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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

26.09.17 | Fer.Ribeiro

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  1. HOMEM DE BEM.

 

Há vários dias, Papá rondava os passos de Aurora, como a querer dizer alguma coisa. Uma noite, afinal, quando ela estava a sós com ele e Florinda, João Reis tomou fôlego e, após algumas baforadas de seu finito e já degustado havano, lançou à filha um olhar afetuoso – Bem sei, minha boa Au­rita, que não temos costumes iguais aos dos ciganos, mesmo desses aí em frente que, de tão portugueses já se fizeram, nem parecem mais ser dessa raça – e acentuou dessa raça. Mesmo sem distinguir a alusão sobre raça e não etnia, com o Reis a desconsiderar o que é uma nação cigana, Florinda lançou ao marido um olhar respeitoso, mas de insinuante reprovação pelo tom preconceituoso, que, a ela, nunca sabia bem.

 

Entrementes, a rapariga ficou a pensar – Pronto, cá está de novo o Papá, a me falar do Hernando! Mas o que será que o incomoda, dessa vez, se já nem sei mais daquele gajo, a andar por aí, de lés a lés, pelo mundo? Se eu mesma já cá o tenho, ao peito, como página virada de um velho álbum de recordações?! – e Reis prosseguiu – Espero que estejas a me compreender. Quero falar, na verdade, de uma prática de meu tempo, já pouco usada hoje em dia, mas que muitas famílias ainda gostam de concertar. Afinal, se sou teu pai, e se te eduquei o melhor possível, seria injusto se eu não pudesse, ao menos, aconselhar-te sobre um homem de bem para teu marido.

 

Aurora alcançou, afinal, aonde o pai queria chegar. Em­palideceu. Ainda que sempre a demonstrar uma notória bon­dade, ainda que a ira lhe houvesse, mesmo, como um feio pecado capital, um tantinho de ódio lhe acolheu o coração. Ainda mais quando veio a fatídica pergunta – Conheces o Álvares, aquele distinto senhor que é dono do armazém “O Tesouro Trasmontano”? – Papá tragou mais um pouco do havano e continuou – É um homem ainda em pleno vigor e de muitos bons costumes – ao que Mamã ajuntou – Sua mulher, pobrezinha, que Deus a tenha, já lá se foi para o Céu, nas garras do corvo da Pneumónica.

 

Calada estava, a rapariga e emudecida ficou, horrorizada com aquela ideia dos pais. O senhor Álvares era um homem bom, bem ajeitado e não de todo feio, apesar de gorducho e sem pescoço. Além do mais, tinha lá sua dinheirama nos cofres e nos bancos do Porto, mas... deveria estar mesmo a querer uma rapariga que lhe pusesse a mesa, lavasse as roupas íntimas, cuidasse de seus fatos e suspensórios… Não conseguia ela antever como, após as bênçãos de Deus, po­deria chegar ao sobrado da Rua do Sol, onde morava o pre­tendente e levar como dote um buquê de carinho e algumas migalhas de amor.

 

Não fora por amar e ser amado, conforme a própria Mamã contava, que João Reis se casara com a sua Menina Flor?

 

 

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