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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

05.09.17 | Fer.Ribeiro

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  1. PRETENDENTES.

 

Por quatro anos, Aurora não quis namoricar ninguém, por linda que fosse e, sempre, na Missa ou à saída da igreja, os rapazolas estivessem a lhe dirigir tímidos olhares. De logo se retraíam, no entanto, ao perceberem que a válvula mitral da rapariga parecia ou já estava a pertencer a alguém. Um desses admiradores, maldoso, chegou a comentar com os amigos que, de tão secreto, tal felizardo deveria ser algum primo Basílio ou qualquer outra figura proibida da literatura universal.

 

Às raras ocasiões em que as meninas Bernardes expunham seus vestidos novos, a um baile na casa de algum conhecido, parente ou aderente, Aldenora levantava-se muitas vezes da cadeira para valsar no salão. Era apenas uma ou outra vez, porém, que um tipo mais corajoso vinha convidar a menina Aurora, para consigo bailar. Talvez porque o ar de ausente e os eternos silêncios da rapariga parecessem que ela não estava a gostar da festa, ou, simplesmente, preferisse ficar apenas a observar tudo e todos à sua volta.

 

Seu ar de severidade ora atraía, ora afastava os príncipes, ao mesmo tempo que deixava todos com uma sensação de sapos que, por ela, jamais seriam beijados. Não sabiam, porém, tudo aquilo, na verdade, era só um biombo facial, como essas máscaras do carnaval de Veneza, caras postiças, que só revelam aquilo que não se esconde nas verdadeiras faces.

 

À jovem Aurita, na verdade, não lhe fugia o sabor das danças. Portanto, quando lhe davam oportunidade, contradançava com muita graça e alegria.  Em tais ocasiões especiais, fossem nunos, joaquins ou xavieres, acendiam-se fagulhas de esperança aos rapazes, mas estas logo se esvaneciam. Quando eles começavam a ensaiar juras de amor à rapariga, esta, que não era dada a mentir, mas bem lhe comprazia fantasiar, costumava dizer, entre sorrisos contraditórios, que já era noiva de Jesus e, no próximo inverno, iria fazer-se noviça em algum convento das Carmelitas Descalças.

 

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