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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

25.07.17 | Fer.Ribeiro

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  1. PRIMAVERA.

 

A florida estação veio com bons auspícios, pois a Pneumónica já lá se fora por aí, quiçá para o mundo do Não Mais. Adiava-se, assim, para o incerto porvir de cada sobrevivente, a chegada da indesejável visitante.

 

Em Chaves, na cauda do rasto dessa virulenta devastação, sem poupar ricos ou pobres, miúdos ou anciães, pairava, por toda parte, a saudade das pobres criaturas que agora estavam a dormir no Campo Santo. Foi, portanto, uma vila sem ânimo e sem vida, aquela que os Bernardes reencontraram, ao voltar para a quinta do Raio X. Os rapazes retomaram suas idas ao Liceu e as meninas voltaram a ter suas aulas de piano e outras instruções.

 

Ainda que parecessem lágrimas de jacaré, como dizia Mamã, piedosas e muitas foram as secreções lacrimais que as raparigas derramaram pela pobre Mademoiselle Margot des Saints. A lecionista de Etiqueta não pudera brandir sua palmatória no ar e espantar a “maladie”, nem tampouco gritar, com sua voz de gralha, um enérgico “laissez-moi, Maudite, parce que c´est très inélégant partir avec toi!” As meninas também renegaram, com veemência, o disse-me-disse de algumas pessoas, segundo as quais, após Mademoiselle ser enterrada, descobriu-se que a veneranda professora (em verdade, em verdade vos digo: muita gente alegou não ser isso, de modo algum, um mero dichote de humor negro) nascera em uma aldeia perto de Nazaré e recebera ao batismo um nome bem lusitano: Margarida dos Santos.

 

A instruir como devem se comportar as raparigas em sociedade, mas sem a tirania das mãos à palmatória, lá estava agora o Monsieur Pierrot Béjart (um sueco de origem francesa, que Afonso e os colegas, a essa altura, ficavam a se perguntar se ele não seria também algum Pedrinho de Beja, do Alentejo). Seus modos refinados demais, delicados demais, amaneirados demais durante as instruções, faziam troçar os rapazes e gracejar as criadas. Até a boa Mamã escondia, com discrição, um riso de rajada entre as varetas do seu leque de Sevilha. Fora das aulas, porém, ele mantinha uma postura bem mais próxima daquilo que as pessoas convencionam ser masculina.

 

Mais insólito ainda foi quando ele apresentou aos Bernardes sua Ingrid, a estranha e corpulenta esposa nórdica, mãe de seus três filhos, cuja postura forte e firme demais e uma voz bem mais grossa que as de muitos cavalheiros de Chaves, causavam sempre certa estranheza, mas a ninguém e por nada alcançava, senão comentar (com respingos de xenofobia e preconceito) – Esses escandinavos... Tem que ser! – e alguns apenas ficavam a sugerir que, naquele estranho par de Adão e Eva, parecia haver alguma costela, serpente ou maçã trocada pelo Criador, a um momento em que Ele estivesse entediado, distraído ou com uma simples vontade de brincar com os efeitos da Criação.

 

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