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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

23.01.18 | Fer.Ribeiro

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  1. ESTAÇÃO DE COMBOIOS.

 

Hernando e sua brasilita voltaram a se encontrar, no dia da inauguração do caminho de ferro até Chaves. Nesse ano, à mesma data, comemorava-se o décimo aniversário dos combates pela República em Trás-os-Montes. Tal episódio histórico sempre fazia lembrar à Zefa e à Maria aqueles dois jovens aldeães, inimigos até à noite anterior, mas que já lá estavam, na manhã seguinte, a sair abraçados pela estrada, a caminho da Paz.

 

Na estação recém-construída, às proximidades do Forte de São Francisco, Florinda e as filhas apreciavam o comboio e, enquanto Alfredo e Afonso paleavam com algumas raparigas, João Reis e um velho conhecido comentavam sobre o que toda a gente estava a reclamar, segundo o jornal “A Região Flaviense”: a febre atual do rapazio de Chaves pelo “Foot-ball” – Ora, meu caro Reis, esses putos ficam a jogar com bolas de pano por toda parte, a prejudicar o trânsito e, às vezes, até causando pequenos acidentes – ao que Reis concordava – São uns palermas, valdevinos, irresponsáveis. Isso devia ser permitido apenas no campo do Tabolado!

 

Entrementes, Tristão Camacho e Isolda Bernardes refugiavam-se em um sítio que julgavam recôndito às vistas de João Reis, do outro lado dos trilhos, onde poderiam conversar livremente e até ensaiar os primeiros beijos, não fossem os passageiros que já assomavam às janelas do comboio.

 

– Às vezes, meu ciganito, me dá um medo bem forte, que me não sai do pensamento. Que estou a fazer cá, junto a ti, tão parva de mim, a esquecer o que bem sabemos? Ora, portanto, que o meu pai…

 

O rapaz mostrava-se tranquilo. Ora deixa estar, brasilita, os outros que se governem! “Tem mais Deus a nos dar que o Diabo a tirar”! – Respondeu-lhe ela com outro adágio – Tens razão, “casamento e mortalha, no céu se talha” – e ele completou – Como se diz, “essa vida são dois dias”. Por enquanto, o que importa é “trazer água para o nosso moinho”.

 

Tiveram, porém, que deixar essa água para alguma incerta hora, dia, mês ou ano. O comboio deu o último sinal de partida e já se punha a correr nos trilhos em sua marcha inaugural… Pronto! João Reis e todos os mais, do outro lado da linha, iriam vê-los ali, juntinhos e, pior ainda... A SÓS!

 

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 Estação de comboios. Chaves (PT). Foto de jornal antigo. Data e autor desconhecidos.

 

Ao mesmo tempo, foi neste oito de julho e na mesma estação de comboios, aos incómodos calores do verão, que uma nuvem escura apareceu de repente a esconder, entre raios de temores e relâmpagos de deceção, o céu e o sol da felicidade de Aldenora. António Sidónio desapontou-a profundamente, ao lhe comunicar, de modo abrupto e desajeitado, que o copo d’água havia de se adiar por alguns anos, pois em breve o noivo estaria a entrar em um vagão daqueles e andar até Braga, a fim de estudar na Universidade. Isso era algo a que ele gostava muito, pois até já estava a sonhar com as capas e batinas negras, a queima das fitas, as alegres patuscadas com os colegas... e que ela não se desatinasse por causa disso, porque, afinal de contas, eles dois ainda eram muito jovens... e blá-blá-blá.

 

Aldenora logo se confessou enganada, vítima de uma imperdoável desatenção, fora do trilho certo e a lhe trilhar a alma, pois ele não falara sobre isso no dia do noivado. O rapaz então contestou, em rimas involuntárias – Mas sim, meu querubim, cuida que estive a falar sim, tu é que não prestaste atenção a mim, nem ao que eu te disse, enfim, a ti e a todos, por fim. Não alcançaste àquela altura, meu rico alfenim, que eu estava a falar que só depois de... – e ela cortou – Estás a me chamar de aluada?! – mas ele – Não, minha Nonô, nem pensei em tal despautério!

 

Tentou consolar a amada – Mas cuida que te amo demais, é só um tempinho de ficares a esperar que eu me forme, é o melhorio de nosso futuro! Pensa no quanto vão se orgulhar as nossas famílias, que em breve estarão aparentadas, com a indizível honra de terem, no seio de ambas, um – e encheu a boca, para um melhor arredondamento da palavra – um bacharel!

 

Nem ela! De pronto se mostrou amuada e pediu a Sidónio que, se essas eram mesmo as suas vontades, não lhe viesse mais ter à Quinta na semana vindoura. Ou, se calhar, não lhe viesse mais ter a casa, nunca mais – Ora vá com Deus! – disse ela, a lhe virar as costas.

 

O último vagão do comboio já estava quase a passar por Hernando e Aurora. Diante de tal aperreio, a rapariga sentiu-se aterrar da cabeça aos pés. Quando o comboio começou a sumir de vez, entre vivas e palmas, ninguém se pôs a entender porque uma bela rapariga, com um ar de toupeira tonta quando sai à luz do sol, estava sozinha e perdida ao outro lado da via-férrea. Felizmente, a menos do acender de um fósforo e a jeito de saltar logo adiante, o rapaz subira ao veículo, no intervalo entre vagões.

 

Semanas depois, no dia da indesejada partida do noivo, Aldenora não foi dizer-lhe nem mesmo até breve. Isso o deixou muito triste, pelo tanto que a queria presente, conforme lhe mandara dizer em um carinhoso bilhete. Entretanto, quando o Texas se pôs a apitar rumo ao Porto, antes de se distanciar para sempre, Sidónio pendurou-se à janela e pôde retribuir aos acenos de Nonô. Amparada por Aurita e Aurélia, a um sítio próximo da estação, a rapariga valia-se do próprio lencinho branco de rendilhados em volta, com o qual ele a mimara no dia do noivado e que trazia ao centro, com muito esmero na arte de bordar, as iniciais A. & A..