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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

22.08.17 | Fer.Ribeiro

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  1. AMPULHETAS.

 

A descida de areia, na ampulheta dos Bernardes, podia ser vista a se refletir em cada um dos membros da família.

 

Aldenora apegava-se aos livros de contos açucarados (e alguns mais realistas, mas só quando os podia ter à mão, em segredo). Aurélia já estava a vivenciar os seus “dias de his­tórias”, como toda mulher. Mindinha, esta se afastava cada vez mais das bonecas. Quanto à menina Aurita, agora sem contar nem mesmo com os explicadores em domicílio, para diminuir o tédio que a vida reclusa de Papá impunha às fi­lhas, entregava-se cada vez mais a cuidar do jardim e dos seus amores-perfeitos.

 

Acastanhados.

 

Ao contrário de seu irmão, o caladão e ajuizado Afonso, sempre dedicado aos estudos, ao púbere Alfredo apetecia bem mais aproveitar todos os momentos dessa fase única da vida, a adolescência. O que o puto mais apreciava era se entregar aos sagrados princípios do Hedonismo, que não co­nhecia dos livros, mas da prática. Tinha vários amigos, entre as maltinhas de Chaves, principalmente o Zeca Sarmento, o Vitinho Mendes e o Lucas Bó. A todos esses, o que mais agradava era nadar no Tâmega. Nos bons e quentes dias de verão, Alfredinho chegava a casa com os cabelos ainda mo­lhados e Afonso perguntava – Onde nadaste? – e ele, muito orgulhoso de si, respondia – Na Pedra da Bicuda!

 

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 Poldras - Rio Tâmega - Chaves

 

Àquele tempo, os rapazes recebiam suas primeiras lições aquáticas com um colega que já soubesse nadar bem e o aprendizado se fazia em várias etapas, de acordo com a profundidade dos vários sítios do rio. Com Alfredo, não foi diverso (e não o fora também, com Afonso, ao seu tempo). Suas primeiras braçadas e pernas foram rio acima, a um sí­tio mais raso, na Galinheira. Já menos afoito e mais afeito às águas, seus amigos experientes o levaram para a Ola, junto à Ponte Romana.

 

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Os primeiros exercícios de verdade foram no Cachão, junto às Poldras, um belo caminho de pedras, até hoje exis­tente, que era a única alternativa da Ponte Romana, àquela época, para a travessia do Tâmega pelos peões.

 

Lá no Cachão, a malta de putos mergulhava alegremen­te. Quando Alfredo já estava a nadar melhor, o Vitinho e o Lucas Bó o levaram até ao Poço do Leite, junto à presa do Moinho dos Agapito, onde todos já podiam fazer, sem medo e com arte, a travessia do rio.

 

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Tâmega, próximo ao Moinho dos Agapito. Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Os rapazes partiam das margens do Tâmega aos mago­tes, entre chistes, desafios e exibições próprias da idade. Já nadavam de costas, faziam prolongados mergulhos e se ar­remessavam às águas em saltos de anjo, de peixe, de nava­lha. No entanto, aquele que afirmasse, categoricamente, já dar suas braçadas na Pedra da Bicuda, uma parte do rio mais abaixo e mais funda, esse era digno de admiração entre os mais. É que isso significava que o puto já podia considerar­-se um exímio nadador.

 

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