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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

19.12.17 | Fer.Ribeiro

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  1. FESTA DAS BROTAS.

 

O Forte de São Neutel é uma construção quadrangular com quatro baluartes, rodeada por um largo fosso, construída no século XVII para defesa das fronteiras de Chaves. Foi palco de muitas lutas entre portugueses e espanhóis e, nos combates de 1912, entre republicanos flavienses e os monárquicos, advindos de Verín. Na parte interna e central da fortificação, dentro de um pequeno templo de 1661, anterior à criação do próprio forte, a imagem do santo titular, no altar-mor, divide as honras com Nossa Senhora das Brotas, reverenciada em uma pintura que foi disposta a uma parede lateral da capela.

 

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Forte de São Neutel. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

A festa em louvor da Santa, geralmente em abril, é uma das mais antigas devoções e um dos mais concorridos festejos populares de Chaves e de todo o Concelho. Assim como outras tradições remanescentes na região, essa seria, possivelmente, uma apropriação pela Igreja Católica de cultos pagãos realizados no local, desde tempos imemoriais, em honra de Ceres, a deusa da agricultura. Já era, portanto, celebrada aos tempos do Império Romano, muito antes do advento da nova religião, surgida na Palestina e, só muito tempo depois, graças a um ato de grande esperteza política do Imperador Constantino, por ele institucionalizada, quando, então, as tradições pagãs existentes em todos os rincões do Império romano foram suprimidas ou, a melhor dizer, adaptadas para os rituais cristãos.

 

As Cereálias, dentre as mais belas festas religiosas dos romanos, eram celebradas ao início da primavera, com jogos, festins e peregrinações, para o económico propósito de conseguir abundantes colheitas, principalmente as dos cereais, bem como agradecer a Ceres pela abençoada fertilidade do solo. Daí Brotas, de brotar, germinar.

 

Na festa de Nossa Senhora das Brotas, àquele mesmo ano de 1922, João Reis quis relembrar os seus tempos de adolescência quando, ao domingo e segunda-feira de Pascoela, ia com a família inteira participar da romaria e dos festejos de Nossa Senhora. Decidiu nesse ano, portanto, levar todo o seu clã ao Forte de São Neutel.

 

Nesse dia e lugar, Aurora viu brotar das cinzas a sua Fénix tão especial.

 

Desde o “Nicho dos Fortes” até ao Forte de São Neutel, a romaria deu-se pela manhã. O espaço ao ar livre, em volta da capela, dentro da fortaleza, em cujos subterrâneos funcionava, então, a cadeia local, achava-se franqueado ao público.

 

O contingente de romeiros era bem numeroso, formado pelos cidadãos da vila e os que, a pé ou em carroças, provinham de várias aldeias, algumas bem distantes. A maioria já trouxera suas provisões para a merenda, seus farnéis de pães, queijos, cabritos cozidos, leitões assados e outros repastos, além, é claro, das duas maiores celebridades gastronómicas de Trás-os-Montes, os saborosos presuntos de Chaves e o folar. Tudo isso regado a vinho, muito vinho e, para tal fartura, já lá estavam, a postos, junto às poucas árvores do entorno, os vendedores a tirar de suas pipas, em canecos de barro ou de metal, o néctar dos deuses. Outros vendiam sumos de frutas, castanhas cozidas e o mais.

 

Após a última prece em volta da capela, começou a diversão, com as cantorias e danças folclóricas da região trasmontana. Para assistir aos folguedos, Papá e seu clã, no qual Zefa e Maria se achavam incluídas, acomodaram-se entre os que tiveram a sorte de conseguir assento em uma das escadarias que circundam a capela, enquanto sobrava, à maior parte dos mais, sentar-se à relva ou ao chão batido. Eram magotes de amigos e parentes entre si, famílias inteiras, pessoas que há muito não se viam.

 

 

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Plateia da Festa de N. S. das Brotas. Capela no Forte de São Neutel. Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Florinda e os seus deliciavam-se com as apresentações de ranchos tradicionais da região. Sobre um rústico tablado, exibiam-se os integrantes de cada conjunto, proveniente das aldeias trasmontanas. Com suas roupas típicas de domingo, algumas bem coloridas e com muitas fitas e rendas nos vestidos, cantavam ou dançavam ao som de seus próprios músicos, com as respetivas gaitas, harmónios, guitarras e outros instrumentos musicais.

 

Os grupos só de cantorias eram, em geral, compostos apenas de alguns tocadores e cantantes. Os de dança, porém, às vezes bem numerosos, eram formados por várias pessoas da comunidade aldeã, de todas as idades, embora, na maior parte, jovens e crianças. Chegavam todos juntos e enfileirados ao tablado, tendo uma criança ou uma senhora, algumas vezes bem idosa, a portar o estandarte com as cores e o nome da aldeia. Os pares entregavam-se a diversos tipos de danças da região ou mais peculiares à sua freguesia – Cela, Sanjurge, Vilarelho da Raia…

 

Quando o rancho de Santo Estêvão, ao final de sua apresentação, convidou quem quisesse subir ao tablado, para dançaricar com os seus integrantes, Aldenora e Aurélia imploraram ao Papá que lh’as deixasse participar do folguedo com os belos rapazes, mas João Reis – De jeito nenhum! Não quero “trigo do meu forno na boca de cães”.

 

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Rancho na Festa de N. S. das Brotas. Chaves (PT). Foto do Autor (2010)

 

 

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