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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

14.11.17 | Fer.Ribeiro

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  1. O ÁLVARES.

 

Quando o Álvares foi, pela primeira vez, à Quinta Grão Pará, a menina Aurora escolheu o trajo mais feio que, dentre os seus, assim lhe parecia. Pediu a Zefa de Pitões que lhe (des)ornasse os cabelos com horrendos carrapitos e, a si mesma, maquilhou com tanta brancura, quase a gastar por inteiro o pó d’arroz “Rainha da Hungria”. Estava mesmo a se parecer com uma régia dama; não, porém, a nobre magiar da caixinha de talco, mas sim a falecida Inês de Castro, aquela que em morta foi Rainha.

 

Tais cuidados (ou descuidos) não fizeram com que o Álvares caísse em desistência. A beleza de Aurora era um luzir de pirilampos que, sempre, a escuros e obscuros momentos, haveria de brilhar. Entre goles de chá da Índia e as bolachas com o néctar secreto da Mamã, o viúvo de poses comportadas, mas com olhos lascivos, não tirava suas pupilas da menina pretendida. Naquele comenos, já a considerava sua, no papel e com água benta, destinada a cuidar de si e de seus haveres, inclusive os da carne, para o quê, nas melhor das intenções (das quais o Inferno está sempre cheio), Papá colaborava – Como sabes, Aurita, pois sobre isso já falamos, gostava que dissesses, ao senhor Álvares, se queres que ele assuma contigo os sagrados compromissos do matrimónio.

 

Por alguns segundos, Aurora fez suas meninas vestidas de azul olharem para baixo e fecharem as cortinas de suas janelas. Papá, Mamã e o pretendente puseram-se em penosa expetativa. Finalmente, as meninas desceram até aos lábios e os entreabriram como cortinas, levemente – O senhor Álvares é um homem muito bom, até me agradava sua afeição como marido. Mas espero que não me queira mal, nem ele tenha isso, assim, por uma... uma desagradável desfeita. Ainda não me quero casar – o que fez João Reis fechar a cara, a estremunhar seu visível aborrecimento. Florinda falou à filha, baixinho – Que estás a querer, minha miúda? – e, à moda brasileira – Ficares no caritó?

 

Após um embaraçoso silêncio, Álvares lhe veio em socorro – Ora deixe estar, a menina deve saber o que diz. Além do mais, hoje em dia, não é bom casar uma filha, se dela não forem suas vontades, não é mesmo? Isso era coisa d’antanho. – Pegou seu chapéu, o sobretudo e o guarda-chuva, agradeceu pelo chá, as bolachas e as broas, renovou o boa-tarde a todos e lá se foi, pela Estrada do Raio X, murcho como aquelas ginjas curtidas em aguardente, de uma famosa portinha ao Rossio, em Lisboa.

 

Alguns anos depois, casou-se com uma galega de boas banhas no corpo, boas carnes na cama e bons temperos na cozinha. Isso tudo o fez se esfalfar demais e se estofar nos excessos, tanto os amorosos quanto os culinários, o que, possivelmente, foi a causa de vir a falecer de apoplexia fulminante, tal-qualmente (assim comentava-se) ocorrera com o marido de Adelaide. A morte do Álvares, inclusive, foi em situação (e posição) inusitada, pois o médico, chamado às pressas, encontrou-o no leito conjugal em tal descompostura, que isso tornou-se motivo de comentários jocosos às rodas masculinas e, em alguns ambientes restritos, às femininas.

 

 

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