãe alguma notícia de Hernando que ela, Florinda, por acaso tivesse vindo a receber, antes da forçada reclusão familiar.

 

Só mesmo lá pelos idos de fevereiro, por meio da Zefa que, apesar dos interditos do patrão, passara a ficar de namoricos com Barnabé, o tal moço das cercanias e o qual, sem temeridade, estava sempre a ir e vir de Chaves, a apaixonada Aurita veio a saber, afinal, que Hernando já estava fora de perigo. Não haveria de ser desta volta que o ciganito iria conhecer Santa Sara no Céu. Se é que ao rapaz, por tantos que lhe fossem os pecados, não estaria São Pedro a lhe fechar as portas celestiais. De tão finório, era capaz de fazer o santo porteiro cair em seus ludíbrios e se deixar encantar com os truques e mágicas desse anjinho cigano.

 

Aurita não escondia sua felicidade. Chegou até a brincar com os miúdos por aí, feito uma doidinha, após dedicar-se aos arranjos do jardim, onde ela própria não esquecia os cuidados especiais com os amores-perfeitos da serra.

 

Cor-de-rosa.

 

Tal mudança de humor não escapou à Mamã. Esta, porém, limitou-se a suspirar, balançar a cabeça e a se consumir em preces, diante do oratório de jacarandá, que ela sempre trazia consigo lá do Raio X, nas idas e vindas à serra – Ai minha Nossa Senhora dos Remédios de Lamego! Ai minha Nossa Senhora do Monte Serreado! Ai minha Virgem de Fátima! Dai juízo à minha boa Aurora, que essa menina está sempre a pensar com o coração e a sentir com os miolos! Mas estás a ver, minha Virgem Santíssima, vós que sois mulher e podeis me compreender, isso são coisas de miúda que mal começou a trocar os panos de... vós sabeis, os... os paninhos de mulher. Dai-lhe um bom destino, eu vos peço! Ave Maria, cheia de Graça...

 

 

  1. NOTÍCIAS DE CHAVES.

 

Aos meados de março, junto com os mantimentos que Barnabé, o galã coxo e dentuço de Zefa, estava agora a trazer para a quinta em seus balaios, chegaram também várias notícias. Uma delas, meio estropiada pela incompreensão do próprio repórter, era sobre a tal República de Chaves, que ninguém conseguiu entender muito bem. (Durante mais uma e, desta vez, última tentativa de reimplantar a Monarquia em Portugal, nesse recente fevereiro de 1919, ainda em plena vigência da Pneumónica, Chaves conseguiu resistir novamente por alguns dias, como república independente, isolada do resto do País).

 

Malvadas e mal vindas, outras novas do mensageiro chegaram nefastas, qual machado a ferir o cérebro e a magoar, como dizia Mamã, o coração pensante e a mente sensitiva da menina Aurora. Pelo que diziam alguns boateiros, o cigano já quase não se via à Estrada do Raio X. Andava agora a Valpaços, barregão com uma mulherzinha de lá, viuvinha de defunto ainda morno, mas que pertencia à mesma gente dele, embora arrenegada por seu clã. Esse repúdio se devia à vida escandalosa que a dita cuja levava e a tornava mal falada nas tavernas trasmontanas, de cá e de acolá. Conhecera Hernando na Santa Casa de Misericórdia, quando ambos ainda estavam a lutar contra a Gripe. Ao ficarem sãos, ainda que só pele e ossos, mas sedentos de carne, juntaram seus esqueletos e se foram para a outra vila, pertinho de Chaves.

 

Talvez esses doidejos de rapaz liberto e libertino não fossem durar muito tempo. Talvez ele logo tornasse à casa paterna. Aurita, porém, já o via a se rodear de miúdos e a tocar com a sua barregã, para todo o sempre, a vida mansa em Valpaços. Antes, ela chorava pela possível morte do cigano. Agora, ao cantinho dos olhos da brasilita, mal apareciam alguns pingos d’água e uns grãozinhos de sal.

 

Correu até ao álbum que Mamã lhe dera no dia de seus quinze anos, um caderno cuja capa era de couro branco, com vinhetas douradas, escrito “Recordações” e fechado com uma diminuta chave, que Aurora trazia em um cordão, ao pescoço. Após folhear e reler o que escrevera nas páginas cor de rosa, algumas manchadas pelas gotículas que lhe caíram dos olhos em outras quaresmas ou natais, molhou a pena de metal no tinteiro e rabiscou apenas uma palavra: fim.

 

Tudo acabava então como o “the end” dos filmes que, algumas vezes, ela vira ao Cinematógrapho de Chaves, quando Papá, em rara disposição de espírito, resolvia levar toda a família. Decidiu, portanto, que nunca mais cederia os cómodos de sua mente para servirem de albergue ao senhor Hernando, com sua bagagem de mágicas, ilusionismos, pasos dobles e a pretensa promessa de um sonho de amor, agora desfeito.

 

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