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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

28.11.17 | Fer.Ribeiro

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83.PRETENDIDO.

 

Eis que, então, a uma festa familiar, Nonô conheceu um dos melhores pretendentes ao altar em Chaves, o jovem António Sidónio Cordeiro Filho, rebento de uma das mais proeminentes famílias flavienses, pois seu pai, apesar de rústica postura e aparência de um pobre aldeão, era dono de uma instituição de ensino local. Era um atraente rapagão que, embora um pouco flácido, tinha um belo porte. Seu rosto era emoldurado por belas suíças, ornado por bem aparadas sobrancelhas, apurado com densos e bem cuidados bigodes e uma cativante mosca, abaixo dos lábios, queixo liso, sem pera.

 

Seu pai e dona Joaquina, sua mãe, eram compadres e amigos da tia Francisquinha que, nessa noite, abria os salões de sua casa à Rua da Pedisqueira, para festejar os 21 anos de seu filho morgado e, portanto, primo de Nonô. Tão logo a viu, o Cordeirinho retesou a sua flecha de lã, em seu arco de conquista, na direção da rapariga. Tão logo viu o rapaz, também o miocárdio de Aldenora acelerou-se com uma forte, aguda e repentina paixoneta.

 

Aurora, ao perceber os arroubos da irmã, sorriu – Ai-jesus, pobre Nonô! Estás a ser flechada pelo anjinho do Amor! – ao que esta contestou, indicando seu alvo com o olhar – Mas não está a parecer-te, também, que alguém mais já está envenenado pelo curare de Cupido?

 

Sidónio, a participar de um desses grupos só de homens que, até há algumas décadas, sempre ficavam à parte, em ocasiões festivas, também ficara, com indisfarçável frequência, a mover seus olhos pelas trilhas do enlevo até aos de Aldenora. A rapariga decidiu, então, aproveitar-se de algum instante oportuno para acercar-se dele. Tal hora chegou, por sorte, quando ela viu Afonso juntar-se ao grupo, atraído que este fora por alguns motejos que, na ocasião, os circunstantes trocavam entre si.

 

Falava-se, no momento, que a Câmara deveria proibir o tráfego das carroças que carregavam estrume pelas ruas da cidade. Eis que, na véspera, certo jovem flaviense, (na verdade, um dos circunstantes, indicado com explícita malícia pelos outros moços, por meio de olhares marotos e de viés) havia-se perfumado todo para ir à casa de sua noiva, com a qual já tinha alguma intimidade, ainda que, certamente, apenas verbal.

 

Ao chegar lá o moço, todo pimpão, a rapariga murmurou, de chofre – Que cheiro! – e ele – Gostas? – A noiva respondeu, cheirando-lhe o pescoço – Do cheiro de cima, sim, mas o de baixo... Por onde andaste? O que fizeste, para estar assim, desse jeito? – E, diante do olhar surpreso do rapaz – Porque estás, afinal, a feder tanto?! – o que deixara o dito cujo bastante constrangido, encarnado como um pimento, até compreender que ela – Mas o que deu em ti? Estou a me referir aos teus sapatos, ora pois! Não vês que hão de estar assim, tão borradinhos, sujinhos de bosta de vaca?!

 

Os circunstantes riram com bastante gosto, inclusive o protagonista, a tentar negar, de todo modo, que o facto ocorrera com ele próprio.

 

 

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