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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

26.12.17 | Fer.Ribeiro

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  1. BROTAR DE NOVO.

 

Nesse entremeio, ao se afastar um pouco de seus familiares, Aurora notou, diante do mal cuidado chão do Forte junto às muralhas, onde o mato crescia rasteiro e há muito tempo sem corte, que umas senhoras estavam a colher uma plantinha silvestre. Ao se aproximar delas um pouco mais, constatou ser uma espécie de funcho. A pensar em seu querido Papá, que às vezes ficava indisposto por alguns excessos à mesa, Aurora se uniu ao grupo de mulheres para colher os fiolhos, com os quais se faz um chá, ótimo remédio para o fígado.

 

 Foi então que deu com os olhos ali, bem pertinho de si, em alguém que, há tanto tempo, não via sequer à Estrada do Raio X. Assim que viu o seu garboso Hernando, a conversar alegremente com os músicos de um rancho de Selhariz, um tornado começou a se formar no coração da rapariga, para lhe varrer da mente tudo o mais em volta. Aquele amor interdito havia deixado raízes de profunda fixação, a que os ceifeiros da ordem social e familiar podiam fazer a poda, mas logo voltariam a brotar.

 

Por sua vez, ao avistar a menina, Camacho foi-se chegando com um ar bem casual e lhe falou à mansa, como quem está de repente a passar por ali – Olá, brasilita, como estás – ao que ela – Estou bem, graças ao bom Deus, e tu? – Não te fazia aqui, por estes sítios e romarias – Pois cá estou, vim com os meus – Ora, ora, como a menina se pôs! – e ela pensou, para si mesma – Ora, ora, e que diabo de bonito se pôs esse moçoilo!

 

Ficaram então a se fitar, olhos nos olhos, por um instante menos que breve e mais do que infinito. O bastante para que toda a energia da paixão, escondida em alguma célula secreta do corpo de Aurora (no coração, por certo, não à mente), brotasse de novo, ficasse a girar qual uma hélice de aeroplano e voltasse a se empinar, como a um papagaio de papel em céu especial. Um céu que se estava a criar logo acima dos enamorados, a se verem, de pronto, em um jardim de amores-perfeitos gigantes, multicores e incrivelmente perfumados, emoldurados por raios de sol e um arco-íris brilhante, com elfos e gnomos a cantarem e a transportá-los para outras fantásticas dimensões do universo. Tudo isso a celebrar com eles esse amor que se revelara como tal à primeira, segunda, enésima vista.

 

Por se acharem fora do campo de visão do Papá, ao outro lado da capela, com Reis e os mais a se concentrarem na música e nos pares de dançarinos, que volteavam com alegria no tablado, Hernando e Aurita conseguiram a súbita ventura de ficar juntos por uns bons e esquecidos momentos. O bastante para concertar um novo encontro. Ela percebeu então que, de um modo efetivo, definitivo, mas certamente aflitivo, estava perdidinha de todo por aquele guapo cigano.

 

Entrementes, Florinda começou a se queixar do sol e de estar um calor de matar, em plena primavera. Às meninas, aborrecia a poeira que se levantava do solo, com a correria dos miúdos. Ao Reis, incomodava o intermitente passa, passa, de romeiros, às levadas. No mais, o vinho, que rolava solto para as goelas dos festeiros, já estava a produzir seus efeitos em inconvenientes borrachos. Rusgas se iniciaram aqui e ali, embora logo acalmadas. Tais discussões surgiam da defesa de cada rancho pelos companheiros de sua aldeia, a se rivalizarem no dizer quem, qual e quanto dançava ou cantava melhor.

 

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Outro rancho na Festa de N. S. das Brotas. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

De repente uma pessegada, com pancadaria da grossa, começou bem pertinho de onde estavam Aurita e o Camacho. Os ecos chegaram até ao patriarca. Foi a gota d’água para que ele convocasse os seus a tornarem à Quinta.

 

Enquanto Afonso ia dizer às barrosãs, ora entregues a gostosos cavacos com uns violistas de Cela, que os Bernardes já estavam a partir, mas que elas podiam se tardar no Forte um pouco mais, desde que chegassem a pronto de servir a ceia, Aldenora foi a primeira a chamar a atenção para outra desgarrada – E a Aurita, Papá?

 

O pai procurou-a até onde a vista pudesse alcançá-la – Com mil diabos, onde será que essa menina se meteu? – mas logo avistaram a rapariga a correr, célere, para junto dos seus. Aurora parou diante do patriarca, fitou-o com os “meigos olhos de amansar tojos”, como diria Miguel Torga, e murmurou suavemente – Estava a colher fiolhos. Para o senhor, meu pai!

 

 

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