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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

09.01.18 | Fer.Ribeiro

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  1. JANTAR DE NOIVADO.

 

Não demorou que chegasse aos ouvidos de Florinda o boato, logo após confirmado, de que uma de suas meninas estava aos namoricos com um dos moços de maior conceito, entre os casadoiros da cidade. Apressou-se João Reis a ter com António Sidónio pai e este que, além de ser homem de muitas propriedades, exercia o insigne cargo de diretor do seu próprio estabelecimento de ensino em Chaves, logo chamou o filho às falas. Perguntou-lhe sobre as reais intenções do rapaz para com Aldenora. Ora, pois, que a rapariga era filha de um conceituado comerciante da vila e, tanto a ela quanto ao pai, devia-se o máximo de respeito e sincera consideração.

 

Tão logo sabidos os enlevos do filho para com a moça, o senhor Sidónio pai acabou por concertar com o Reis um jantar para as duas famílias, na Quinta Grão Pará. Pediu então a sua esposa, dona Joaquina, que mandasse confirmar com dona Flor o dia e a hora de tão importante evento.

 

Mamã aviou-se com a Maria e a Zefa, de tudo que estavam a precisar. Ao jardineiro a dias, sob a supervisão de Aurora, ordenou que deixasse bem cuidados o pomar e o jardim, neste em qual, a essa altura, a filha continuava a plantar amores-perfeitos.

 

Brancos.

 

Além de contar com o Manuel de Fiães, Florinda mandou chamar Crispina Bobadela, de Sant’Aninha de Monforte, para ajudar na limpeza e na cozinha. A proferir várias vezes – Ai-jesus, ai que eu de nada me esqueça! – não deixou de tomar todas as precauções para que o jantar saísse a contento de João Reis, dos convidados, de todos, enfim. Um peixe à moda da Amazónia... ai que, lá isso, era o que mais Florinda gostava de oferecer aos Cordeiro, mas já lhe escasseavam alguns dos condimentos especiais que, de quando em quando, seus parentes brasileiros enviavam de Além-mar (e só alguns resistiam à longa travessia).

 

Mandou buscar muitos pêssegos, figos, uvas e maçãs para ornamentar a bela fruteira de prata e cristal, que a madrinha de Flor lhe dera, como prenda de casamento. Encomendou um cabrito e algumas perdizes. Prepararam-se alheiras, aviou-se o presunto de São Lourenço e não foram esquecidos o queijo curado de ovelha, as compotas caseiras de morangos e a torta de maçã com uvas passas, para servirem de sobremesa.

 

Para cobrir a imensa mesa de nogueira da sala de jantar, tirou-se do baú uma bela toalha, que Flor trouxera de seu torrão natal, confecionada por mulheres rendeiras do Ceará. Veio também desse baú o extenso naperão de linho, bordado a fios de seda, bem como os guardanapos, finamente tecidos por senhoras da Ilha da Madeira. Lavou-se toda a delicada louçaria de porcelana de Vista Alegre, mais as taças e cálices da Boémia e o galheteiro de cristal, com adornos em níquel. Foram lustrados, até brilhar, os açucareiros e bules de prata para o café.

 

Reis abriu um armário do escritório e de lá retirou, para deixá-lo à mão, uma caixa de havanos ainda fechada, com os puros que havia de oferecer ao Professor António Cordeiro e ao menino Sidónio, por já ser este, agora, um homem feito para o mundo.

 

E para Aldenora, sua filha.

 

Jantou-se no silêncio austero das gentes flavienses de então. Cabrito e perdizes estufadas, posta barrosã com batatas a murro, trufas recheadas com presunto de Chaves, um ror de pratos! Aqui e ali, ouvia-se baixinho uma ordem ou outra às criadas, a que servissem de novo água e vinho aos convidados, sempre que a estes lhes apetecessem. Após os talheres se cruzarem nos pratos e anunciarem, solenemente, com suas vozes de tinidos de metal, que todos à mesa estavam bem servidos, dona Joaquina Cordeiro e a toda amável Florinda começaram a falar sobre a próxima inauguração da estação de comboios, ligando Chaves por via férrea ao Porto e a Lisboa, quiçá ao resto do mundo. Reis e Cordeiro pai trocaram alguns comentários sobre novidades políticas ou financeiras de interesse geral.

 

Tristes novas eram os mistérios que ainda cercavam a morte trágica do doutor António Granjo, em um golpe envolvendo civis e militares, na chamada Noite Sangrenta de Lisboa, em outubro do ano anterior (1921). Vários políticos do Governo, tal como esse notável flaviense, foram assassinados em uma só noite, em condições e motivações nunca inteiramente esclarecidas, talvez por elementos ligados aos adeptos da monarquia e, como alguns diziam àquela altura, com o velado apoio da Igreja.

 

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